12. Edição do álbum “Cantigas do Maio”, de José Afonso; «O mais histórico e o mais referencial de todos os discos da música popular portuguesa. Gravado no Strawberry Studio, de Michel Magne, em Herouville (França), entre 11 de Outubro e 4 de Novembro de 1971, com arranjos e direcção musical a cargo de José Mário Branco, este disco assinala a primeira viragem de fundo na revolução musical iniciada por Zeca uma dúzia de anos antes. O tratamento instrumental de cada tema, a beleza poética e a subversão temática atingem aqui um nível nunca anteriormente possível. E, uma vez mais, Zeca recusa a facilidade, incluindo canções onde o surreal é já assumido na sua totalidade (para desespero da direita e de uma certa esquerda, que insistia na necessidade de uma “definição clara” de Zeca, à luz do “socialismo científico”) como “Ronda das Mafarricas” ou “Senhor Arcanjo”, a par de belíssimos temas de inspiração popular, como “Maio, Maduro Maio”, “Milho Verde”, “A Mulher da Erva” ou “Cantigas do Maio” e de óbvios cantos de resistência, como o “Cantar Alentejano”, dedicado a Catarina Eufémia, camponesa assassinada pela GNR, ou “Coro da Primavera”.
Gravado num tempo recorde e contando apenas com as participações de meia-dúzia de músicos (Carlos Correia, Michel Delaporte, Christian Padovan, Tony Branis, Jacques Granier e Francisco Fanhais, além de, naturalmente, José Mário Branco e Zeca), este disco seria considerado, em 1978, como o melhor de sempre da música popular portuguesa, numa votação organizada pelo “Sete” que contou com a participação de 25 críticos e jornalistas. Um tema, no entanto, bastaria para fazer de “Cantigas do Maio” um marco da história portuguesa: “Grândola, Vila Morena”[>> YouTube] [>>YouTube] [>> YouTube], escolhida em 1974 como senha para o arranque do Movimento dos Capitães, que em 25 de Abril derrubou a ditadura fascista.» (Viriato Teles);
(Continua amanhã)
