Um café na Internet
São três e meia da tarde. Largo a mochila, descalço as botas, bebo uma garrafa de água, sento-me um instante: logo me sinto melhor. Um espanhol informa que me devo inscrever no café do outro lado da rua; pago os cinco euros da dormida, recebo a protecção dos colchões, compro um litro de leite: sinto-me já muito melhor.
Entretanto chegam as raparigas alemãs que não falam línguas estrangeiras – as quais logo se dirigem para o duche. Oiço berros mas não presto atenção. Após os preparativos, entre os quais a lavagem das cuecas, peúgas e sutiã que vestirei (calçarei) molhados, após o duche, também avanço naquela direcção. Abro a torneira – e berro! Was ist das?!… A resposta é inequívoca: não há água quente. Em Lisboa, durante a Primavera, Verão e parte do Outono, quase não me sirvo do esquentador, porém aqui o contraste entre o frio água e o calor do ar produz um desagradável choque térmico. Não vale a pena sublinhar que o duche é rápido…
Antes de mim chegaram três espanhóis. Enquanto lavo o resto da roupa, converso com um deles, que vem das Canárias e caminha com amigos, polícias na região de Madrid; começaram o Caminho Português em Braga.
A parte de trás dos meus tornozelos exibe um intenso tom de vinho e o inchaço dá-lhe um aspecto alarmante. Toda a gente exclama:
– Ah, cuidado! Isso não é boa coisa…
O peregrino das Canárias vai buscar a bem fornecida bolsa dos medicamentos: dá-me uma pomada para as bolhas, a mais antiga das quais, bastante repisada, também não mostra boa aparência; e outra pomada anti-alérgica para eu untar a parte de trás das pernas.
Chegam os suecos. Happy to see you, Manuela. Sabendo que eu dormiria em Mós, passaram pelo albergue do Porrinho, decidiram-se a continuar; também gosto afinal de voltar a encontrá-los.
Lena assusta-se perante o estado das minhas canelas. Como lhe narrei a peripécia da doença de Lyme, a qual pode ter complicações dermatológicas, acaba por aconselhar num tom grave:
– Convém ires a um especialista.
Conheço a minha pele… A simétrica posição dos inchaços vermelhões, correspondendo à zona queimada quando, por volta do meio-dia, caminhava de Sul para Norte – parece-me bom sinal. Fui em Vilarinho picada por percevejos, provavelmente, a fricção da bota acrescentou-se a esta inflamação e a alergia ao sol completou o desastre. No entanto, por prudência: decido-me a interromper a caminhada. (E se, nos próximos três dias, a alergia não se acalmar, apanho o avião para França.)

