Armando Cortes-Rodrigues foi o responsável por a minha mãe – MARIA CECÍLIA CORREIA -ter ousado publicar as poesias, e mais tarde os livros que escreveu. Amigo de seu tio materno, o pintor Domingos Rebelo, escrevia-se com minha avó e, mais tarde começou uma troca de correspondência com minha mãe.
De suas cartas, na sua maioria em letra muito bonita e de traço largo, que transcrevi todas, retirei algumas passagens que creio terem interesse e se relacionarem com muito do que tem sido abordado em “A Viagem”.
(…) “E eu a lembrar-me que a gente tem vontade de queimar tudo quanto escreve e que o Claude Monet queimou seus quadros seus antes de morrer… A tortura da arte só a sente os artistas. Mas nós somos como as aves ( ou como os grilos, se quizer) porque o nosso dever é cantar quer os outros ouçam quer não. Mas há sempre alguém que nos lê e nos entende. E isso basta. E mesmo que ninguém nos lesse ? Que importa ? Cada poema nosso é uma gotinha d´água no mar da arte. O que seria o mar sem as pequeníssimas gotas de água que lhe mantêm a sua grandeza ? (…)
Armando Cortes-Rodrigues – 1948. Agosto, 28
(…) “Eu gosto muito de citar aquelas palavras de Rainer Maria Rilke – tenho por ele a mais profunda e inteira admiração e a Cecília Meireles também – por as achar tão cheias de profundidade e beleza: “Les poètes comme
les enfants entendent seules les choses chanter”. Mas a missão da Poesia – e daqueles que a servem – é erguer bem alto esta luz de espiritualidade que marca outro caminho do desvario dos homens.” (…)
Armando – 11 de Outubro de 1948
(…) « Lembro aquelas profundas palavras de Rodin: « L’art ne commence qu’ avec la vérité intérieure. Ne comptez pas sur l’inspiration. Elle n’ éxiste pas. Les seules qualités de l´artiste sont – sagesse, attention, sincérité, volonté. Accomplissez votre besogne comme d’ honnêtes ouvriers »
Tenho uma grande admiração por este homem que foi o maior artista do seu tempo e que acreditou na verdade da sua arte: “ Le grand point est d’ être ému, d’ aimer, d´espérer, de frémir, de vivre. Être homme avant d’ être artiste ».
Foi com ele que Rilke aprendeu a dura lição do trabalho.
Armando Cortes-Rodrigues – 15 Janeiro de 1949



