MUNDO CÃO – MENOS ESTADO, MAIS SEGURANÇA…?! – por José Goulão

É o toque a rebate. David Cameron anda num desassossego, vai ter que transferir 3500 tropas do contingente do Afeganistão para Londres, está a mobilizar tudo quanto é agente da polícia nos mais recônditos recantos das britânicas ilhas para que lhe acudam à segurança dos Jogos Olímpicos. E logo haveria o escândalo de rebentar num dos países que sobretudo durante a última década mais tem imposto a política “da segurança” contra tudo e todos, principalmente invadindo e perturbando a vida privada dos cidadãos.

A duas semanas da certamente imperial cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, abrilhantada por Sua Majestade, descobriu-se o “buraco” da segurança. Dos 13 mil efectivos necessários o recrutamento não atingiu ainda os cinco mil e, segundo relatos minuciosos nos jornais, os que estão contratados não conhecem horários, lugares de trabalho, não receberam formação, “alguns nem sabem soletrar os próprios nomes”, segundo um oficial reformado da polícia que, chamado de emergência, se recusou a participar “na farsa”.

G4S é a razão do imbróglio que assusta, e agora com toda a razão, os súbditos de Sua Majestade e os de outras majestades e sem majestades de todo o mundo que se vão juntar em Londres e mais cidades britânicas respondendo ao apelo dos Jogos.

G4S tem fama e, principalmente, muito proveito. É a maior multinacional mundial de segurança, de origem dinamarquesa mas actualmente de bandeira britânica. Orgulha-se de estender os seus tentáculos securitários e bem pagos em 125 países e de ser o terceiro maior empregador privado do mundo. A G4S é Estado dentro de muitos Estados agora que os Estados se querem pequenos. Cameron e o seu governo têm vindo a entregar-lhe paulatinamente a privatização da polícia de Sua Majestade. Não espanta que o chefe da organização dos Jogos, Sebastian Coe – que deveria ter preferido ficar na história como um atleta fabuloso – lhe tenha entregue a segurança das Olimpíadas segundo termos contratuais que não quer divulgar mas que, de acordo com os jornais, montam a quase 500 milhões de euros, diz-se.

Ao governo britânico e aos organizadores dos Jogos pouco importa que a G4S tenha rastos de violência, sangue humano, repressão e morte na sua nobre folha de serviços. Por exemplo, o assassínio do cidadão angolano Jimmy Mubenga em 2010 a bordo do avião em que a empresa decidiu expatriá-lo para Luanda usando o seu poder como tutelar da segurança de Heathrow, tal como o é de outros aeroportos europeus, Bruxelas e Amesterdão incluídos; casos de discriminação e racismo nas relações com imigrantes; a segurança das prisões israelitas, dos colonatos ilegais israelitas nos territórios palestinianos, check-points na Palestina a rogo do governo de ocupação para humilhar a vida dos palestinianos; violações de direitos humanos na Indonésia e em outros países asiáticos…

A uma entidade destas entrega Cameron o policiamento do Reino Unido, entrega Coe a segurança dos Jogos a que ainda chamam – anacronicamente, é certo – “da paz”. Os pecadilhos que atrás se relatam não os incomodam, o que os rala mesmo são os mais de oito mil seguranças que a terceira maior empregadora privada do mundo não consegue reunir para honrar o contrato com a organização dos Jogos Olímpicos.

O que talvez o leitor não saiba é que apenas em Maio passado a G4S atingiu os píncaros da glória ao ser galardoada com o “Recruiter’s Awards for Excelence”, uma espécie de medalha de ouro olímpica e mundial para a modalidade de “estratégias de recrutamento”. O júri elogiou na G4S, com o fundamentado rigor que agora todos partilhamos, a estratégia “altamente inovadora” de recrutamento e a forma “optimizada” de funcionamento dos “centros de carreira” criados pelo gigante da segurança. No momento de agradecer o prémio, o responsável da G4S para o sector da estratégia, Colin Minto (o apelido é apenas uma coincidência) achou justo o prémio devido “à nossa capacidade para atrair, recrutar e manter as melhores pessoas”.

Uma capacidade poderosa, há que reconhecê-lo. A G4S consegue o que até agora não esteve ao alcance de reis, presidentes e primeiros ministros em 12 anos: desviar 3500 soldados da guerra do Afeganistão para Londres. Os talibãs agradecem.

 

Leave a Reply