UM CAFÉ NA INTERNET – Luta armada contra a ditadura – debate com operacionais da LUAR, BR e ARA. Um debate moderado por Carlos Loures.

Um Café na Internet       Este debate já foi publicado anteriormente no Estrolabio.

 

No arranque deste debate que ficará depois aberto a todos os leitores, vou entrevistar elementos das três organizações que até a 25 de Abril de 1974, moveram essa resistência armada – A LUAR, as BR e a ARA. São eles, por ordem alfabética, Carlos Antunes, comandante operacional das Brigadas Revolucionárias; Fernando Pereira Marques, elemento do comando da LUAR que tentou ocupar a cidade da Covilhã no Verão de 1968 e José Brandão, que integrou a ARA, a organização armada  do Partido Comunista Português. Todos eles meus amigos de longa data. É uma conversa entre amigos, portanto, esta que transcrevo da gravação.

 

Antes de mais, as resenhas biográficas dos três participantes:

Fernando Pereira Marques

 

http://app.parlamento.pt/webutils/getimage.aspx?id=167&type=deputado

 

Fernando Alberto Pereira Marques, nasceu em Coruche em 1948. Militante da LUAR, participou na tentativa de tomada da cidade da Covilhã, em Agosto de 1968, chefiada por Hermínio da Palma Inácio, na sequência da qual foi preso pela PIDE. É doutor de Estado em Sociologia pela Universidade de Amiens (França) e professor universitário. Foi dirigente nacional do Partido Socialista e deputado à Assembleia da República. É autor de diversos livros de ensaio e investigação entre os quais se destaca: «Exército e Sociedade em Portugal» (1989), «Do Que Falamos quando Falamos de Cultura» (1994), «Exército, Mudança e Modernização na Primeira Metade do Século XIX» (1999), «A Praia Sob a Calçada – Maio de 68 e a “Geração de 60”», (2005).

José Brandão

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José Augusto de Jesus Brandão, nasceu em Lisboa em 1948. Operário metalúrgico, entre 1969 e 1971 esteve na guerraem Moçambique. Ligadoà ARA a partir de 1972, participou em diversas operações de reconhecimento de objectivos. Esteve preso pela PIDE em 1973. Após a revolução de Abril, foi empregado na Carris e dirigente sindical. Militante do PS, foi membro da Comissão Nacional entre 1980 e 1988 e, entre 1985 e 1987, pertenceu à Comissão Política. Historiador, especializado na violência armada no período contemporâneo, tem uma vasta obra publicada, da qual se salienta: «Sidónio – Ele Tornará Feito Qualquer Outro» (1.ª ed. 1983), «Carbonária – O Exército Secreto da República» (1.ª ed. 1984), «100 Anos por 1 Dia», (1987), «.A Noite Sangrenta» (1991),«Suicídios Famosos em Portugal» (2007); «Portugal Trágico – O Regicídio»,(2008), «Cronologia da Guerra Colonial» (2008) e «A Vida Dramática dos Reis de Portugal» ( 2008).

Carlos Antunes

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Percurso político iniciado em 1955, no Porto, com a adesão ao Partido Comunista Português (PCP); em 1958, designado responsável pela organização clandestina do PCP na província do Minho; em 1959, passagem à clandestinidade, em Lisboa, tornando-se funcionário clandestino do Secretariado do Comité Central do PCP; em 1963, torna-se membro da direcção da Rádio Portugal Livre, instalada na Roménia. Permanece nesse país até 1966;no final de 1966, torna-se responsável pela organização do PCP no estrangeiro e instala-se clandestinamente em Paris. Álvaro Cunhal, Secretário-geral do PCP instala-se também em Paris, tentando os dois uma reorganização do partido. Em 1968, com o desaparecimento de Salazar e a chegada ao poder de Marcelo Caetano, acentuam-se as divergências entre Carlos Antunes e Álvaro Cunhal, o que dá origem a cisão por parte de Carlos Antunes.

 

Em 1969, cria-se um núcleo inicial que dará origem às Brigadas Revolucionárias e ao Partido Revolucionário do Proletariado. Regresso a Portugal numa situação de clandestinidade, tornando-se responsável pela criação e orientação das Brigadas Revolucionárias. Entre 1969 e 1974, foi líder das acções das Brigadas Revolucionárias. Em 1973, participa na criação do Partido Revolucionário do Proletariado. Em 1974 publica o «Dossier Brigadas Revolucionárias». Em 1977, foi acusado de autoria moral de várias acções armadas, assim como de movimentos e acções revolucionárias. Entre 1977 e 1982, permanece em prisão preventiva. Cerca de cinco anos após a libertação, é julgado e absolvido.

 

Organizador e conferencista do Seminário decorrido no Museu da República e Resistência, em Lisboa, sobre a luta armada em Portugal entre 1926 e 1974. Co-autor do livro «Ecosocialismo – Uma alternativa verde para a Europa», editado em vários países da Europa, em 1990.

 

 

Carlos Loures : O Partido Comunista Português, mesmo depois do XX Congresso do PCUS, em que muita coisa mudou nos PCs, considerava  a luta armada como uma forma «aventureirista», «divisionista», «guevarista», «castrista», «blanquista», de enfrentar o regime. Que pressupostos ideológicos estavam por detrás da vossa luta das Brigadas, Carlos Antunes?

Carlos Antunes (Brigadas Revolucionárias): O Partido Comunista Português rectificou a linha política saída do V Congresso em que considerava a possibilidade da passagem ao socialismo por via pacifica, que era o resultado mecânico da colagem às teses do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Admitindo que só era possível derrubar o regime fascista português pela violência, começou-se então a falar na via insurreccional.

CL – E que efeitos teve essa decisão na prática?

CA – Pois, uma coisa é falar, outra muito diferente é praticar. Os anos foram passando e a prática neste domínio não aparecia. Houve uma fase de contestação desta situação por todos quantos aderiram ao marxismo-leninismo, digamos, ao maoísmo, mas que foi sol de pouca dura, porque sobre ele se abateu a repressão que os deixou durante anos completamente desorganizados. Entretanto, no interior do partido cada vez se exigia mais a necessidade de acções armadas, sobretudo de sabotagem à guerra colonial. É neste contexto que se dá a nossa cisão com o Partido Comunista e se começa a organizar as primeiras Brigadas Revolucionárias.

CL – Já desenvolveremos mais esse aspecto, Carlos. Fernando, qual era o suporte ideológico da LUAR?

Fernando Pereira Marques (LUAR) – Além do PCP, muitos outros acusaram a LUAR de vários “ismos” dado que, precisamente, a nova organização privilegiava o carácter antifascista, colocando-se fora de disputas teóricas estéreis sobre quem era a verdadeira “vanguarda da classe operária”. Isto não significou que, progressivamente, não se fosse definindo uma orientação claramente socialista não-dogmática e democrática, patente em vários documentos, no jornal “Fronteira” que se editou no estrangeiro e na acção desenvolvida, quer na emigração – em vários países – quer no interior do país, até criando pontes com meios, como o dos chamados “católicos progressistas”.

CL – Qual era, então, o tipo de militantes que a LUAR reuniu no princípio? Que experiência tinham da luta clandestina?

FPM – Estas mesmas razões levaram a que, entre as suas fileiras, não houvesse militantes com experiência de clandestinidade e de organização, como tinha por exemplo quem passara pelo PCP, e, por isso, muitos erros se cometeram e muitos projectos foram falhados. Mas tal não impediu que se tivesse marcado indelevelmente uma nova etapa na luta contra o Estado Novo, quer durante o salazarismo, quer na sua última fase marcelista.

CL – José Brandão, ponho-lhe a mesma questão que coloquei ao Carlos e ao Fernando, ainda que se suponha que os militantes da ARA, seguiam ideologicamente os princípios que norteavam o PCP…

José Brandão (ARA): – Bem, não foi bem assim. Porque, mais do que uma ideologia comum, o que juntou à ARA um bom número de activistas operacionais foi o desejo de passar à acção directa, particularmente por parte de militantes e simpatizantes com preparação e experiência militar na guerra colonial. Onde o PCP era especialmente ideologia, a ARA era sobretudo acção armada. Os actos de sabotagem que praticou não tinham, nem podiam ter, a ilusão de derrubar o regime, tão só de o corroer. Mas a ideologia estava subjacente.

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CL –  Já agora, e embora possa parecer uma pergunta um tanto provocatória, não resisto à tentação de lha colocar –  se a acção directa sempre foi condenada pelo PCP, como se explica que o Partido tenha criado uma organização destinada a conduzir um tipo de luta que reprovava?

JB – As condições históricas justificam essa contradição. Desde 1962 que a luta contra a ditadura se vinha radicalizando aceleradamente. Junto da direcção do PCP cresciam as pressões para a luta armada. Pressões exteriores decorrentes do ambiente político e pressões da própria organização. Em 1964 Álvaro Cunhal mostrou-se favorável às «acções especiais» no contexto da «luta de massas» e empenhou-se, ainda que de forma cautelosa, na criação da estrutura que as pudessem desencadear sem envolver directamente as organizações do PCP. A ARA apareceu em 1970 principalmente porque o PCP não podia deixar o espaço da resistência armada nas mãos de outras organizações como a LUAR ou as BR,  que entretanto surgiam.

CL – Pois, essa é a resposta mais honesta e mais óbvia, mas, estou certo, não seria aquela que o PCP daria…

JB – Claro que não. Mas, como diz, é a única resposta correcta e credível

CL – E o José já não é militante do PCP…

JB – Pois, é verdade. Mas veja, naquela altura o jornal «Avante» não ia querer repetir a mesma conduta que tivera aquando do aparecimento da FAP – Frente de Acção Popular, em Abril de 1964, e em que o órgão comunista denunciou publicamente a entrada no país de alguns dirigentes desta dissidência liderada por Francisco Martins Rodrigues, que defendia a acção armada como única via de derrube do regime salazarista, sendo que os principais dirigentes e outros militantes foram presos pela PIDE. Contudo seria a partir deste pressuposto, de que o regime só cairia pela violência e nunca pela luta legal, que iriam surgir as organizações armadas que fazem o PCP dar luz verde ao aparecimento da ARA.

CL – Mas…

JB – Se não se importava gostava de desenvolver um pouco mais este tópico. Posso?

CL – Claro que pode.

JB –  A existência da ARA foi sempre um engulho que a direcção do PCP nunca deixou de evidenciar. Tinham uma espécie de vergonha da organização que vivia na sua sombra e da qual eram responsáveis. Mesmo depois da liberdade do 25 de Abril de1974 a direcção comunista procurou por todos os meios afastar do seu seio a mais diminuta ligação à ARA. Alguns dos operacionais que tinham sido presos pela PIDE/DGS em 1973 e que não eram membros efectivos do PCP foram mesmo travados de entrar para militantes e aconselhados a irem para o MDP/CDE. O Partido de Álvaro Cunhal não queria aparecer relacionado com bombas e atentados com medo de perder votos na democracia que dava os seus primeiros passos. Ainda em 1986, as Edições Avante publicaram um livro sobre a vida de Francisco Miguel, um dos principais dirigentes e activista da ARA, onde não era feita a mínima referência a esta sua participação na luta armada, sendo o mesmo apresentado como um vulgar reformado vindo de África, pacatamente dedicado à sua horta, ás suas flores e aos seus coelhos. Só em 1999 e com a publicação em perspectiva do livro de Raimundo Narciso, apareceu o Jaime Serra a contar a sua história da ARA com ligação ao PCP.

CA – Era o comportamento característico do PC.

JB – Sem dúvida. Todavia, é curioso que, em vários casos houvessem mesmo algumas desconfianças sobre a real disposição do partido de finalmente passar à acção armada. A lentidão na passagem à prática das acções armadas deve-se fundamentalmente a problemas políticos ligados à orientação, vinculada à política de blocos, do PCP. Só com a entrada de dirigentes como Gabriel Pedro, Jaime Serra, Francisco Miguel, Raimundo Narciso, Joaquim Gomes, Rogério de Carvalho e Ângelo Veloso e alguns outros foi possível ganhar a autoridade política necessária para vencer todas as resistências da direcção e da organização do partido ao lançamento de acções armadas. Gabriel Pedro foi, sem dúvida, um elemento chave na criação da ARA. Nasceu em 1898. Faleceu em 1972,em Paris. Natural de Lisboa. Pai de Edmundo Pedro, de mais dois filhos e uma filha. Deportado para Timor, em 1925 e para a Guiné-Bissau, em 1928, evadiu-se ambas as vezes. Preso 9 anos no Campo de Concentração do Tarrafal. Exilado em Paris veio a Portugal clandestinamente participar na acção do Cunene. A Gabriel Pedro cabia o mais importante papel desta operação.

CL – E, já agora, como e quando, com quem, iniciaram as vossas acções?

JB – A primeira acção da ARA  foi a sabotagem do navio Cunene, em Outubro de 1970 – o PCP recorreu a um velho quadro do partido. Velho no sentido literal, com 72 anos… Era um homem muito rijo, profundo conhecedor do rio Tejo. Tinha uma história política muito interessante. Entrou e saiu do PCP várias vezes sendo militante quando faleceu. Outro operacional de destaque na ARA foi Raimundo Pedro Narciso. Aderiu ao PCP e andou vários anos na clandestinidade, de 1964 e 1974. E foi na clandestinidade que integrou a Acção Revolucionária Armada (ARA), pertencendo ao Comando Central de1970 a 1974. Raimundo explicou que aceitava passar à clandestinidade por lhe ter sido garantido que, finalmente, o partido iria passar às “acções especiais”, sendo-lhe destinado um papel na direcção dessa “frente de trabalho”.

CL – E as cúpulas do Partido aceitavam assim, sem mais nem menos, a prática de actividades que sempre designou como «aventureiristas»?

JB – Não, completamente. Conforme se refere no livro que Raimundo Narciso publicou em 2000, ARA – A história secreta do braço armado do PCP, a direcção do PCP mostrou resistências à luta armada. Houve resistência de quadros superiores e intermédios porque era essa a orientação ideológica vinda de cima. Álvaro Cunhal estava na origem da organização mas não queria que as cabeças «esquentassem» com a luta armada, que não estava inscrita na táctica política delineada. Aliás, dava-se combate político e ideológico às forças – como grupos maoístas – que defendiam a luta armada. Depois da primeira acção (o Cunene), houve organizações do PCP que não aplaudiram. Houve mesmo quem tivesse condenado. Estruturas das universidades de Coimbra e do Porto, por exemplo, e até alguns militantes que estavam nas prisões de Caxias e em Peniche, e que a classificaram como uma acção aventureira.

CA – Claro, o costume.

JB – Sim, tem razão, costume. Na sua qualidade de lutador antifascista, Raimundo Narciso foi medalhado pelo Kremlin em 1965 e vinte anos depois, em Maio de 1985, regressou a Moscovo para mais uma condecoração. Desta vez recebeu-a de Mikhail Gorbachev. Anos depois, viria a compreender, que o comunismo não é reformável e que, se tivesse vencido em Portugal, teria conduzido aos mesmos resultados catastróficos e à mesma negação das liberdades fundamentais e da dignidade humana que se verificaram em todos os países do chamado “socialismo real”. Mas, Raimundo não considera que a sua vida de revolucionário tenha sido em vão! Porque a sua acção, como a da ARA, contribuiu para criar as condições para o derrubamento do fascismo e para a instauração de um regime democrático – o único quadro possível e legítimo para a esquerda na qual continua a militar. Em 1989 Raimundo Narciso afastou-se do Partido Comunista e foi um dos fundadores da Plataforma de Esquerda, em 1990. Foi eleito deputado do PS em 1995. Muitos dos ex-«aristas» foram abandonando o PCP. Alguns aderiram ao PS, outros estão no Bloco de Esquerda, outros deixaram a militância partidária.

CL – Carlos, ponho-te agora a mesma pergunta que fiz há pouco ao Fernando – de onde provinham os primeiros militantes das Brigadas? E como é que surgiu a designação Brigadas Revolucionárias?

CA – Pode-se afirmar que a esmagadora maioria dos militantes das BR provinha do PCP e se afirmava marxista. A propósito do nome a dar à futura organização política deu-se uma discussão em que alguns desejavam que na sua denominação se usasse o termo comunista e outros que achavam que a palavra já estava suficientemente conspurcada. Que nos afirmávamos marxistas e o desejávamos ser não há dúvida mas crescia e desenvolvia-se dentro de nós um espírito anti-estalinista e houve um aprofundamento da leitura histórica dos teóricos como Rosa Luxemburgo e Pannekoek, entre outros.

CL – Mas havia gente oriunda de outras correntes.

CA – Como sabes, muitas pessoas de outros estratos, como os católicos, que se tinham radicalizado por via da luta anti-colonial, aderiram às Brigadas e deram um contributo importante sem que as questões ideológicas tenham contribuído para nos afastar. Diria mesmo que talvez isso nos tenha ajudado a libertar da pecha do sectarismo, sem prejudicar os nossos objectivos. 

(Continua)

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