TINTIN NO CONGO – a polémica sobre a banda desenhada de Hergé – por Manuel Simões

Assinalando a passagem do 105º aniversário de Hergé (1907-1983), publicamos o texto de Manuel Simões que editámos já em 24 de Outubro de 2011

É de alguns dias a notícia de que está a decorrer no Tribunal de Bruxelas um processo desencadeado por um cidadão congolês, Bienvenu Mbutu Mondondo, o qual reclama a proibição de reedição da banda desenhada “Tintin no Congo” sem que a nova edição contenha uma nota explicativa sobre o contexto histórico que terá determinado o seu conteúdo racista.

O queixoso considera que esta obra de Hergé (1907-1983) faz a apologia da colonização e representa um insulto para a população negra, pelo que pede à justiça belga que o álbum, sem explicação prévia, seja retirado da circulação. O seu objectivo é que “a obra não chegue às crianças sem a supervisão de um adulto”, requerendo assim a inclusão de uma mensagem de advertência e a proibição de venda livre nas secções infantis das livrarias.

Por seu lado, a editora Casterman e a Moulinsart, sociedade gestora dos direitos de Tintin, considerou inaceitável a inclusão de qualquer mensagem explicativa porque isso representaria “uma forma de censura” e significaria “culpar o autor de racismo”.

A verdade é que “Tintin no Congo” já foi objecto de polémica nos Estados Unidos, na França, na Suécia e no Reino Unido, onde, por decisão judicial, a banda desenhada passou a incluir uma nota preventiva em que se explica o contexto histórico da obra, publicada em 1931, quando o país africano era uma colónia belga, o que terá levado Georges Prosper Remi (mais conhecido como Hergé) a descrever os naturais como “idiotas, incivilizados e incapazes de falar correctamente”. O próprio autor concluiu a banda desenhada sem nunca ter estado em África e admitiu, numa entrevista de 1949, que fez uso dos “preconceitos da época”, não conhecendo da região mais do que os “clichés” que circulavam numa óptica eurocêntrica.

Do que não há dúvida é que Hergé transpôs para a banda desenhada as ideias básicas que orientaram a ideologia do imperialismo no século XIX (e ainda no seguinte) em termos de geopolítica: evidencia a “condição servil” do continente africano, visto apenas como território colonizado para servir o homem branco.

Na banda desenhada, enquanto o protagonista europeu se mostra corajoso e inteligente, o africano é apresentado como cobarde, preguiço, submisso e de pouca inteligência. Até mesmo o cachorro do herói, Milu, evidencia uma espécie de superioridade moral em relação a Coco, o acompanhante negro. Os guerreiros que convidam Tintin para uma caçada aos leões, fogem quando a fera aparece, cabendo a Milu a bravura de salvar o dono das suas garras. E, para cúmulo, Milu acabará por ser aclamado rei de uma tribo de pigmeus.

O colonialismo não foi apenas um fenómeno económico ou político, já que a componente ideológica e cultural também tentou produzir normas de superioridade europeia a todos os níveis, e não foi por acaso que essa componente se impôs através dos níveis de entretenimento. Neste aspecto, o herói Tintin contribuiu certamente para influenciar gerações, reforçando os preconceitos do imperialismo. Agora que chega entre nós o filme “As aventuras de Tintin”, de Steven Spielberg, o mínimo que se pode exigir é que o realizador tenha sabido contornar as insinuações racistas veiculadas pelos quadradinhos de Hergé.

One comment

  1. Republicou isto em A Viagem dos Argonautas and commented:

    Pelas informações de que dispomos, o tribunal não deu razão a Mbutu Mondondo. Clique em baixo para ler sobre mais sobre este assunto. De qualquer o artigo de Manuel Simões continua a ser pertinente. Outra aventura de Tintin também terá sido considerada como discriminatória, A Ilha Negra, nas suas primeiras edições, contra os judeus.

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