A crise na Europa, a crise em Madrid, a crise de um sistema: olhares sobre Espanha

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

 

19. As loucuras em Espanha

 

Um texto  sobre os elefantes brancos que os trabalhadores devem agora  pagar com o pouco que têm  e com o mal-estar que lhes  está a ser gerado, a eles e às gerações futuras.

 

Júlio Marques Mota

 

 

 

 

O emblema desta loucura urbana é ainda visível na praia de Algarrobico, perto de Almeria, onde se encontra a massa inacabada de um hotel de vinte andares. AFP/PEDRO ARMESTRE


O mais complicado foi ter de escolher. Para El País, era evidente que seria necessário efectuar várias reportagens sobre os investimentos faraónicos que foram recentemente feitos em Espanha. Mas onde é que nos podemos concentrar? Dezenas de aeroportos foram construídos nas capitais de província, todos concordam. Mas, como escolher um entre tantos?


O de Huesca (Aragão), por exemplo, permaneceu sem nenhuns voos comerciais desde Abril, mas mantendo um efectivo de 30 pessoas e um piquete de seis bombeiros. O de Castellón (Valência) custou 150 milhões de euros e foi inaugurado em Março. Não um só voo partiu daqui mas já estava planeado gastar mais de 100 000 euros por ano para que oito falcões e oito furões, com seus respectivos tratadores, mantenham a fauna à distância das instalações. E, entretanto, o director ganha mais de 100.000 euros por mês. E havia tantos aeroportos tentadores para escrever a este propósito: Burgos, Léon, Salamanca, Lleida… Mas, finalmente, escolhemos o de Cidade Real ( Castela-a-Mancha), o mais caro de todos…


Nesta cidade de apenas 72 mil habitantes, a 200 km ao sul de Madrid, foi construído em 2008 uma das maiores pistas da Europa, 4 200 metros de comprimento, onde poderia até aterrar o Airbus A 380, o maior avião comercial do mundo. Construiu-se mesmo uma passadeira para ligar o terminal às vias de alta velocidade que passam a um quilómetro de distância. A aventura custou 500 milhões de euros e, três anos mais tarde, o falhanço é evidente: a passadeira permanece suspensa no ar como uma metáfora de sonhos desfeitos. Não há nenhum voo comercial. E os 80 funcionários, que permanecem nas instalações depois de ter havido mais de 100 despedimentos, preferem não falar à imprensa, para que não se sublinhe que eles ainda continuam no aeroporto. Quanto menos barulhos fizerem melhor será assim para toda a gente e, deste modo, toda a gente esquecerá que este mega-projeto continua a dar prejuízo. Dezenas de trabalhadores vêm e vão, dia após dia, para um local, onde aterra, de vez em quando o avião do turismo de um cheikh árabe que vem caçar no fim-de-semana.

 

 

O que mais me surpreendeu é que não haja um sentimento geral de indignação face a este desperdício de dinheiro público. Sobretudo, do encolher de ombros. Muito poucas pessoas são aquelas que se opõem ao projecto. “Parece muito mal criticá-lo,”, explicou Carlos Otto, um jornalista de Ciudad Real. Seria como estar contra os interesses do povo. Só os ambientalistas o têm feito. “E alguns deles receberam pressões e deixaram de aparecer na imprensa.” “Nós não fomos uma voz crítica,” reconheceu Felipe Pérez, secretário-geral do sindicato Comisiones Obreras em Ciudad Real. “Mas quando se diz que se podem criar até 20 000 empregos, como é que se pode dizer que não?”

 

Os homens políticos do Partido Socialista (PSOE) e do partido popular (PP) alegam que o dinheiro que aí foi investido é privado. Mas há um pequeno truque nesta declaração: a Caja de Ahorros Castilla la Mancha (CCM) cujo Conselho de Administração foi nomeado pelos governantes locais PP e sobretudo pelos do PSOE, tinha 35% das acções. Além disso, tinham emprestado dinheiro aos accionistas privados em cerca de 25%. Vista a situação nesta perspectiva, não é surpreendente que o Banco de Espanha tenha tido que assumir o controlo deste estabelecimento sobreendividado em Março de 2009.


Depois de Ciudad Real, quisemos saber o que aconteceu em Sevilha (Andaluzia) com o estádio quase esquecido La Cartuja Stadium, inaugurado em 1999 para se apresentar à candidatura para os Jogos Olímpicos de 2004. A odisseia deste projecto foi, como o disse o director da sua gestão, Manuel Zafra, é a história de um “poyaque”. O “poyaque” é um jogo de palavras conhecido unicamente em alguns meios na Andaluzia. “Po Ya que” é como seja uma deformação de “pues ya que”, “pois, já que”. Uma vez que chegámos aqui, faz-se então assim Mas uma vez que Barcelona ganhou na candidatura para a realização dos Jogos Olímpicos, porque não Sevilha?


E o resultado foi um investimento de 120 milhões de euros para construir um estádio numa cidade que já tinha dois estádios de futebol da primeira divisão, o do Betis e o do Sevilla FC. Hoje, apenas nove pessoas são responsáveis pela gestão de um estádio ao qual a cidade virou as suas costas. Os grandes espectáculos desportivos têm sido uma excepção. De vez em quando, o estádio é alugado para a filmagem de um filme ou para uma celebração religiosa e assim se passam os dias.

 

O “poyaque” não se desenvolveu somente em Sevilha. Em Outubro de 1997, foi inaugurado o Museu Guggenheim de Bilbau. Este custou 126,5 milhões de euros, além dos 30 milhões da sua colecção permanente. Desde o início, o projecto mostrou ser um sucesso indiscutível. Os arquitectos de todo o mundo congratulam-se com o trabalho de Frank Gehry e o Museu tem atraído muitos turistas para a cidade. Isto funcionou no País Basco, então porque não fazer algo de semelhante, mas muito mais espectacular na Galiza? E foi assim que o Presidente da região, na época, Manuel Fraga, agora aposentado da política, aos 89 anos de idade, começou a falar sobre o seu sonho depois da inauguração do Guggenheim: a cidade da cultura da Galiza, em Santiago de Compostela.

 

Em 1999, Manuel Fraga abriu um concurso internacional de arquitectura ganho pelo americano Peter Eisenman. E, em 2001, foi colocada a primeira pedra no Monte Gaias, a dois quilómetros do centro do cidade de Santiago de Compostela, povoação com apenas 94 000 habitantes. Iriam aí construir seis edifícios, com um orçamento de 108 milhões de euros, um pouco menos do que o do Guggenheim. O projecto seria concluído em três anos. Dez anos mais tarde, investiram-se mais de 400 milhões de euros, um valor equivalente a quatro estágios, como o Sevilha, somente quatro edifícios foram construídos – o trabalho dos outros dois, que são os mais importantes, estão previstos na melhor das hipóteses para 2014.


Wilfred Wang, o único arquitecto do júri que votou contra o projecto, calcula que, se um dia se concluírem os dois blocos restantes, o custo total seria equivalente a 600 milhões de euros. Mas no caso em que o governo regional decidisse cobrir o enorme buraco financeiro já criado e de não acabar o Centro Internacional de Arte e especialmente o Centro de Música e Artes Cénicas, que foi concebido para ser o grande símbolo da cidade de cultura, seria necessário indemnizar as sociedades de construção com cerca de 20 milhões de euros. A escolha é entre o caro e o mais caro.


Dois dias depois da publicação de um relatório no jornal El Pais, o diário regional El Correo Gallego publicava uma entrevista com Peter Eisenman, na qual o arquitecto alegava que ele não podia entender a cidade da cultura sem os dois últimos edifícios. Como alternativa, ele propôs que se iniciasse a construção pela fachada e que ao longo do tempo se construísse o interior para o dotar mais tarde de espaços de actividades. O comentário poderia levar a uma gargalhada se não houvesse uma enorme quantia de dinheiro em jogo. Mas não se pode imputar a culpa ao arquitecto. Peter Eisenman tinha avisado Manuel Fraga que o seu projecto seria muito caro. E, ainda segundo Eisenman, a resposta de Fraga foi: “Isso não é o seu problema.”

 

“Dizia-se que não havia espaço para os 250 000 livros na biblioteca e eles estavam a pedir um milhão.” “Isto foi o que nós fizemos ” declarou igualmente Peter Eisenman, numa entrevista ao El Pais em 2010. O mais engraçado, ou o mais triste, é que todos estes livros deviam satisfazer duas condições: o de serem publicados na Galiza ou terem como tema a Galiza. “Quem pode na verdade ter a ideia de ali construir uma biblioteca maior do que a biblioteca nacional de Berlim?” Se na Alemanha, onde se publicam livros desde Gutenberg, os alemães consideraram que não era útil construir uma biblioteca maior, porque havíamos nós de o fazer? “, perguntou Pedro de Llano, um arquitecto de Santiago de Compostela.” “Foi projectado além disso um centro de música, com três elevadores no palco e uma capacidade para montar três óperas no mesmo dia, como se aqui fosse o Lincoln Center.” Agora, na biblioteca “do milhão de livros “, há habitualmente mais empregados que leitores.

 

Em todos os projectos que já estudei, eu encontrei um factor comum: há sempre alguém que ousou dizer “O rei vai nu”, alguém que, quando todo mundo disse que o novo projecto iria atrair milhões de euros para o município e que milhares de empregos seriam criados, teve a coragem de dizer ” isto é a enorme e profunda desmedida para nós”. Mas a maioria permaneceu em silêncio. O arquitecto Pedro de Llano, de 65 anos, diz que ele pagou o preço forte em Santiago de Compostela. “Eu fui mantido afastado do comando das obras públicas, disse ele.” Os arquitectos calaram-se, eles não quiseram saber de nada sobre o assunto. E os media… “Aqui, o poder económico do governo da Galiza sobre os media foi tão grande que nunca houve um inquérito rigoroso para demonstrar a estupidez do projecto.”


Sendo estabelecido o panorama, qualquer pessoa pode então  questionar-se: devemos  nós aprender a lição? Seremos nós mais austeros no futuro? Aqueles que impulsionaram o aeroporto de Ciudad Real ou a Cidade da cultura estão convencidos de que era uma óptima ideia e eles tiveram a infelicidade de enfrentar a crise financeira. Mas muitos cidadãos comuns aprenderam a não se perderem entre os valores em milhões de euros e a prestarem atenção quando se lhes fala sobre projectos ambiciosos. Porque eles sabem que no final, apesar das aparências, o custo desses projectos grandiosos sai das suas carteiras.

 

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