Carta de Veneza – 5 – por Sílvio Castro

“Machado de Assis, Fernando Pessoa e Edgar Allan Poe” O caro amigo e companheiro destas “Viagens”, o argonauta-editor João Machado, teve a magnífica idéia de repropor a todos os argonautas a tradução de Fernando Pessoa para o celebrado poema de Edgar Allan Poe, “The Raven” (“O Corvo”). Trata-se evidentemente de um dos mais claros, ainda que complexo, modelos de tradução para a língua portuguesa. Diante de uma tal circunstância, ocorreu-me que poderia ser do interesse geral a reproposição da tradução feita do mesmo poema por Machado de Assis, alguns anos antes daquela de Pessoa. Desta maneira teremos a oportunidade de encontrarmos o prazer de confrontar-nos com dois significativos exemplos de tradução em português em duas épocas literárias diversas, Machado de Assis ligado aos melhores exemplos da estética realista, de raiz romântica; Fernando Pessoa, aos de um tempo de revoluções vanguardistas.

 

Assim fazendo, verificamos as diferenças estéticas existentes entre as duas versões, típicas dos dois diversos tempos, ao mesmo tempo que temos a oportunidade de verificar aquelas próprias de dois grandes nomes das literaturas de língua portuguesa. Desde logo, e em rápida síntese, a tradução de Machado de Assis se mostra aberta na modificação formal do poema do grande artista estadunidense, criando o grande mestre brasileiro a sua versão em estrofes de 10 versos, invés dos 5 do original. Assim fazendo, Machado procura encontrar o mais adequadamente possível o ritmo característico do poema de Poe. Pessoa, por sua vez, mantém-se formalmente ligado ao original, mas endereçando a voz poética a dimensões menos dramáticas com um uso sutil da ironia e, entre outras novidades, não citando em momento algum o nome de Lenora, essencial em Poe e em Machado de Assis.

 

Desta maneira, e por tantas outras razões que, num futuro próximo, merecerão de nossa parte uma análise mais profunda, enquanto Machado se situa no espaço dramático do original, Pessoa se projeta como um transmissos mais transgressivo do mesmo original. Em seguida, repropomos o texto da tradução de Machado de Assis, convidando os caros leitores a sintonizar-se igualmente com a publicação daquela de Fernando Pessoa, bem como com o original em língua inglesa, ambos encontráveis na edição do nosso blog de 6 de março de 2012. “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, na tradução de Machado de Assis Em certo dia, à hora, à hora Da meia-noite que apavora, Eu, caindo de sono e exausto de fadiga, Ao pé de muita lauda antiga, De uma velha doutrina, agora morta, Ia pensando, quando ouvi à porta Do meu quarto um voar devagarinho, E disse estas palavras tais: “È alguem que me bate à porta de mansinho; Há de ser isso e nada mais“. Ah! bem me lembro! bem me lembro! Era no glacial dezembro; Cada brasa do lar sobre o chão refletia A sua última agonia, Eu, ansioso pelo sol, buscava Daqueles livros que estudava Repouso (em vão!) à dor esmagadora Destas saudades imortais Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora, E que ninguém chamará mais. E o rumor triste, vago, brando Das cortinas ia acordando Dentro em meu coração um rumor não sabido, Nunca por ele padecido. Enfim, por aplacá-lo aqui no peito, Levantei-me de pronto, e: “Com efeito, (Disse) é visita amiga e retardada Que bate a estas horas tais. É visita que pede à minha porta entrada: Há de ser isso e nada mais”. Minh’alma então sentiu-se forte; Não mais vacilo e desta sorte Falo: “Imploro de vós, – ou senhor ou senhora, Me desculpeis tanta demora. Mas como eu, precisando de descanso, Já cochilava e tão de manso e manso Batestes, não fui logo, prestemente, Certificai-me que aí estais“. Disse; a porta escancaro, acho a noite somente, Somente a noite, e nada mais. Com longo olhar escruto a sombra, Que me amendronta, que me assombra, E sonho o que nenhum mortal há já sonhado, Mas o silêncio amplo e calado, Calado fica; a quietação quieta; Só tu, palavra única e dileta, Lenora, tu, como um suspiro escasso, Da minha triste boca sais; E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço, Foi isso apenas, nada mais. Entro coa alma incendiada, Logo depois outra pancada Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela: “Seguramente há na janela Alguma coisa que sussurra. Abramos, Eia, fora o temor, eia, vejamos A explicação do caso misterioso Dessas duas pancadas tais. Devolvamos a paz ao coração medroso, Obra do vento e nada mais“. Abro a janela, e de repente, Vejo tumultuosamente Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias, Não despendeu em cortesias Um minuto, um instante. Tinha o aspecto De um lord ou de uma lady. E pronto e reto, Movendo no ar as suas negras alas, Acima voa dos portais, Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas; Trepado fica, e nada mais. Diante da ave feia e escura, Naquela rígida postura, Com o gesto severo, – o triste pensamento Sorriu-me ali por um momento, E eu disse: “Ó tu que das noturnas plagas Vens, embora a cabeça nua tragas, Sem topete, não és ave medrosa, Dize os teus nomes senhoriais; Como te chamas tu na grande noite ombrosa?“ E o corvo disse: “Nunca mais”. Vendo que o pássaro entendia A pergunta que lhe eu fazia, Fico atônito, embora a resposta que dera Dificilmente lha entendera. Na verdade, jamais homem há visto Cousa na terra semelhante a isto: Uma ave negra, friamente posta Num busto, acima dos portais, Ouvir uma pergunta e dizer em resposta Que este é seu nome: “Nunca mais”. No entanto, o corvo solitèario Não teve outro vocabulário, Como se essa palavra escassa que ali disse Toda a sua alma resumisse. Nenhuma outra proferiu, nenhuma, Não chegou a mexer uma só pluma, Até que eu murmurei: “Perdi outrora Tantos amigos tão leais! Perderei também este em regressando a aurora“. E o corvo disse: “Nunca mais!” Estremeço. A resposta ouvida É tão exata! é tão cabida! “Certamente, digo eu, essa èe toda a ciência Que ele trouxe da convivência De algum mestre infeliz e acabrunhado Que o implacável destino há castigado Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga Que dos seus cantos usuais Só lhe ficou na amarga e última cantiga, Esse estribilho: “Nunca mais“. Segunda vez, nesse momento, Sorriu-me o triste pensamento; Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo; E mergulhando no veludo Da poltrona que eu mesmo ali trouxera Achar procuro a lúgubre quimera, A alma, o sentido, o pálido segredo Daquelas sílabas fatais, Enterder o que quis dizer a ave do medo Grasnando a frase: “Nunca mais”. Assim posto, devaneando, Meditando, conjeturando, Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava, Sentia o olhar o olhar que me abrasava. Conjeturando tui tranqüilo a gosto, Com a cabeça no macio encosto Onde os raios da lâmpada caíam, Onde as tranças angelicais De outra cabeça outrora ali se desparziam, E agora não se esparzem mais. Supus então que o ar, mais denso, Todo se enchia de um incenso, Obra de serafins que, pelo chão roçando Do quarto, estavam meneando Um ligeiro turíbulo invisível; E eu exclamei então: “Um Deus sensível Manda repouso à dor que te devora Destas saudades imortais, Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora”. E o corvo disse: “Nunca mais”. “Profeta, ou o que quer que sejas! Ave ou demônio que negrejas! Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno Onde reside o mal eterno, Ou simplesmente náufrago escapado Venhas do temporal que te há lançado Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo Tem os seus lares triunfais, Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?” E o corvo disse: “Nunca mais”. “Ave ou demônio que negrejas! Profeta, ou o que quer que sejas! Cessa, ai, cessa! Clamei, levantando-me, cessa! Regressa ao temporal, regressa À tua noite, deixas-me comigo, Vai-te, não fique no meu casto abrigo Pluma que lembre essa mentira tua, Tira-me ao peito essas fatais Garras que abrindo vão a minha dor já crua.” E o corvo disse: “Nunca mais”. E o corvo aí fica; ei-lo trepado No branco mármore lavrado Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho. Parece, a ver-lhe o duro cenho, Um demônio sonhando. A luz caída Do lampião sobre a ave aborrecida No chão espraia a triste sombra; e, fora Daquelas linhas funerais Que flutuam no chão, a minha alma que chora Não sai mais, nunca, nunca mais! (de Ocidentais, 1900)

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