Um Café na Internet
Nasceu em Valência em 29 de Janeiro de 1867, numa rua próxima do Mercado Central. Filho de Ramona Ibáñez e do comerciante Gaspar Blasco. Licenciou-se em Direito em 1888, na Universidade de Valência, exercendo como advogado durante um curto período.
A paixão pelas letras e as suas preocupações políticas, levaram-no a dividir a sua vida entre a política, o jornalismo, a literatura, tendo fundado o diário El Pueblo em Novembro de 1894, de cujas páginas se serviu para difundir, com base na sua simpatia pelo ideais proclamados pela Revolução Francesa, o seu republicanismo, tornando-se num dos seus líderes, não só como jornalista mas também como um brilhante, apaixonado orador, correndo de terra em terra em defesa deste seu ideal, numa clara oposição à monarquia.
Definia-se antes do mais como um homem de acção, mas sem deixar de se dedicar às letras, tendo sido um expoente da literatura realista espanhola, participando do movimento naturalista, sendo apelidado na História da Literatura do seu país como «o Zola espanhol». Eloísa Álvarez e António Apolinário Lourenço, na sua «História da Literatura Espanhola» (Edições Asa, Porto, Outubro de 1994), despacham-no em três linhas e meia, afirmando que ele «representa o Naturalismo ortodoxo tardio».
Foi deputado em várias legislaturas, sempre em defesa da República, mas os seus ataques contra os conservadores e contra o clero, assim como a sua oposição à postura do governo espanhol em relação à guerra de Cuba, levaram-no repetidamente à prisão. Também terá protagonizado alguns duelos. São palavras suas: «A minha vida é acção e aventuras. Eu fui um inflamado revolucionário. Pronunciei discursos, escrevi artigos contra a opressão e estive preso trinta vezes. Sim, trinta vezes, por questões políticas, e disso me encho de orgulho.» (in «Introducción» a Cuentos).
Todos estes factos originaram a sua saída do país, com destino a França e a Itália, para fugir à justiça, sendo já então considerado, para além de um respeitável político, também um destacado escritor e jornalista.
Nesta sua deambulação por outros países, com passagem por Portugal quando se dirigia para o continente sul-americano, há a registar o seu fracasso como agricultor após ter fundado duas colónias agrícolas na Argentina, o que o leva a regressar à Europa quando a Primeira Guerra Mundial estava quase a iniciar-se. A sua adesão à causa dos aliados é imediata.
Apesar de embrenhado na defesa desta causa, dá início ao romance que lhe dará um êxito a nível mundial, publicado inclusive nos Estados Unidos –onde se venderam mais de dez milhões de exemplares- e com sucessivas reedições na Europa: «Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse», de 1916 (publicado pela Europa-América em Portugal, com tradução de Arsénio Mota), que terá sido a sua resposta ao convite do Presidente Francês, Raymond Poincaré, para escrever um romance sobre a guerra.
Para além de obras de ficção (Cañas y barro, La Bodega, A Catedral, Sangre y Arena, por exemplo), há que referir as suas obras de carácter histórico (El Caballero de la Virgen, Mare Nostrum, etc.).
Algumas das suas obras foram adaptadas ao cinema, como «Sangre y arena», com duas versões, sendo a última protagonizada por Tyrone Power, Linda Darnell, Rita Hayworth e Anthony Quinn, e «Os Quatro Cavaleiros de Apocalipse», com uma primeira versão com grande êxito de Rudolfo Valentino, sendo a segunda adaptação realizada por Vincente Minnelli. Greta Garbo foi também estrela na adaptação de «Entre naranjos» e também de «La Tierra de Todos». Também teve uma adaptação a sua obra «La maja desnuda», com Ava Gardner e Tony Franciosa nos protagonistas.
A televisão espanhola, a partir dos anos 70 do século passado, adaptou as obras “A barraca”, «Cañas y barro» e, mais recentemente também com grande popularidade, «Entre naranjos» (1996) e «Arroz y tartana» (2005).
Eu e o Carlos Loures, que me seja permitida aqui esta intromissão, temos um velho projecto de adaptar ao teatro «A Catedral». Por este andar, o projecto não passará disso mesmo. (Há uma tradução portuguesa de Vasco Valdez, muito antiga, «A Cathedral», cuja editora foi Livrarias Aillaud e Bertrand, como haverá outras, só possíveis de encontrar em alfarrabistas.)
Os êxitos obtidos fizeram dele um homem rico, mas o seu idealismo não morreu. Foi um editor de obras de outras literaturas também, a preços módicos, e procurou facilitar a educação das classes trabalhadoras ocupando-se, inclusive, na criação de uma Universidade Popular.
Continuando e para finalizar esta pequeníssima biografia, direi que Vicente Blasco Ibáñez faleceu em Menton, França, em 28 de Janeiro de 1928, tendo os seus restos mortais sido repatriados cinco anos mais tarde, graças à Segunda República Espanhola, com chegada a Valência em 29 de Outubro de 1933.
A casa onde viveu em Valência, na praia da Malvarrosa, foi restaurada, sendo hoje a «Casa Museu Vicente Blasco Ibáñez».
Bibliografia:
- http://pt.wikipedia.org/wiki/Vicente_Blasco_Ib;
- Cuentos, Vicente Blasco Ibáñez, edición de Juan Carlos Herrán y Emilio José Sales, Ediciones Cátedra (Grupo Anaya, S. A.), Madrid, Março de 2011.



Uma excelente lembrança!Não fosse uma parte da obra de Blasco Ibañez integrar a biblioteca avoenga e, provavelmente, seguindo as referências depreciativas de que foi sendo alvo, teria a ideia de se tratar de um escritor de escassíssima importância, quando, na verdade, mesmo não estando ao mesmo nível literário de Zola, não é redutível ao que dele dizem, com um certo menosprezo (se calhar, já mais por “tradição” – sobretudo de tempos franquistas – que por real conhecimento da obra de Ibañez, por parte dos respectivos autores), “histórias da literatura” como a que referes… Quando muito, talvez as adaptações ao cinema me levassem a querer saber mais…A verdade é que li o que dele havia lá por casa (à excepção da “Volta ao Mundo”, que então não me despertava interesse) aí pelos 10-12 anos, se não mais cedo: já não consigo reconstituir a ordem pela qual “devorei” aquele milhar de volumes – muitos notáveis. alguns nem tanto…-, empurrado pelos “repousos obrigatórios” impostos por uma primo-infecção que levou mais de 4 anos a curar… Sei que, quando cheguei ao liceu, a professora de português se mostrou algo perplexa quando, numa redacção sobre o livro de que cada criancinha mais tinha gostado, escrevi sobre “A Loja de Antiguidades”, do Dickens – vá lá que, a uma pergunta minha, já com um toque de agressividade, respodeu não duvidar de que o tivesse lido, o que a admirava era que “tivesse gostado” (não tinha a experiência das possíveis implicações do “repouso obrigatório” que, na altura, já iria nuns bons 3 anos, no gosto literário…)Mas será que há edições recentes de Ibañez? É que as minhas “avoengas” são – é fácil verificar, o “acervo” está informatizado – de 1903 (Terras Malditas – La Barraca), 1905 (A Cathedral, que se apresenta como 1.ª edição), 1909 (Jesuitas – El Intruso, Miseraveis – Cañas y Barro, Flor de Maio), 1924 (Os 4 Cavaleiros…) e 1931 (A Volta ao Mundo). Os mais antigos são todos de uma tal “A Editora”, de Lisboa, à excepção de “Miseraveis”, que é da Guimarães Eds. – esta é que tem tradução de Vasco Valdez.
PauloGaranto-te que a edição de «A Catedral» que eu tenho e que refiro foi traduzida por Vasco Valdez, que terá traduzido outras obras do autor, como a que tu referes. Consegui esta edição, embora tenha lido uma outra que me emprestaram mas cujo tradutor não recordo. Esta edição que tenho foi por mim adquirida na Feira da Ladra, no dia 20 de Setembro de 1997 e é a 4.ª, o que mostra que o autor teve êxito em Portugal.Hoje mesmo, almocei com o Arsénio Mota no Porto e estivemos a recordar o autor, de que ele traduziu «Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse».Ainda alolescente, li um outro livro de V. Blasco Ibáñez, cujo título não recordo, que falava dos mineiros de Bilbau e contava, pelo meio, a história da origem do nome Bilbau: um mineiro deixou escapar um cântaro para o rio que, ao afundar, terá originado dois sons «bil – bau». É o que recordo dessa leitura e tenho de encontrar o ivro.
António,A minha formulação, pelos vistos, não foi a melhor: não quiz dizer que Vasco Valdez não tivesse traduzido “A Catedral” – a minha edição ainda se apresenta como “A Cathedral” -, mas sim que a edição da Guimarães de “Miseraveis” tinha sido também traduzida por ele: portanto, era assim como uma espécie de confirmação do senhor como tradutor de Ibañez, eventualmente nas edições nortenhas… Quanto ao livro que leste e querias encontrar, não será “El Intruso” (no original), de que tenho uma tradução intitulada “Jesuitas”? Não voltei a lê-lo, desde então, mas lembro-me de que se passa em Bilbao e que fala dos seus mineiros. Agora, pelo que conheço doutras vias, tenho ideia de que a tal história da origem do nome da cidade não passará de uma lenda, sem qualquer base histórica (o que, de resto, não tem qualquer importância na apreciação da obra, excepto confirmar os fundamentos populares da obra literária de Ibañez). De certeza que Ibañez teve êxito por cá, não só pelo facto de as edições se sucederam, como, também, pelos vistos, por ser publicado por várias editoras. Aliás, o acervo “avoengo” revela uma tendência muito importante na época, muitas vezes animada pelas influências republicanas e socialistas em intelectuais e classes trabalhadoras: a de se multiplicarem as publicações de romances que tratam dos aspectos mais chocantes e injustos da realidade social ou, até, de livros que tratam, de modo mais ensaístico, de questões políticas e sociais. Tenho, dessa época, diversas colecções que revelam essas preocupações. Mas, claro, não sendo historiador, esta é uma conclusão empírica, não aprofundada. Do que não há dúvida é que, dessa perspectiva, a pequena biblioteca iniciada pelo meu bisavô paterno – agricultor ribatejano, creio que razoavelmente abastado e já aburguesado – e continuada pelo meu avô – economista, funcionário superior “das Alfândegas”, de que chegou a ser nomeado Director-Geral (ou lá o que era), nos primeiros tempos do consulado de Salazar (não chegando a tomar posse por ter morrido tuberculoso, com cerca de 40 anos), deixando a família em sérias dificuldades… – tem características muito interessantes e curiosas, que me deixam interrogações sobre o que seriam e como pensariam (aparentemente, não muito de harmonia com a sua classe social) esses meus antepassados, que não conheci e sobre os quais são escassas as informações que me chegaram…
PauloO que dizes reforça a ideia que tenho da popularidade de Vicente Blasco Ibáñez, na minha opinião perfeitamente justificada e que me leva a lamentar que hoje não tenha em Portugal o mesmo número de leitores.O livro que referi é de facto «Os Jesuítas», que irei comprar na primeira oportunidade (não me lembrava que o título original é «El intruso»). Obrigado pela ajuda.Um dia farei o mesmo que fiz agora para V. B. Ibáñez a um outro escritor seu contemporâneo, o galego Castelao, que julgo merecer divulgação, embora não tenha tido em Portugal a mesma popularidade que teve V. B. Ibáñez.