Organização de Álvaro José Ferreira
Ilustração: pormenor de um quadro de Dorindo Carvalho
CANÇÃO III
Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, apresentação de Aníbal Pinto de Castro, Coimbra: Livraria Almedina, 1994). Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995)
Já a roxa manhã clara
do Oriente as portas vem abrindo,
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho modulando,
com ũa suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.
A manhã bela e amena,
seu rosto descobrindo, a espessura
se cobre de verdura,
branda, suave, angélica, serena.
Oh, deleitosa pena!
Oh, efeito de Amor tão preeminente!
Que permite e consente
que onde quer que me ache, e onde esteja,
o seráfico gesto sempre veja,
por quem de viver triste sou contente!
Mas tu, Aurora pura,
de tanto bem dá graças à ventura,
pois as foi pôr em ti tão diferentes,
que representes tanta fermosura.
A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem mouro,
e os cabelos de ouro
não igual aos que vi, mas arremeda:
esta é a luz que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
o orvalho das flores delicadas
são nos meus olhos lágrimas cansadas,
que eu choro co prazer de meu tormento;
os pássaros que cantam
os meus espritos são, que a voz levantam,
manifestando o gesto peregrino
com tão divino som que o mundo espantam.
Assim como acontece
a quem a cara vida está perdendo,
que, enquanto vai morrendo,
algũa visão santa lhe aparece;
a mim, em quem falece
a vida, que sois vós, minha Senhora,
a esta alma que em vós mora
(enquanto da prisão se está apartando)
vos estais juntamente apresentando
em forma da fermosa e roxa Aurora.
Oh, ditosa partida!
Oh, glória soberana, alta e subida!
Se mo não impedir o meu desejo;
porque o que vejo, enfim, me torna a vida.
Porém, a Natureza,
que nesta vista pura se mantinha,
me falta tão asinha,
quão asinha o sol falta à redondeza.
Se houverdes que é fraqueza
morrer em tão penoso e triste estado,
Amor será culpado,
ou vós, onde ele vive tão isento,
que causastes tão longo apartamento,
porque perdesse a vida co cuidado.
Que se viver não posso,
(um homem sou só, de carne e osso),
esta vida que perco, Amor ma deu;
que não sou meu: se mouro, o dano é vosso.
Canção de cisne, feita na hora extrema:
na dura pedra fria
da memória te deixo, em companhia
do letreiro de minha sepultura;
que a sombra escura
já me impede o dia.
* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel
Pós-produzido nos Estúdios Grande Som, Lisboa
URL: http://www.teatro-cornucopia.pt/htmls/conteudos/EEuEZkluuuTLFwLByT.shtml
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Miguel_Cintra
http://www.infopedia.pt/$luis-miguel-cintra

