No próximo domingo vai decorrer a segunda volta das eleições presidenciais francesas. Frente a frente estarão Nicolas Sarkozy e François Hollande. Parece que as sondagens dão vantagem ao segundo, mas o resultado final é muito duvidoso. Entretanto, há que referir que os poderes do presidente francês são mais alargados do que os poderes do presidente português (embora, no caso de Cavaco Silva, este consiga bastantes vezes dar azo a que se diga que está por aqui a mais). A questão que se põe é a de se há realmente vantagem na eleição de um ou de outro. Sobre Sarkozy já se sabe que é mau. É o preferido dos bancos e da finança; péssimo sinal. Promete ordem, realismo, por aí fora. É o caos garantido, e o desastre para os cidadãos franceses.
François Hollande tem por si realmente o facto de a banca e a finança em geral não gostarem dele; mas a partir daí? Realmente ter contra si os grandes responsáveis pela crise e insegurança generalizadas em que se vive em França quer dizer alguma coisa, mas será que Hollande poderá remar contra esses poderes? Será que realmente o pretende? Talvez, mas terá de pôr de parte aquelas convicções fantásticas de que é possível ter capitalismo e socialismo ao mesmo tempo, convicções que enterraram as populações da maior parte do mundo em crise muito sérias, de que as oligarquias se aproveitaram para nos porem na situação actual. Caso ganhe, terá de evitar os caminhos que seguiram Mitterand e Tony Blair, que deixaram muitos espíritos mergulhados na confusão, e contribuíram decisivamente para disseminar o sentimento de não haver alternativa às políticas de austeridade e empobrecimento, e para o actual avanço da extrema direita por toda a Europa.
O Le Monde, no seu editorial de ontem, afirmava que, para os franceses viverem uns com os outros, será indispensável, sem distinção de origem, de raça ou de religião, beneficiarem de um mínimo de prosperidade. E que ninguém, num país tão rico como a França, no princípio do século XXI, tenha dificuldade em aceder ao emprego, à educação, à habitação, aos cuidados de saúde, à reforma. É um apelo claro ao voto em Hollande. Nós já ouvimos isto, cá em Portugal. Os que ainda temos esperança de acabar com o jugo a que estamos sujeitos, sabemos que não basta ganhar eleições, é preciso mais: uma embalagem que nos dê acesso (e aos franceses, lá em França) a esse mínimo de condições, e que depois não dê margem a uma contra-reforma como a que estamos a sofrer.

