UM CAFÉ NA INTERNET
O Chico é um indivíduo que há mais de nove anos, todos os sábados ou domingos, toca a campainha a pedir o meu contributo semanal. Nunca falta, salvo por doença, e se em um desses dias não abrimos a porta ele volta durante a semana.
O Chico despreza os prédios pelo que só “ataca” moradias. Com os prédios perde-se muito tempo e não dá a conta, confessou-me em resposta a uma pergunta direta que lhe fiz. A rua onde moro é curta e, certamente, a colheita fraca, mas para o Chico todas as ruas são boas desde que recolha alguma coisa. As qualidades são a regularidade e a persistência de modo a conquistar um lote de “clientes” Assim, com esta regularidade conseguiu conquistar um lote de “clientes” que, no seu caso, não imagino quantos sejam.
O nosso homem veste o figurino físico calhado para a atividade que desempenha; sujeito relativamente baixo, bastante magro, curvado, um ultra leve capaz de andar na casa dos cinquenta e muitos. Devido a problemas nos pés tem um andar escangalhado, balouçante, ora à esquerda ora à direita, transmitindo a sensação de que a qualquer momento o esqueleto desmancha-se como se fosse peças de um lego . O rosto é a imagem de marca da angústia da pobreza expressa nos olhos pretos, tristes, atirados lá para o fundo das órbitas. Na cara contam-se os ossos e as rugas profundas, direi sofredoras, marcadas na pele. Mas a barba sempre feita, de um tipo desenxovalhado.
Fala com voz baixa, escura, de uma lentidão exasperante como o ministro da finanças Vítor Gaspar, todavia, suficiente para eu saber certas coisas, deste homem, ao longo de tantos anos.
No entanto desconheço quando e porquê começou a pedir embora desde sempre tenha rejeitado pedir em posto certo, de mão estendida, à espera das esmolas caindo do céu. Em todas as profissões é preciso fazer pela vida e a de pobre não é exclusão. Há que combater a inércia, o lamento, a desgraça, de modo a evitar passar o drama para os “clientes”. Pedir com dignidade é um imperativo e uma técnica nada fácil pelo que ele logo de início estabeleceu a sua estratégia: pouca conversa e muito trabalho a procurar almas generosas selecionando as melhores ruas que torne o palmilhanço eficaz.
Ao princípio o Chico habitava numa barraca daquelas sórdidas, feitas com tábuas, pedaços de cartão e folhas de zinco. Queixava-se muito do frio e do ca, conseguindo obter algum velho calorífero e ventoinha para amenizar o ambiente na barraca. Há anos passou a viver num quarto alugado e fiquei satisfeito quando me deu a notícia. Além do dinheiro dão-lhe roupas, sapatos, cobertores, comer, utensílios, um rádio portátil e um televisor de um “cliente”. Numa certa medida posso dizer que a sua sina melhorou bastante mas também testemunho que para tal trabalhou honradamente, percorrendo quilómetros e quilómetros a pé, todos os dias da semana, sem sábados, domingos ou feriados. Jornadas incansáveis de persistência e de informação atualizada sobre locais onde oferecem almoços e roupas a pessoas carenciadas.
A sua profissão desconhece o desemprego mas conhece bem demais a concorrência que tem aumentado, e muito, nos últimos anos. A crise toca-lhe porque as pessoas passaram a dar menos e há casos em que perdeu “clientes” por estarem afogados em dívidas. Ele, pedindo aqui umas calças, além uma camisa, noutra porta uns sapatos vai formando o guarda-roupa que lhe permite andar de forma modesta mas limpo e arranjado. Como ele diz: “Um pobre, lá por ser pobre, deve andar limpo e cuidado”.
Imperturbável continua a sobreviver num recanto escondido dos conflitos nacionais pelo que está totalmente isento de impostos e taxas, sem férias nem gratificações não reclama, se alguma vez reclamou. Desconhece o mercado (salvo o dele) e as ordens da troika, borrifa-se para quem manda porque só obedece a si próprio. Ou seja, é um indivíduo autenticamente livre porque nega-se a mergulhar no nosso pântano do consumismo, das aparências, da mentira e da hipocrisia.
Eu gosto do Chico! Aliás, eu e a minha mulher gostamos do Chico e sentimos a falta quando está algum tempo ausente. O Chico não tem aparecido, estará doente? Quando regressa conta umas tretas na sua voz sumida. Depois, se ela vai à porta pergunta por mim, ou vice versa, pela filha, pelo netinho, até pela saúde do nosso cão Belchior antes dele morrer.
Acreditem que tenho por este homem uma particular simpatia. Regozijo-me com a sua astúcia, a sua humildade, o seu penoso trabalho de andarilho de pedir. Pela sua forma livre de viver sem penhoras, sem dívidas aos bancos, sem avales de letras, sem prestações, sem empréstimos, sem amargos fiscais, sem ódios, sem stress, sem empréstimos, sem automóvel, sem telemóvel, sem pressas, sem conflitos. Não fuma, não bebe, não joga o poker, não tem companheiros e trabalha sozinho. Uma vez por ano, no verão, vai à terra de férias para ver a família e, certamente, depositar no banco algumas das suas economias.
O Chico está incluído no segmento da economia paralela e nenhum dos seus “clientes” pensa pedir-lhe fatura da sua dádiva.

