Subscrevi o Manifesto do Movimento Sem Emprego.

(continuação)

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota 

 

Na Europa, o desemprego juvenil explode (En Europe, le chômage des jeunes explose)

 

Claire Gatinois

 

Na Grécia e em Espanha, onde um jovem em cada dois está sem trabalho, os especialistas acusam a rigidez do mercado de trabalho.


Já lhes chamam a “geração sacrificada” ou ainda “baby-loosers” por oposição a “baby boomers”. Na Europa, conseguir um emprego quando se tem 25 anos de idade tornou-se um desafio quase intransponível. Uma possibilidade em duas, apenas, de se levantar, em Atenas. O desemprego, que afecta agora 21,08% da população activa do país (esta taxa dobrou num ano), sobe para 50,8% para os que têm menos de 25 anos, segundo dados do mês de Janeiro, publicado na semana passada.


A Grécia, apanhada por inteiro na recessão e minada pela dívida, é um do casos mais dramáticos da zona euro, sem, no entanto, ser um caso isolado. O país já ultrapassou o “registo” da Espanha, onde 50,5% dos jovens estão desempregados  e ensombra ainda mais um panorama sombrio da Europa. Em Portugal (35,4%), na Itália (31,9%) e, em menor medida, na França (21,7%), o desemprego atingiu a nova geração em proporções espectaculares.


A crise? Não só. Ter menos de 25 anos parece mais prejudicial no sul da Europa do que no norte da Europa. Mais uma vez a diferença aumenta entre a Alemanha e os outros. O desemprego dos jovens é ai cerca de 1,4 vezes maior do que a média nacional. Na Itália, a relação é do simples ao triplo e do simples ao duplo na Grécia, em Portugal, em Espanha e na França.


 

Os números devem ser encarados com precaução e as comparações são delicadas. alerta Mathieu Plane do Observatório Francês das Conjunctures Economiques (OFCE). A taxa de desemprego entre os 15-25 anos pode ser aumentada pela baixa proporção desta classe no mercado de trabalho (numerador).

 

Este é o caso em França, onde se tem a tendência de permanecer nos bancos da Universidade. Em 2010, por exemplo, o desemprego entre os jovens poderia aparecer maior entre nós (22,4%) do que no Reino Unido (19,6%). Porém, calculando agora o número de jovens desempregados relativamente a todos os jovens de 15 a 25 anos, a relação é completamente diferente: a taxa é de 8,6% em França, contra 11,6% além-Mancha.


No entanto, a inflação de jovens adultos sem emprego na Europa atinge níveis altamente alarmantes. O fenómeno não é novo, mas ter-se-ia acentuado, dizem os especialistas, nestes últimos quinze anos, pela mudança das nossas economias no sentido do aumento do peso dos serviços.

 

 “As contratações na indústria são mais “democráticas”,” diz-nos Sylvain Broyer, economista no banco Natixis. As qualificações, a experiência, contam frequentemente menos nas fábricas do que nos serviços. E o sector terciário, onde o trabalho é menos físico, recruta mais facilmente pessoas mais velhas.

 

De acordo com especialistas, a rigidez e a dicotomia do mercado de trabalho num país estaria assim posta em causa : de um lado os contratos equivalentes ao nosso contrato de duração indeterminada, protectores ( despedimentos mais caros e a exigir justificação), devidamente remunerados (com um salário mínimo), e de outros lado os contratos mais precários dos jovens tornar-se-iam mais vulneráveis.


A importância da formação

 

“O mercado de trabalho funciona então como uma sala de espera,” explica Gilles Moec, economista na Deutsche Bank. Ao entrar na vida activa, os trabalhadores esperam meses, às vezes anos até, antes de conseguirem um CDI ou o seu equivalente, considerado uma espécie de Santo Graal, diz-nos. À menor crise, estes recém-chegados ao mercado de trabalho são mais fáceis de despedir, são os primeiros sacrificados.


Um apelo à reforma do mercado de trabalho, como se pretende em Itália, em Espanha ou em Portugal? ” Sem crescimento, isto traduzir-se-á apenas em transferir o desemprego de um bolso para outro”, diz  Mathieu Plane do OFCE.


Por exemplo, a Espanha terá necessidade de vários esforços para conter o subemprego da nova geração, porque o número de jovens desempregados está ligado à explosão da bolha imobiliária e ao desaparecimento das empresas de construção pois nada foi feito para as substituir.


Quando as coisas estavam a ir mais ou menos bem. este sector atraia os jovens devido aos seus salários elevados para níveis de qualificação relativamente baixos, da ordem de 3000 euros líquidos por mês por um canalizador, de 2 000 a 2 500 euros para um pedreiro, diz Fernando Fernández, Professor de economia da IE Business School em Madrid. Assim, atraídos, alguns deixavam a escola aos 16 anos ou mesmo menos para começarem a trabalhar, diz-nos. Sem trabalho, sem diploma, as suas possibilidades de reencontrar um trabalho, parecem hoje ser mínimas.


Porque a formação é outra grande explicação para o desemprego dos jovens entre os 15 e os 25 anos. “No” país modelo da Europa, a Alemanha, o sistema de ensino e formação profissional são em alternância – acrescentado à ausência de um salário mínimo – explica que os jovens sejam um pouco mais poupados.


Este sistema é ainda tanto mais precioso quanto em tempo de crise, as empresas, numa posição de força, recusam tomar a seu cargo a formação de um novo trabalhador contratado preferindo um “pronto a empregar”


Resta uma – relativa – esperança: os jovens com menos de 25 anos encontram um emprego com mais facilidade do que os mais velhos. Em França, este grupo de idade permanece em média 143 dias desempregados, contra 263 dias para os que se situam entre 25-49 anos e contra 407 dias para quem tenha mais de 50 anos. Mais se é jovem e diplomado mais este tempo de espera se reduz.


O desemprego dos jovens não deixa de ser muito perigoso. Se ele se arrasta, tendem a aceitar os cargos para os quais são sobre requalificados. Arruinando-se os esforços de educação de um país. Além disso, uma travessia do deserto não é sem consequências psicológicas. Há já vários estudos americanos que nos dizem que o desemprego leva a uma menor auto-estima, a menos saúde, a maiores riscos de suicídio e leva também a um menor nível de confiança para com as instituições. Há mesmo muito para desencantar uma geração.

 

Claire Gatinois, En Europe, le chômage des jeunes explose, Le Monde, 14.04.2012

 

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