UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 14. Por Manuela Degerine.

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De Fátima a Caxarias

 

Voltamos às setas amarelas que, através dos próximos vinte e sete quilómetros, nos conduzirão a Caxarias. Os primeiros, à beira de uma estrada com camiões, não são propriamente agradáveis – mas avistamos Ourém, à direita, no cimo de uma colina. Viramos com alívio na direcção de Fontaínhas e, pouco depois, descobrimos uma casa tradicional muito bonita que, ignoro como, me passou despercebida em Novembro – talvez por não estar ainda pintada. Tem no pátio uma colecção de pedras furadas em contraste com o branco da parede e o amarelo, luminoso e original, das barras da porta, janelas e rodapé. Conversamos com o proprietário, que nos deixa encher as garrafas e nos confia ter trabalhado em França, onde economizou o necessário para orientar a vida em Portugal: agora cultiva as terras e sente-se feliz.


Três ou quatro quilómetros mais adiante, paramos para admirar uma fábrica de tijolo diante da qual se expõem os montes de argila, com cores e espessuras distintas, as máquinas antigas, ainda em actividade, as amostras de tijolo e telha… Outra maravilha que em Novembro me escapou: doía-me tanto a perna que toda a energia era pouca para o esforço da caminhada.


              Passa a carrinha do padeiro. Compramos uma broa de milho e centeio, cozida em forno de pedra, com uma côdea inconfundível – um pão sublime que Lisboa não provará. (É pena.)


Conversamos com outra cliente do padeiro. Explica em linguagem mascavada, para Maryvonne compreender alguma coisa, que viveu em França até o marido se reformar. Todos os dias passam por aqui caminhantes e ela vê mesmo, de vez em quando, uma mulher sozinha… Após a despedida analiso com Maryvonne o não-dito da conversa.


Recebi a mesma mensagem não verbal de Lisboa a Valença – estivesse só ou acompanhada. Os antepassados dos meus interlocutores iam à vila a pé, contudo eles vivem na era do tractor (ou do automóvel), não caminham quinhentos metros por dia, nunca se arriscam para além dos trilhos comuns; logo, quando fitam estes andarilhos, deparam com um enigma. Se, por um lado, os caminhantes parecem ser incréus citadinos e ter meios para circular de carro, por outro, pensam os perplexos observadores, só a fé justificará tamanho sacrifício, colossalmente impressionante, do seu ponto de vista… Mas que fé? Como a deles não passa, na maioria dos casos, de uma norma social, parece-lhes, sem se arriscarem a dizê-lo, que dispender tanto esforço e correr tantos riscos, não é apenas irresponsável, é também – e sobretudo – estúpido. Por conseguinte, se há tantos peregrinos, haverá sem dúvida outra explicação; é esta certeza que os torna tão desconfiados.


Há numerosas outras explicações. A minha, que é o desejo de ver, sentir, conhecer, empurrar as fronteiras do meus mundos – não é para eles aceitável. (Corremos por consequência o risco de prolongar o mal-entendido.)

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