NOVA IORQUE CAI NAS NOSSAS MÃOS!

 

 

04h00 – Um pelotão do BC 5 desloca-se para a residência de António de Spínola, a fim de garantir a sua segurança. – O programa «A noite é nossa», do R.C.P., deixa de transmitir publicidade, passando a emitir apenas música.

 

04h15 – O general Eduardo Martins Soares, comandante da RMP, apela aos coronéis Rui Mendonça, comandante do RI 8, e Carneiro de Magalhães, comandante do RI 13, ambos de Braga, para avançarem sobre o Porto e libertarem o QG das mãos dos insurrectos. Nos dois casos, os oficiais das unidades recusam-se a cumprir tais ordens.

 

04h20 A coluna da EPI, comandada pelo capitão Rui Rodrigues, assume o controlo do Aeródromo Base nº 1 (Figo Maduro) e do Aeroporto de Lisboa. O capitão Costa Martins emite um comunicado NOTAM, interditando o espaço aéreo português e desviando o tráfego para os aeroportos de Las Palmas e Madrid. Nova Iorque encontra-se sob o controlo do Movimento.

 

04h22 – Em resposta a um telefonema de Silva Cunha, a mulher do Ministro do Exército informa-o que «O Alberto saiu agora de casa».

 

04h26 – O Rádio Clube Português transmite o 1º comunicado do Movimento das Forças Armadas, lido por Joaquim Furtado. Seguem-se o Hino Nacional e marchas militares, designadamente uma da autoria de John Philip de Sousa que se viria a transformar no hino do MFA. Os portugueses começam a tomar conhecimento de que algo de muito importante se está a desenrolar no País.

 

– No Grupo de Artilharia Contra Aeronaves 2 (GACA 2) de Torres Novas os capitães do Quadro Permanente, Pacheco, Dias Costa e Ferreira da Silva, conseguem a adesão dos tenentes milicianos comandantes de companhias mobilizadas para o Ultramar e que aguardam embarque.

 

04h30 – Rendição do QG/RML. O major Cardoso Fontão comunica ao posto de comando que Canadá fora ocupado sem incidentes.

 

– Forças do CICA 1 detêm, à saída da sua residência, o chefe do Estado-Maior do Q.G./R.M.N., coronel Ramos de Freitas.

 

04h45 – O 2º comunicado do MFA é emitido, apelando à desmobilização de eventuais acções contra o Movimento.

– O primeiro grupo do BC 5, comandado pelo major Fontão, penetra no interior do R.C.P.
– O alarme é dado no Quartel-General da Região Militar de Coimbra (QG/RMC). Rapidamente se apercebem de que a maior parte das unidades segue o Movimento.
– O governador da Região Militar de Lisboa reúne-se com o corpo do seu Estado-Maior na residência do respectivo subchefe.

 

A noite reinava ainda. O dia ainda não nascera. Mas esta madrugada nascera já muitas vezes dentro de nós, por dentro da nossa esperança. Foi nessa madrugada, nessa alvorada de Abril que a Eva Cruz colheu um cravo vermelho e o colocou na boca de uma espingarda. Foi isso que fizémos, nós todos o que esperávamos esta madrugada que tardou quase cinquenta anos a chegar – silenciámos as armas com flores e deixámos que os verdugos e a sua prole sobrevivessem. Aí os temos, disfarçados de democratas. Mas não nos antecipemos:

 

Pois naquela madrugada, sem cravo vermelho de Abril a vida não valia nada…

 

 

 

Colhi um cravo vermelho

 

 

 

 

Colhi um cravo vermelho

 

Quando Abril era criança

 

Reguei-o com água benta

 

E o sol da minha esperança.

 

Colhi um cravo vermelho

 

Tudo fiz p’ra que vivesse

 

Toda a vida lhe dei vida

 

P´ra que Abril não morresse. 

Sempre viveu no meu peito

 

E no coração de muitos mil

 

Não murcha nos ventos de Outono

 

Não perde a cor em Novembro

 

E sempre renasce em Abril.

 

Ao mundo eu quero pedir

 

Que o não deixe secar.

 

Nesta vida estiolada

 

Sem cravo vermelho de Abril

 

A vida não vale nada.

 

 

 

Poema de Eva Cruz

Ilustração, quadro de Dorindo Carvalho – “O guardador de cravos” 

 

 

 

 

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