Resposta ao comentário de João Machado – por Pedro de Pezarat Correia

Os meus cumprimentos a João Machado e agradeço as pertinentes questões que colocou. No entanto, particularmente a primeira questão, não permite uma resposta linear.

 

1) Historicamente a geoestratégia e a política externa dos EUA tem alternado segundo dois eixos: intervencionismo v. isolacionismo (maior ou menor tendência para participar além fronteiras na resolução das crises internacionais) e multilateralismo v. unilateralismo (maior ou menor tendência para partilhar decisões com os seus parceiros nas instâncias internacionais).

 

Alguma atracção para catalogar esquematicamente os democratas como mais intervencionistas e multilateralistas e os republicanos como mais isolacionistas e unilateralistas não resiste a uma análise descomprometida. É certo que, vistas as experiências mais recentes, foram os democratas que levaram ao lodaçal do Vietnam e acabaram por ser os republicanos que lhe puseram termo, mas apesar das proclamações isolacionistas de W. Bush (republicano) na sua primeira campanha eleitoral contra as intervenções de Clinton (democrata) nos Balcãs, acabou por enterrar os EUA nos pântanos do Iraque e do Afeganistão, contra as demarcações dos democratas que, para já, encerraram a intervenção no Iraque e anunciam a saída do Afeganistão.

 

Já quanto ao eixo multilateralismo v. unilateralismo diria que tem sido mais constante a maior vocação multilateralista dos democratas e a maior vocação unilateralista dos republicanos, bem expressa, por ex., nas grandes directivas estratégicas da casa Branca das presidências W. Bush e Barack Obama.

 

O que tem determinado as opções é fundamentalmente o poder relativo dos vários lobbies (caucus), industrial-militar, judaico, petrolífero, árabe-saudita, afro-americano, etc., etc. em cada momento ou perante cada conjuntura. Mas há uma questão que, a mim me leva, apesar de tudo, a desconfiar mais de uma administração republicana: é que o mal-digerido fracasso da administração W. Bush precisa de ajustar contas e os neoconservadores republicanos têm uma perspectiva mais hard do império mundial liderado por Washington, contra a perspectiva mais soft dos democratas.

 

2) Sabe-se como sempre as situações de crise geram tentativas de encontrar inimigos externos que desviem atenções, transfiram tensões e possam apelar a falsos unanimismos internos. Se extrapolarmos esta constante dos velhos Estados-nações europeus para o actual espaço político mais amplo que é a UE, justifica-se que estejamos alerta. Tanto mais que já alguns petits Bonapartes como Sarkozy engrossam a voz face ao Irão e continuam em cargos de responsabilidade homens como Durão Barroso e Paulo Portas que recorreram à fraude e à mentira deliberadas para envolverem Portugal na guerra de agressão ao Iraque.

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