GIRO DO HORIZONTE – Contra-revolução no Egipto – por Pedro de Pezarat Correia

Prossigo hoje, mais uma vez, as reflexões que me tem sugerido a preocupação com a evolução da situação no Egipto. Apesar de não estar a merecer grande atenção aos observadores portugueses a mim tem-me surgido naturalmente, porque tenho em mãos um trabalho para prefaciar um livro que vai ser publicado em Portugal, tradução de original francês, sobre as revoluções no mundo árabe, obra que considero imprescindível para ajudar a compreender tão importante e complexo fenómeno e cujos factores de análise, em geral, escapam aos analistas europeus, que mantém a tendência para interpretar o que se passa no mundo à luz das suas perspectivas eurocentradas. Perspectivas viciadas, herdadas de uma arrogância colonial e imperial, que ainda está demasiado presente no seu imaginário. E que, terminada a era colonial, transferiram para a sua convicção de que, através do núcleo duro da globalização, continuam no centro do mundo. Oportunamente regressarei aqui a este livro.

 

No conjunto do mundo árabe o Egipto não é um país qualquer. É o mais populoso, é a maior potência militar, tem a mais sensível posição geoestratégica, é o principal aliado dos EUA e é o país sede da Irmandade Muçulmana, movimento político-religioso que está a servir de referência às diversas forças islâmicas que têm saído maioritárias das eleições já efectuadas em vários países árabes, desde os princípios de 2011. E, por fim, mas não menos importante, o Egipto é decisivo no grupo de países árabes que, intermediados pelos EUA, têm mantido relações de compromisso com Israel, com óbvia desvantagem para os palestinianos.

A verdade é que, se foi no Egipto que a revolução árabe assumiu a maior dimensão enquanto explosão popular, também foi no Egipto que a emergência de um expressivo poder político islâmico, ainda que relativamente moderado, deu lugar à primeira contra-revolução “manu-militare” da chamada “primavera árabe”. Os militares, que nunca saíram do palco desde a implantação da república em 1952, como já aqui afirmei “empalmaram” a revolução popular nascida na Praça Tahrir e, quando sentiram que, com a previsível vitória de Mohamed Mursi nas eleições presidenciais, a Irmandade Muçulmana poderia fazer o pleno político, anteciparam-se, dissolveram a Assembleia Legislativa, anularam os seus poderes constitucionais, assumiram plenos poderes e trataram de garantir o controlo da comissão que vai elaborar a constituição. Na realidade, o seu compromisso assumido quando a revolução ainda estava na rua de transferir o poder para os civis, reduzir-se-á ao empossamento de um Presidente da República esvaziado de poderes de facto.

O ocidente provavelmente respirará de alívio, mas o fôlego pode não ser muito duradoiro. Antes de conhecidos os resultados eleitorais da segunda volta para as presidenciais a Sr.ª Clinton expressou a vontade dos EUA de verem cumprida a promessa da entrega do poder ao presidente eleito. Omitiu qualquer referência ao golpe militar contra a Assembleia Legislativa eleita, sem que então os observadores internacionais detectassem qualquer anomalia. A Secretária de Estado norte-americana já sabia que o poder ia manter-se nas mãos dos generais e isso era o suficiente para garantir a continuidade da sua estratégia no Médio Oriente. O seu apelo à pouco mais que formal transferência do poder, bastava para tranquilizar a sua consciência.

Não creio que a situação no Egipto vá acalmar. A sociedade parece fracturada, a influência islâmica mostra-se determinante, a economia está exausta e se se acentuar a ruptura entre as áreas militar e religiosa a coesão das forças armadas pode ser perturbada, dado o modelo de conscrição em vigor, que lhes confere uma grande interpenetração com as camadas populares.

 

Com a ressonância que o que se passa no Egipto tem no mundo árabe, via Irmandade Muçulmana, o futuro das revoluções árabes continua a perfilar-se num horizonte carregado de incertezas. Teremos de continuar atentos.

25 Junho 2012

2 Comments

  1. En la descripció del panorama polític egipci no es pot passar per alt el singular estatus de l’exèrcit, que constitueix un holding econòmic que té el control de un percentatge molt significatiu de l’economia del país, en sectors cabdals, que van de la indústria d’armament i de béns de consum, a l’agricultura i la indústria alimetària, passant per la construcció i les infraestructures. L’estament militar, que està directament implicat en els llocs de poder econòmic de la societat civil i que està en competència econòmica amb el mercat i l’economia de la societat civil no renunciarà a aquesta hegemonia. Una cosa és deixar caure el règim, i l’altra cedir el “poder” econòmic i els privilegis. Aquest em sembla una de les hipoteques més greus amb què s’enfronta al futur la “primavera” egipcia.

  2. Estou de acordo com a análise e com a conclusão de que a incerteza constitui a nota dominante.. Não há dúvida de que Mubarak e os seus seguidores edificaram, ou consolidaram, uma oligarquia militar. A qual, no entanto, mantinha um relativo laicismo. Será que a Irmandade Muçulmana democratizará a sociedade egípcia? E aqui convém não esquecer a estrutura etimológica da palavra democracia – governo do povo – Será que o povo egípcio, a sua maioria, pelo menos, deseja uma democracia de modelo ocidental? Ou será que a vontade maioritária do povo vai no sentido de islamizar? Islamizar significa cercear liberdades, secundarizar a mulher… Gera-se aqui um paradoxo – democratizar, na acepção islamita, será limitar as liberdades democráticas, vistas como perversão por clérigos e fiéis. Mohamed Morsi , ao mesmo tempo que promete respeitar os tratados internacionais, inclusive o tratado de Paz com Israel, afirmou a intenção de reforçar as relações com o Irão e que esse reforço criará um equilíbrio estratégico regional (face a Israel?). Sendo evidente que a CIA e uma parafernália de movimentos, ajudaram a atear o fogo da «primavera árabe», parece que o tiro pode sair pela culatra. Horizonte carregado de incertezas, de facto.

Leave a Reply to Josep A. VidalCancel reply