O XADREZ SEM MESTRE, romance de Carlos Loures

 Co-edição de


Excerto do primeiro capítulo

 

Rossio, Lisboa, terça-feira, 18 de Março de 2008.

Era como se um grande e alvo pássaro de asas acetinadas tivesse descido lentamente, dir-se-ia que quase de forma sub-reptícia e clandestina, sobre as casas, as praças e as ruas, cobrindo com a sua sombra a poalha de ouro e sangue daquele antecrepúsculo primaveril. Um típico entardecer desta luminosa cidade. (…)

Um homem aparentando ter não menos de 30, nem mais de 40 anos, alto, magro, bem-parecido, olhos azuis, cabelo abundante e castanho claro, leve e precocemente encanecido nas têmporas, atravessou a passagem de peões entre o busto de D. João da Câmara e o passeio do pequeno largo onde se situa o Beira-Gare e a loja que vende armas. Dobrou a esquina para o Rossio. Encostado à protecção metálica que impede os peões de atravessarem fora da passagem, estava um homem bastante mais velho, alto e forte, de cabelos brancos. Fez, na direcção do jovem, um leve aceno afirmativo com a cabeça. (…) Dirigiu-se sem quaisquer pressas na direcção do balcão onde, no meio de diversos clientes, estava um outro homem, bastante mais idoso, calvo, mas com abundantes farripas brancas aureolando-lhe a calvície e usando óculos de lentes espessas. Sentado num banco alto, bebia uma meia de leite e mastigava uma sandes mista ao mesmo tempo que ia lendo um jornal dobrado sobre o tampo. Era um velho dos seus 70 anos, de estatura mediana, forte, mesmo um pouco obeso. Vestia-se também de maneira normal, usando um fato de bombazina castanha, com cotoveleiras de camurça, não conseguindo apertar os botões do casaco na opulenta barriga, e uma camisola de lã bege, com gola alta subindo-lhe até ao duplo queixo. No banco ao lado pousara um sobretudo azul-escuro e uma velha pasta de cabedal. Embora de modo diferente, pois ostentava um toque de alguma transgressiva informalidade (como, por exemplo, o fornilho de um cachimbo surgindo no bolso superior do casaco), denunciando nele o intelectual, de um modo diferente, dizíamos, era, à sua maneira, um cidadão vulgar, semelhante a outros que por ali estavam.

(…) O homem que entrara foi passando, pedindo licença, entre os que nas mesas junto à parede ou nos bancos altos do balcão, comiam, lanchavam, liam jornais ou conversavam. Ninguém lhe prestou atenção especial, pois tratava-se de apenas mais um homem como tantos dos que ali estavam. Vulgar, como já se disse. O recém-chegado, aproximando-se com passos lentos e parando cerca de um metro atrás, chamou com uma voz grave e forte o que comia a sandes e lia o jornal dobrado sobre o balcão:

Avelino!

O careca pousou despreocupadamente a chávena sobre o vidro do balcão e voltou-se, com a sandes na mão direita e mastigando ainda o pedaço de pão que pouco antes metera à boca. Com a mão livre fez menção de tirar os óculos que pusera para ler o jornal. Franziu os olhos, num esforço para espremer a memória. Parecia ter reconhecido o homem alto, mas não estar totalmente seguro disso, pois havia uma profunda expressão de surpresa e depois de medo no seu rosto, à medida que parecia recordar-se da identidade do recém-chegado. Como se estivesse perante um fantasma:

– Félix! – Murmurou. O mais jovem estava imóvel. Depois perguntou:

– Olá Avelino, estás bem? – E abriu um sorriso que, dir-se-ia, cordial ou até mesmo amistoso ao mesmo tempo que, erguendo com a mão esquerda a dobra da gabardina, lhe mostrava, apontando-lha, a pistola de calibre de guerra ali escondida, uma velha Walther P38 munida de silenciador:

– Adeus Avelino! – E disparou-lhe dois tiros. Um no peito e outro na cabeça.

As detonações foram praticamente inaudíveis, mercê da acção do silenciador e do forte ruído ambiente. Só uma jovem empregada, por detrás do balcão, com a bata cor-de-rosa e a touca branca do uniforme, vira a arma surgir e estremecer levemente ao disparar. Abriu a boca, desenhando com os lábios carnudos e pintados de vermelho vivo um «o» silencioso. Nem sequer os clientes que circundavam o calvo se aperceberam do que acontecera, continuando as suas conversas, leituras, diálogos gritados ao telemóvel, ou solitários pensamentos. O homem mais velho, ostentando ainda no rosto já sem vida a máscara de surpresa e pânico que assumira quando se voltara, escorregou lentamente do banco alto sobre a alcatifa vermelha da cafetaria, quase sem fazer ruído. A mão esquerda, inerte, fez cair ao tombar o sobretudo e a pasta que pousara no banco ao lado, Uma outra jovem empregada que trazia numa bandeja diversos cafés da máquina expresso para o balcão, vendo o corpo caído, o rosto de lado, de olhos abertos e um terceiro olho aberto na testa por onde o sangue fluía com abundância, gritou e deixou cair as chávenas quando levou as mãos à boca. Foi o seu grito agudo, o ruído da louça quebrando-se e a queda do homem gordo e calvo que desencadeou a confusão que logo a seguir se estabeleceu.

(…) O assassino ou, caso se prefira, o executor, sem que alguém fizesse sequer menção de o impedir, saiu para o passeio do Rossio, cheio de gente àquela hora da tarde. Sempre com gestos lentos, sem precipitações, vestiu a gabardina, tirou um boné de veludo castanho do bolso do impermeável e colocou-o na cabeça. Do bolso superior do casaco tirou um par de óculos escuros que pôs também. A primaveril luminosidade da tarde parecia justificar, apesar da hora já avançada, um tal cuidado. Todas estas operações foram sendo paulatinamente executadas enquanto se afastava da cafetaria. Dirigiu-se sem pressas na direcção do teatro D. Maria, fazendo o mesmo percurso da vinda. O homem idoso continuava encostado à protecção metálica. Desta vez foi o jovem quem, quase imperceptivelmente, fez um gesto afirmativo com a cabeça. (…)

Na manhã seguinte, nos jornais diários, saíram notícias com escassa informação sobre o caso. Nos tablóides o assunto teve honras de primeira página, mas as grandes parangonas dos títulos ocupavam mais espaço do que propriamente o texto noticioso. Diziam que um homem fora assassinado em plena Baixa da capital. Avelino Murta de Souza-Mello, assim se chamava. Natural de Lisboa, onde em 1937 nascera na freguesia de Santa Isabel. Professor e advogado, licenciado pela Faculdade de Direito de Lisboa e doutorado pela Universidade de São Paulo, a cujo corpo docente pertencera, pois jubilara-se havia pouco. Fora para o Brasil em 1969 (fugindo à perseguição da polícia política do regime de Marcelo Caetano, acrescentavam alguns dos jornais) e chegara a Portugal há cerca de uma semana. Era também um teórico do xadrez com fama internacional, autor do livro O Lance de Damião – a metáfora enxadrística na literatura de língua portuguesa, recentemente editado em São Paulo, já com várias reedições, e traduzido nos principais idiomas.

A vinda a Lisboa tivera mesmo como motivo o lançamento da edição portuguesa dessa sua obra o qual tinha ocorrido dias antes no Grémio Literário. Tinha viagem de regresso a São Paulo reservada para o próximo sábado. A Polícia Judiciária investigava. Pouco mais se apurou nos dias seguintes – soube-se que o calibre da arma do crime era o de 9 mm, conheceu-se o óbvio resultado da autópsia, houve a recolha de numerosos testemunhos oculares, contraditórios entre si, sobre o homem que uma das empregadas da cafetaria dizia ter visto disparar uma pistola – velho, de meia-idade, jovem, muito alto, estatura mediana, louro, moreno… (…) Entre as outras descobertas, mais ou menos plausíveis, que foram surgindo, um magazine semanal, de cariz sensacionalista, colocou a hipótese de o crime ter sido um atentado perpetrado por uma máfia de Leste, pois Avelino publicara em Fevereiro um polémico texto no Jornal de São Paulo sobre as actividades das associações mafiosas europeias no Brasil e a permissividade da lei brasileira quanto ao seu funcionamento a coberto da inocente designação de «associações de apoio e ajuda aos imigrantes». (…) Às notícias curtas, mas fundamentadas, seguiram-se outras mais parcimoniosas, depois vieram notas lacónicas e a estas sucederam outras ainda mais pequenas, cada vez com menos linhas. Os diários e semanários mais credíveis cedo abandonaram o tema, pois havia assuntos de uma premente actualidade, nomeadamente, além da agitada vida política nacional, os que se referiam à crise económica à escala global, à subida dos preços dos combustíveis, à guerra no Iraque, à candidatura de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos… Os tablóides, no entanto, esticaram-no o mais que puderam. Aos poucos, a polícia foi deixando de emitir comunicados, dizendo o último que as «investigações continuavam com a intervenção das polícias brasileiras», relativamente às quais se salientava o «excelente clima de cooperação com as autoridades portuguesas». Tal como sucedera ao intelectual antifascista, jurista, professor, polemista e xadrezista careca, caindo lentamente sobre a alcatifa vermelha da cafetaria, o assunto foi também resvalando aos poucos para o esquecimento e, passadas algumas semanas, morreu definitivamente.

Como se nunca tivesse acontecido.

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