Um Café na Internet
(Continuação)
«Se um russo, como Chagall, ou um italiano, como Chirico, reagem à realidade inóspita pelos caminhos do sonho, se eles podem sonhar com a distante aldeia natal transfigurada pelo tempo, conduzir a mulher amada, de pálpebras descidas, por cima dos telhados e das árvores, ou entregar-se ao pesadelo aliciante de grandes praças desertas e inquietantes, abertas às envolventes perturbações do mistério, …», escreveu Mário Dionísio, em «A paleta e o mundo» (Publ. Europa-América, 2.ª edição, vol. V, 1974), palavras estas que bem
Sobre a cidade
sentimos ao percorrer esta grande mostra de 140 obras. «Marc Chagall é o pintor poeta, o pintor errante, o pintor solitário, o pintor dos mil adjectivos que remetem para a sua originalidade e para uma produção artística difícil de classificar», pode ler-se na Introdução do Guia didáctico desta exposição, como a visão das obras expostas em Madrid confirma.
Disse Marc Chagall: «Todo o artista tem a sua pátria, a sua cidade natal, e embora depois nele tenham influência outros meios e outros âmbitos, estará sempre marcado por um traço essencial, e o perfume da sua pátria viverá em todo o momento nas suas obras», o que mais uma vez o visitante da exposição confirma, a sua terra natal, Vitebsk, na actual Bielorrússia, e o seu país estão sempre bem presentes em muitas das suas obras.
Recordemos alguns dos seus dados biográficos, servindo-nos do excelente catálogo que os organizadores da exposição nos proporcionaram. O seu nascimento aconteceu em 7 de Julho de 1887, vindo a falecer, com quase 100 anos, em 28 de Março de 1985, em Saint-Paul-de-Vence, França.
Iniciou-se nas técnicas da pintura na sua cidade natal em 1900, na escola de pintura e de desenho do artista Pen, judeu como Chagall, embora tenha mostrado o seu gosto pelo desenho já aos 5 anos de idade. Até 1906 trabalha num estúdio de fotografia na sua cidade, ofício este que lhe permite mudar-se para São Petersburgo, onde, pelo facto de ser judeu, necessita de autorização para viver, como também de dinheiro que não tem, não conseguindo assim frequentar a escola que pretendia; no entanto, acaba por conseguir entrar na Escola da Sociedade Imperial para a Protecção das Belas Artes.
Com o seu quadro «A morte», de 1908, Chagall considera ter começado a sua carreira artística. No ano seguinte conhece Bella Rosenfeld, estudante de filosofia, literatura e história, que virá a ser o amor da sua vida. Neste mesmo ano, inicia estudos na Escola de Artes de E. N. Zvántseva, onde vai encontrar, como professor, León Bakst, que o instrói no estudo da cor, seguindo mestres como Matisse, e o leva a colaborar nos cenários e nos figurinos para os bailados de Diaghilev (v. crónica anterior). Em 1910 a Escola organiza uma exposição colectiva, onde Chagall expõe pela primeira vez algumas das suas obras, entre elas «A morte».
Em 1911 vai para Paris prosseguir os seus estudos, graças ao apoio de um dos compradores das suas obras, Maxim Vináver, ali permanecendo até 1914. «Trabalhava em Paris, tornava-me louco, via a Torre Eiffel, passeava pelo Louvre e pelos bulevares. E pela noite pintava quadros», são palavras suas alusivas a este período. Conhece os artistas de vanguarda, como Modigliani, Alexandre Archipenko, Soutine, que ocupam estúdios juntos ao seu. Expõe, em 1912, no Salão dos Independentes e no Salão de Outono, conseguindo neste, graças ao apoio de Delaunay e Le Fauconnier, uma parede inteira na secção dedicada aos cubistas, conquistando com o seu trabalho o apoio do crítico e poeta Guillaume Apollinaire, de quem se torna amigo. Apollinaire apresenta-o ao influente galerista berlinense Herwarth Walden,
Gólgota (1912)
que logo o convida a expor em Berlim, onde um coleccionador alemão lhe compra «Gólgota», um quadro de grandes dimensões (174,6 x 192,4 cm), inicialmente intitulado «Dedicado a Cristo», que mostra a importância do tema para Chagall na tradição judaico-cristã, fazendo «uma leitura muito pessoal de um tema tão complexo como este, uma das bases da sua cultura e um dos grandes assuntos da pintura ocidental. E, nos alvores do século XX, inscreve assim na modernidade o motivo da Crucificação, tão característico da grande arte clássica», transcrevendo o que, sobre a obra, escreveu Jean-Louis Prat. O êxito continua, no Salão dos Independentes, de onde saem três das suas obras –«O violinista», «Auto-retrato com sete dedos» e «Maternidade»- para o Salão de Amesterdão (1914), de imediato compradas pelo holandês Pierre Alexander Regnault.
Auto-retrato com sete dedos (1912-13)
Neste ano de 1914 planeia uma visita à sua Vitebsk, obtendo uma autorização para uma permanência ali de três meses, mas o início da I Grande Guerra tem como consequência que os três meses se transformem numa permanência de oito anos, primeiro na sua terra natal e, a partir de Setembro de 1915, em Petrogrado. É o reencontro com as sua raízes, mas é também o reencontro com Bella, com quem casa no Verão de 1915. É este o período em que vai construir os seus «documentos», quadros próximos do naturalismo, onde a cidade, os familiares e os seus conterrâneos, para além dos autoretratos, estão presentes.
Em Petrogrado, ou São Petersburgo, trabalha no departamento de imprensa do Ministério da Guerra, evitando assim o seu destacamento para a frente de batalha. Participa em muitas exposições com as várias dezenas de obras que, entretanto, vai produzindo. No Verão de 1916 nasce a sua filha Ida, que passará a ser, como Bella, protagonista de muitos dos seus quadros.
Em Fevereiro de 1917 acontece a revolução na Rússia, sucedendo-se o Outubro de 1917, com a tomada do poder pelos soviéticos, o que vai alterar a vida de Chagall. Houve, no Ocidente, quem o julgasse morto. Em 1918 publica-se, em russo, a primeira monografia sobre o pintor e o Ministro da Cultura e das Artes do Governo Soviético, Anatoli Lunacharski, chama-o para com ele colaborar.
(continua)




