EM COMBATE -20 – por José Brandão

Batalhão de Caçadores 443

 

ANGOLA

 

1963-1965

 

 

O BAPTISMO DE FOGO

 

A vinte de Abril de 1963, desembarcou em Luanda os militares que compunham o Batalhão de Caçadores 443, seguindo de imediato para o Grafanil, local onde se concentravam as tropas antes de seguirem para os seus destinos, assim como para se ambientarem um pouco e habituarem ao calor tórrido que se fazia sentir naquele território Africano. Três dias depois embarcamos em coluna militar, (camionetas de carga), com destino à zona que nos foi destinada ou seja Quitexe.

 

Posta a coluna em andamento, e algumas dezenas de quilómetros após a partida, numa altura em que a coluna parou para descanso, alguém inadvertidamente deu um tiro, e escusado será dizer que toda a Companhia desatou aos tiros contra imaginários inimigos. Foi o descarregar de uma tensão latente em todos. Era um nervoso miudinho à flor da pele, juntamente com a inexperiência de todos nós em situações similares, e que deu num infernal tiroteio.

 

Refeitos do susto, lá seguimos viagem em cima dos camiões e alguns quilómetros à frente juntou-se uma escolta, visto entrarmos numa zona muito perigosa. Ao passarmos por terrenos junto à Pedra Verde, local açoitado pelos Turras, fomos surpreendidos por um intenso tiroteio, vindo de um morro que circundava a estrada por onde seguíamos.

 

Estávamos a ser atacados e desta vez era mesmo verdade. Um jipão que compunha a nossa escolta, levando uma metralhadora pesada em cima fazia fogo ininterrupto, percorrendo em alta velocidade o caminho por onde seguíamos. Este ataque sim era verdadeiro e nós maçaricos, recém chegados a Angola, inexperientes, sem controlo e sobretudo com muito medo, lá nos fomos desenrascando e com a ajuda da escolta conseguimos que os turras debandassem.

 

Quando o tiroteio terminou, e começaram a chegar ordens para nos reagruparmos, foi engraçado de ver de onde surgiam os nossos soldados. Por baixo das camionetas e atrás dos pneus, de dentro da mata que estava em frente do morro onde se acoitavam os turras que nos atacavam. Todos saíam dos sítios mais inverosímeis. Um desses militares que estava no lado atrás descrito estava com tanta vontade de matar alguém, e vendo uns arbustos de uma árvore mexerem-se desatou aos tiros julgando ser um turra mas afinal era um macaco. Outro também conseguiu passar a estrada e ir para o outro lado (não muito longe do militar atrás referido), e logo de imediato procurou pôr-se ao abrigo das balas, saltando por cima de uma enorme árvore caída e ali dando alguns tiros para o morro situado à sua frente. Quando tudo já estava calmo este militar, tentou passar novamente a já referida árvore, e quando lhe colocou o pé esta desfez-se como pó. Mas que rico parapeito este militar arranjou. Uma bala passaria por aquele tronco como uma faca quente em manteiga. Quando todos estavam reagrupados, uma coisa deu para se notar.

 

O medo estava estampado no rosto de todos, lívidos, suando abundantemente (suores frios com certeza). Com algum custo lá fomos subindo novamente para as camionetas em direcção ao Quitexe. Bolas!!! Era a primeira vez que a malta apanhava tamanho susto, e a heroicidade ainda não era o nosso forte. Logo nessa emboscada tivemos a primeira baixa. O 1º Sargento Tinoco lesionou-se gravemente num joelho, ao saltar da camioneta, sendo mais tarde evacuado para a Metrópole.

 

E foi assim que a 25 de Abril chegamos ao Quitexe, sendo recebidos como heróis, terra essa que iria ser o nosso poiso durante um ano. As outras companhias seguiram para o seu destino. RECORDAÇÕES Estávamos nós em sossego a ver um filme de guerra no Cine Barracão. O barulho atingia o auge, o tiroteio era infernal, com bombas a deflagrarem por todo o lado. Estava-mos tão entretidos a ver o filme que nem ouvimos o barulho estranho ao tiroteio que vinha da tela, quero dizer da parede pintada de branco. Esse barulho intensificou-se e então reparamos que estavam a bater fortemente no portão que dava acesso ao dito cinema (antigo barracão onde se guardava café, daí o nome). De imediato parou-se o filme e fomos ver do que se tratava. Aos gritos alguns civis, berravam que o Quitexe estava a ser atacado.

 

Saímos em alvoroço, porque a nossa guerra já era outra, e no lado de fora do referido cinema deparamos com um enorme tiroteio que partia das torres de vigia que ladeavam o Quitexe. Nestas os nossos soldados mandavam fogo ininterrupto para o capim, e mais abaixo o matraquear de uma metralhadora pesada manuseada pelo pelotão de Nova Lisboa, ainda ajudava mais ao caos instalado. Corremos para os nossos quartos e casernas para ir buscar as nossas armas, mas aos poucos o tiroteio foi passando.

 

Ficamos um pouco à deriva, às voltas como baratas tontas, sem compreender-mos o que se tinha passado, quando avistamos ao longe no limiar da povoação, uma luz que nos pareceu ser de uma lanterna, que hora estava acesa ou logo se apagava. Imediatamente fomos com muita cautela, averiguar o que se passava, e pé ante pé, procuramos cercar o local onde se encontrava a referida luz, e quando estávamos prestes a atacar o intruso é que demos conta que quem andava por ali, com uma lanterna na mão e uma espingarda na outra era nem mais nem menos que o nosso comandante, que sozinho, com galões e tudo procurava o inimigo!!!

 

Dizem as más-línguas que a referida espingarda era de…chumbos.

 

A seguir: UMA BATIDA NO NORTE DE ANGOLA

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