Adolfo Coelho (1883) afirmou”os contos e rimas infantis parecem ser como o leite materno, que nenhuma preparação, por mais adiantada que esteja a ciência, poderá igualar”(1). Este autor chamou a estas criações literárias “pedagogia de amas”. Mal imaginava ele como a ciência viria a dar-lhe razão!
E continua: “ Da fórmula constam, essencialmente, ritmo e melodia, determinadas pela regularidade métrica e pela sonoridade das palavras, com relevo para a alternância de acentos fortes e fracos, para a rima e para as repetições. Constam ainda, gestos e mímica ligados intimamente à linha prosódica e também processos de carácter poético ou lúdico que alimentam a criatividade, com particular relevo para o nonsense. O seu modo de transmissão – de viva voz – pressupõe a proximidade, o prazer do contacto físico dos interlocutores e a permanente adequação comunicativa”(2).
Já aqui abordámos este assunto – “Os bebés e o mundo sonoro” – mas foi com especial prazer que voltei a encontrar este autor e ver nele esta intuição do que é hoje confirmado.
As mais antigas referências a canções de embalar portuguesas são do século XVI. E a diferença de nomes é deliciosa – canções de acalentar (quando o bebé está ao colo) e canções de embalar (quando ele está no berço).
Estes assuntos têm sido estudados no IELT, Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa.
Hoje, no corre-corre das nossas vidas, podemos comprar discos com músicas de embalar. Mas falta o contacto físico, falta o olhar olhos nos olhos… E aos fins de semana pais e filhos podem – pagando e bem! – participar em sessões de música para bebés. Que tal perguntarmos às nossas avós como eram as canções de embalar?
“A Lua nasceu e cresceu no além
A noite chegou também
Vai dormir meu amor
Vai dormir e sonhar
Deixa a lua crescer lá no ar
A roca poisou e largou seu fiar
Os olhos vai já fechar
Nada pode impedir
Que o amor durma bem
Nem mau sonho há-de vir
Nem ninguém
Tu verás meu amor
Como é bom sonhos ter
Deus te dê o melhor que houver
Anjo meu faz ó ó
Que eu velo por ti
Só aos anjos a lua sorri.”
(1) Elementos Tradicionais da educação, Lisboa, Livraria Universal
(2) Jogos e Rimas infantis, 1994, Porto, Asa



Que calorzinho tão bom!