Um café na Internet
Sinto a ausência do Mário Henrique Leiria. Sem aviso prévio, o surrealista pirou-se para o Além, bateu as botas, saudades tenho. Morava em Carcavelos, junto à estação dos comboios, numa vivenda colada ao cinema, a qual pertencera aos seus avós. Morava com a mãe e uma tia, duas velhotas frágeis. Disse-me para eu aparecer num domingo, mas à noite. Perguntei:
– Porquê domingo? Porquê à noite?
– Tu vais ver…
E vi. Perto da meia-noite levou-me à torrinha e mostrou-me um bacamarte que pertencera ao seu avô, combatente da Carbonária. Arma galharda. Nisto, começa a sair a pequena multidão que fora ao cinema, a qual se agrupava sempre aos domingos. O Mário aponta o bacamarte para o céu e começa a disparar um tiro atrás do outro. Aos gritos, a multidão desfaz-se em correrias. O Mário mata-se a rir, e eu com ele. Daquele sacana, saudades tenho, saudades tenho…

