Diário de bordo de 17 de Julho de 2012

 

De 17 para 18 de Julho de 1936, o Exército de África, as forças espanholas estacionadas em Marrocos sob o comando do general Franco, revoltavam-se contra o legítimo governo da República. Começava a guerra civil – centenas de milhares de mortos numa antevisão do que se iria seguir – um conflito mundial em que perderam a vida muitos milhões de seres humanos. O capitalismo resolvia os seus problemas de maneira violenta. Não aprendera ainda a moderar o sabor amargo do seu princípio activo (a acumulação de capital) com um excipiente adoçante (a democracia representativa) que, não reduzindo os efeitos, torna a terapêutica menos dolorosa para os pacientes. 

 

Pacientes estamos nós a ser e em demasia. A história da licenciatura de Miguel Relvas continua a concentrar as atenções de uma forma que começa a tornar-se excessiva. Não porque não seja grave, mas porque tudo está explicado e o facto de haver um ministro que obteve uma licenciatura de forma ínvia não é a única coisa que está mal. Esta concentração de atenções em Miguel Relvas, parece-nos estar a ajudar o executivo de Passos Coelho a desviar de si os focos mediáticos. E no partido do governo houve já quem  compreendesse as vantagens de concentrar as atenções em Relvas – Marcelo Rebelo de Sousa propõe Marques Mendes para o lugar de Relvas, Jardim dá uma achega pseudo-humorística, reivindicando quatro licenciaturas – uma delas em Veterinária… Vasco da Graça Moura «descobre» que o ministro devia demitir-se e Bagão Félix Relvas diz o mesmo – “devia demitir-se para poupar primeiro-ministro” Mas o líder da JSD diz manter a confiança no ministro que apenas terá aproveitado leis que não criou. E diz que a culpa é toda de Mariano Gago… Tontice que revela a ética que enforma o viveiro de políticos, a «cantera», como se diz no futebol, de que já saíram líderes como José Sócrates e Passos Coelho.

 

Ou seja, esta gente não quer que o caso se extinga e está a alimentar uma polémica moribunda a balões de soro. Era bom que a esquerda os deixasse a falar sozinhos e parassem as anedotas, os cartoons, as manifestações. Relvas não merece tanta atenção. Relvas apenas merece desprezo. Mas esta é a forma que os poderes do grande capital encontraram para evitar situações como a que há 76 anos eclodiu aqui ao lado e onde aproximadamente um milhão de pessoas morreu. A escumalha fascista,  com o seu aparato de um romantismo cediço, militares traindo o povo, mas fiéis aos bispos e aos barões do capital, tudo isso caiu em desuso. Hoje, somos nós que dobramos um papelinho em quatro e o metemos numa urna, escolhendo se queremos ser burlados por um mentiroso ou espoliados por um pateta. No teatro de fantoches, os bonecreiros são sempre os mesmos – mudaram os bonecos a o enredo. Os papalvos continuam a afluir ao espectáculo e a deixar-se atrair por episódios como o da licenciatura de Miguel Relvas.

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