agenda cultural de 21 a 27 de Maio de 2012

 

 

 

 

por Rui Oliveira

 

 

 

Destaques diários

 

 

 

 

   Na Segunda-feira  21 de Maio, ao Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, às 21h, vêm ao ciclo Músicas do Mundo a cantora Maria João e o pianista Mário Laginha “preparar” o seu próximo disco de originais provisoriamente designado por Iridescent.

   Na realidade, desde Tralha, em 2004, que Maria João e Mário Laginha o não faziam (pois Chocolate em 2008 era um disco de standards de jazz e Follow the Songlines em 2010 era mais um álbum ao vivo com uma outra dupla de jazz, David Linx e Diederik Wissels) e daí aproveitarem o convite da Gulbenkian como «uma boa oportunidade para produzir algo novo» e desde logo optarem pela formação que os acompanharia, tendo a escolha recaído em Eduardo Roan (harpa), João Frade (acordeão) e o velho companheiro do duo Helge Norbakken (percussão).

   Como diz o programa e levantando um pouco o véu sobre a música que iremos ouvir pelo quinteto, Mário Laginha revela que «o groove desmesurado deste percussionista puxa para ritmos entre o jazz e a pop», não fechando a porta a uma utilização da electrónica a partir de um instrumento à qual não está tão associada – como a harpa. «Nunca faço nada a pensar em pisar terreno novo. Penso em fazer música que me apeteça e em que sinta que vou pôr algo meu. Acho que é a forma mais sensata de se fazer música».

   Por o concerto não ir reproduzir nenhuma gravação já conhecida, optámos por ilustrá-lo com o registo anónimo dum espectáculo ao vivo de ambos os músicos há três anos :

 

 

 

 

 

   Na Terça-feira 22 de Maio, volta ao Centro Cultural de Belém (ao seu Grande Auditório às 21h) a figura destacada do jazz europeu dos últimos trinta anos Enrico Rava com um novo quinteto, para apresentar o seu trabalho mais recente (encerrando assim este primeiro ECM Lisbon Series).

   É esta a sua actual composição “exclusivamente” italiana : Enrico Rava trompete, Gianluca Petrella  trombone, Giovanni Guidi piano, Gabriele Evangelista contrabaixo e Fabrizio Sferra bateria. Reune-se assim à cumplicidade “química” dos dois primeiros expressa nas suas trocas rápidas e bem-humoradas, a juventude plena de creatividade e imaginação quer do pianista Guidi quer do baixista Evangelista, ele que coopera excelentemente com o experiente baterista Sferra, colaborador de  Chet Baker, Paul Bley e Kenny Wheeler.

   Conhece-se já desse álbum gravado em Outubro de 2010 p.ex. este tema “Tears for Neda” :

 

 

 

 

 

 

   Na Quarta-feira  23 de Maio inicia-se em Lisboa o “Alkantara Festival 2012” Mundos em Palco que se prolongará até 10 de Junho. Anuncia que se irá “concentrar explicitamente na profunda crise do modelo cultural, social e económico centrado no indivíduo” e que “recebe artistas com uma visão pessoal forte acerca do que acontece à sua volta. Estes tendem a ser observadores precisos, demonstrando uma sensibilidade particular para captar os sinais dos tempos antes de estes marcarem a sua presença na cultura mainstream e na imprensa”.

  A abertura é na Sala Principal do São Luiz Teatro Municipal às 21h (repetindo-se na Quinta 24 à mesma hora) com o espectáculo de dança de Boyzie Cekwana & Panaibra Canda intitulado “The Inkomati (dis)cord”, em estreia europeia.

   Tema : “ Em 1984, o Moçambique de Samora Machel e a África do Sul do apartheid assinam um pacto de não-agressão para pôr fim ao apoio que ambas as partes davam à resistência no país vizinho. O acordo de Inkomati não chega no entanto a concretizar-se, em grande medida porque a África do Sul nunca deixou de alimentar a guerra civil moçambicana”.

 

   The Inkomati (dis)cord, criado por Boyzie Cekwana e Panaibra Canda, nomes centrais da dança contemporânea em África, cujas infâncias foram vividas nos dois lados da linha no momento do pacto, refere-se a este compromisso ‘histórico’ falhado, assim como ao rio que atravessa os dois países e que lhe concedeu o seu nome. Numa tentativa de quebrar as fronteiras artificiais e atravessar territórios através dos próprios corpos, peles, identidades e heranças, os coreógrafos exploram as barreiras coloniais interiorizadas que continuam a alienar aspirações e histórias partilhadas.

 

   A direcção, coreografia, cenografia e figurinos são de Boyzie Cekwana e Panaibra Canda com interpretação de Amelia Socovinho, Maria Tembe, Panaibra Canda e Boyzie Cekwana, ao som do “Libertango” de Astor Piazzola, interpretado por Yo Yo Ma e dos discursos de Samora Machel.

 

 

 

 

 

   Na Quinta-feira  24 de Maio, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian às 21h (repetindo-se na Sexta 25, às 19h), realiza-se o primeiro concerto dum Ciclo Ravel que a Orquestra Gulbenkian sob a direcção de Lawrence Foster cumprirá em Maio, neste caso acompanhada por Jean-Efflam Bavouzet piano e David Lefèvre violino.

 

   Irão interpretar de Maurice Ravel  “Ma mère l’oye”,  Concerto para Piano e Orquestra, em Sol Maior,  Concerto para a mão esquerda, em Ré Maior e “La Valse”.

   Declara o maestro autor do programa : «Ravel representa a oportunidade de perceber o imenso potencial da orquestra»… «o conjunto permite entrever o extraordinário sentido teatral e a qualidade dramática que atravessam todas as suas peças. É interessante ouvi-las todas juntas e poder descobrir a sonoridade e a força rítmica que lhes é comum»… «os programas evidenciam a enorme influência de Espanha, país que o compositor tem no sangue, não fosse descendente de bascos por parte da mãe e tivesse bebido aquela cultura desde o berço. Sendo francês, Ravel possuía igualmente «a obsessão que os franceses costumam ter pelos temas espanhóis», ou melhor, pela possibilidade de «combinar a ideia de cor com a estrutura e a disciplina rítmica tão própria da música espanhola».

   Encontrámos este registo recente (2011) e integral da actuação de Jean-Efflam Bavouzet com a Philarmonia Orchestra (dir. Esa-Pekka Salonen) tocando o Concerto para a mão esquerda de Ravel (que, recorde-se, foi composto a pedido do concertista Paul Wittgenstein, irmão do filósofo Ludwig, que na I Grande Guerra 1914-18 perdera o braço direito) :

 

 

 

 

 

 

   Na Sexta-feira 25 de Maio salientaríamos novo espectáculo do “Alkantara Festival 2012” Mundos em Palco a ocorrer no Grande Auditório da Culturgest, às 21h30, com “Big Bang”, a última criação de Philippe Quesne  no Vivarium Studio (onde, como diz, “se reúne desde 2003 com sete actores e um cão”) e onde “as criações são episódios improváveis de um folhetim, cada nova performance contendo referências à anterior, onde um espanto pueril perante o mundo da magia do teatro encontra a suave melancolia acerca das limitações da humanidade”.

   Em Big Bang reencontramos o teatro laboratorial que se empenha em modificar as convenções do género e cria um universo de contornos incertos, oscilando entre real e artificial, sonho e matéria. O espectáculo toma a forma de uma sucessão de quadros, nos quais um pequeno grupo de indivíduos desenvolve a sua teoria da evolução, marcando as rupturas, as invenções e os desaparecimentos, assim como as mais estranhas mutações. Big Bang oferece a experiência da realização cénica em pleno processo de execução, montando e desmontando as engrenagens da ilusão nascida da imagem teatral bonitinha.

   Interpretam-no Isabelle Angotti, Rodolphe Auté, Yvan Clédat, Jung-Ae Kim, Sylvain Rausa, Émilien Tessier, César Vayssié e Gaëtan Vourc’h e tem repetição no dia seguinte (Sábado).

   Possa este curto vídeo dar uma ideia dessa “epopeia plástica, poética e fantasista, do plâncton ao pós-moderno” :

 

 

 

 

 

   No Sábado 26 de Maio poderá ser diferente e interessante a deslocação ao Museu do Oriente, às 21h30, onde Sara Naadirah, bailarina, professora e coreógrafa traz ao palco do Auditório um espectáculo de dança oriental que designou “Nos meus Sonhos”onde estará acompanhada pelos principais nomes deste tipo de dança em Portugal.

   Esta licenciada em Arquitectura mas também aluna da Royal Academy of Dance onde se graduou com distinção, foi a primeira bailarina portuguesa a ser escolhida para a realização de um DVD de ensino e demonstração deste tipo de dança, o oriental.  Deslocando-se regularmente ao Cairo a fim de aperfeiçoar a sua especialização junto dos melhores bailarinos e mestres desta arte, terá, segundo os conhecedores, criado um estilo próprio, já inconfundível, produzindo e realizando os seus próprios espectáculos.  

   Eis um registo divulgado pela bailarina :

 

 

 

   Outro tipo de coreografia poderá ser observado também a 26 de Maio (Sábado) no Museu da Água da EPAL (estação elevatória a vapor dos Barbadinhos), às 17h e 21h30 com novos espectáculos do “Alkantara Festival 2012” chamados “The fault lines”, uma criação da norte-americana de Nova Orleães Meg Stuart, do austríaco Philipp Gehmacher e do videasta  Vladimir Miller  − que se repetem também no Domingo 27/5.

 

   Nesta performance, “dois corpos encontram-se num campo de jogos demarcado por tubos fluorescentes caídos no chão. Enfrentam-se diagonalmente como lutadores, entrelaçando-se enquanto tentam derrubar o outro e imobilizá-lo. Ou enquanto procuram agarrar-se, aninhar-se um no outro ?”  “The fault lines” inicia-se como um confronto expressivamente físico, num dueto de contacto semelhante a um combate controlado onde Stuart e Gehmacher se manipulam e curam mutuamente; fascinados pela vulnerabilidade do outro, procuram as suas ‘falhas sísmicas’, as margens dos seus corpos. São então progressivamente integrados no universo das imagens de Vladimir Miller. Ele filma ambos e rearranja, filtra, exagera e edita o vídeo em tempo real, até que os eventos e a projecção divergem visivelmente. O que começa como uma intensa interacção física transforma-se quase imperceptivelmente numa instalação vídeo fascinante e desconfortável como a que mostramos :

 

 

 

   No Domingo 27 de Maio a opção é difícil, podendo o leitor hesitar entre ir ao cinema São Jorge às 17h onde a Orquestra Metropolitana  de Lisboa sob a direcção musical de Michael Zilm tocará, num concerto comentado por Rui Campos Leitão, de Maurice Ravel  Le Tombeau de Couperin, de Hans Pfitzner  Pequena Sinfonia em Sol maior, op. 44 (estreia nacional), de Arvo Pärt  Fratres, versão para cordas e percussão e de Wolfgang Amadeus Mozart  Sinfonia n.º 40, KV 550 ;

 

 

   Ou acorrer à Igreja de São Nicolau (na rua da Vitória, à Baixa) onde, às 17h, se realiza a terceira iniciativa integrada no ciclo de concertos de órgão da paróquia. António Esteireiro, muito conhecido organista formado em Regensburg, Munique e Bremen e organizador entre nós de múltiplos festivais de órgão, apresentará um programa para órgão solo baseado na influência da tradição italiana no século XVII, onde estarão representados os compositores Michelangelo Rossi, Bernardo Storace, Georg Muffat e Dietrich Buxtehude.

   Como segundo motivo de interesse há o de este templo, cujas origens datam do século XII (embora o edifício presente seja do século XVIII com projecto que se deve ao arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos), se caracterizar pela sua nave única com o tecto decorado com notáveis pinturas do muito conceituado Pedro Alexandrino.

   Uma obra de Buxtehude (não identificada no programa) ouvida num órgão em ambiente eclesiástico poderá soar como este Praeludium :

 

 

 

 

 Caros leitores : Seguem-se as Cordas sobresselentes destes dias.

 

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