A MATERIALIDADE DOS AFETOS – por Raúl Iturra

 

Pesquisava sobre o grupo doméstico, e encontrei este texto guardado entre tanta aula proferida ao longo de anos de docência. Pensei, vamos partilha-lo mais uma vez. Lá vai essa ideia proferida ao longo dos tempos, para ser mais preciso, em 2007.

 

 

Para os nossos discentes de Etnopsicologia da Infância.

 

As crianças observam-nos. As crianças sabem de nós. As crianças descortinam-nos. Esses pequenos seres entre os 12 meses e os cinco anos, imitam-nos. Procuram em nós uma satisfação sentimental das suas emoções e colmatar os seus desejos de uma resposta simpática no difícil processo de amar. Um processo que requer um parceiro, esse processo de ida e volta, conjugado no verbo amar: de simpatia, de antipatia, com raiva, ou, simplesmente, não amar. Em síntese, uma complexidade entre as relações baseadas nas emoções, nos sentimentos e na intimidade do desejo.

 

É esse descortinar dos nossos afetos que permite aos mais novos aprender a ser adultos, com bem ou mal-estar na cultura, como referia o nosso mestre Freud no seu texto de 1930, ao desenhar aberrações sexuais do seu tempo. Os mais novos escrutinam o nosso agir, decidem se é bom ou mau para eles e não vão a votos, é um observar sem democracia. Ditadura dos mais novos que obriga os mais velhos, a um comportamento adequado aos seus sentimentos definidos pela epistemologia cultural, que os mais novos desconhecem. É uma procura de simpatia, a mais primária das emoções, referidas no meu livro de 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo, Afrontamento, Porto, bem como no prévio de 1998: Como era quando não era o que sou ou O Crescimento das Crianças, Profedições, Porto. Remeto-lhes os livros onde esta ideia é mais desenvolvida por existir mais espaço real que virtual.

 

Ditadura, essa, referida ao adulto como uma entidade que ensina, predica, pratica sentimentos agradáveis e é observada com toda a atenção. Observação, capacidade baseada na existência de uma expressão emotiva dentro da qual os sentimentos adquirem uma materialidade que possibilita o descortinar de amores. Materialidade emotiva, como e porquê? A primeira ideia que me ocorre, é a da relação adulta e criança, esse carinho imenso que leva ao contacto físico, no dormir juntos, esse sadio relacionamento de beijos, abraços, apertos que, eventualmente, poderia levar ao prazer do orgasmo ao mais novo na sua natural procura de afeto. Ou do mais velho, facto delituoso definido pela lei como pedofilia.

 

Esta materialidade também acontece em outras sociedades, tal como a referida pelo Antropólogo Maurice Godelier entre os Baruya da Nove Guiné, no seu texto de 1981. Baruya ou etnia que pensa de forma analógica que a reprodução é possível quando acontece nos factos: tem-se sémen se é transferido entre jovens portadores e dado a beber ao pré-púbere, parte da vida incutida para a continuação social da vida na História.

 

O jovem Baruya mais velho, deve casar com a irmã do iniciado, mulher que passa a ser a mãe dos seus filhos. Esses beijos e abraços entre irmãos de qualquer idade, são denominados na nossa lei europeia delito de incesto, caso acabe, como tenho observado no meu trabalho de campo, em prazer erótico. Prazer que em outras sociedades, não é delito. Refere Bronislaw Malinowski, o fundador da Antropologia Social Britânica, no seu texto de 1928, que entre os grupos sociais da Melanésia, não há incesto se acontecerem relações eróticas entre parentes de clãs diferentes: os filhos o são apenas da mãe, e o homem, parceiro da mulher, necessariamente de outro clã. Não existe pai. Porém, não incesto. Para nós, o incesto é punido porque é corrente o seu acontecimento no processo da prolongada permanência sob o mesmo teto de pessoas de família consanguínea. Ocorre-me também pensar em outra materialidade de afetos descortinados pelas crianças, como a masturbação ou formas de auto erotismo, retiradas de qualquer espécie de código falado em família, notícias comentadas, da catequese e a confissão.

 

Conversas que levam a perguntar se a criança tem acarinhado as partes proibidas do corpo, interdições definidas de catecismos anteriores ao atual, sobre debilidade mental como consequência do auto erotismo. Costume social que intima a fazer parte do fair-play ou divertimento erótico entre adultos que a criança pode não ver, mas sabe que a porta do quarto, sempre aberta, ocasionalmente se fecha e fica proibido de entrar. Relação sexual íntima que passa a ser social devido aos adultos falar, sem explicar, em conversas de mesa. Diferente das formas referidas por Freud em 1918 entre os nativos australianos, ou por Georges Devereux ao falar dos nativos da Europa em 1932 ao compara-los com os Mohave dos EUA em 1961. Ritos organizados por adultos do mesmo sexo, como transferência dos mais novos param uma nova hierarquia social. Baseada, necessariamente, na sexualidade. Conversa ausente da vida familiar europeia. Ou, como Malinowski diz no texto invocado, ao perguntar aos ilhéus do Arquipélago Kiriwina se acontecia fellatio, amor entre o mesmo sexo, relações físicas entre adultos e crianças.

 

Os habitantes riram por causa do autor não saber do jogo sexual entre parceiros de diferentes clãs, no primeiro caso, o do carinho procurado entre amigos, no segundo caso, e a iniciação ritual para a vida adulta, no terceiro. Comportamento da prática material de sentimentos que entre todos nós existe e que têm lançado vários Códigos orientadores da conduta sexual, individual e em grupo, como os Dez Mandamentos o Lei Hebraica, as XII Tábuas da Lei Romana, do Código de Justiniano que legislou Europa entre 536 e 1453 até causarem guerras entre Estados por causa de se avassalar ou não, ao Vaticano. Disputas que levaram ao Direito Canónico a governar Europa, até a separação do Continente entre várias alternativas cristãs para o entendimento do real. Direito, berço da lei civil napoleónica que hoje orienta as nossas vidas. É possível apreciar que o elo de toda legislação vigente, está definido pelo controlo da sexualidade. O processo da sua materialidade não tem pensamento, a paixão carece da racionalidade que a teoria económica desenvolveu recentemente. Ou porque essa racionalidade não prevalece no campo da paixão.

 

A ditadura dos mais novos é necessária para que adultos de emotividade mal desenvolvida, ajustem os seus sentimentos à ética cultural. A geração que substitua procure esse único valor possível: amor oferecido, amor correspondido. Comportamento amadurecido capaz de entender as inúmeras mudanças da expressão material da afetividade na cronologia da vida. A ditadura dos mais novos é o grito de batalha que procura verdade, amor, definições do que não vê e não compreende. A adolescência, etapa difícil da vida, procura respostas empáticas e não apenas: isso não é contigo, ou análises de pais em desesperada procura de Françoise Dolto, Alice Miller e Daniel Sampaio. Derradeira lição que recebe um ser humano ao passar da juventude à paternidade. Paternidade que devia conspirar com a infância e escrever o livro da vida que tem por título a materialidade dos afeitos.

 

Este pequeno texto faz parte da minha análise da sexualidade infantil, que tendo vindo a desenvolver ao longo de este ano no blogue a viagem dos argonautas, para os adultos saberem e respeitarem o erotismo existente entre os mais novos, desse o quinto mês da gravidez da mãe. Como têm provado Melanie Klein em 1952, o próprio Freud em 1906 e o discípulo de Klein, o britânico Wilfred Bion, especialmente no seu texto de 1961: Experiencies in Groups. Wilfred Ruprecht Bion (Mathura, 1897 — Oxford, 1979) foi um psicanalista britânico, pioneiro em dinâmica de grupo.

 

Escreveu Experiências com Grupos (Londres: Tavistock, 1961), uma importante guia para os movimentos da psicoterapia de grupo e de encontro de grupo que começaram nos anos 1960, e transformaram-se rapidamente na pedra-de-toque para o trabalho de aplicações da teoria do grupo em uma larga variedade de campos. O pensamento geral de Bion enquadra-se no pensamento da escola da Teoria das Relações Objetais.

 

Vamos acrescentar estas ideias às desenvolvidas nos outros ensaios deste blogue sobre o respeitável erotismo infantil, devido como ensino a pais que têm descendência que procuram parceiros para satisfazer a libido, matéria da qual poucos falamos, mas que deve ser definido para o adulto defender seus rebentos da forma que deve ser, sabendo que a libido começa antes do nascimento.

 

 

 

 

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