BACAMARTE – por Fernando Correia da Silva

Um café na Internet

 




Sinto a ausência do Mário Henrique Leiria. Sem aviso prévio, o surrealista  pirou-se para o Além, bateu as botas, saudades tenho. Morava em Carcavelos, junto à estação dos comboios, numa vivenda colada ao cinema, a qual pertencera aos seus avós. Morava com a mãe e uma tia, duas velhotas frágeis. Disse-me para eu aparecer num domingo, mas à noite. Perguntei:

– Porquê domingo? Porquê à noite?

 

– Tu vais ver…

 

E vi. Perto da meia-noite levou-me à torrinha e mostrou-me um bacamarte que pertencera ao seu avô, combatente da Carbonária. Arma galharda. Nisto, começa a sair a pequena multidão que fora ao cinema, a qual se agrupava sempre aos domingos. O Mário aponta o bacamarte para o céu e começa a disparar um tiro atrás do outro. Aos gritos, a multidão desfaz-se em correrias. O Mário mata-se a rir, e eu com ele. Daquele sacana, saudades tenho, saudades tenho…

 

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