BREVE REFLEXÃO SOBRE HIROXIMA – por Carlos Loures e Manuel Simões

Em Agosto de 1945, a guerra mundial chegava ao fim, abrindo as portas a um novo terror. Os Estados Unidos lançaram a 6 e a 9 de Agosto sobre Hiroxima e Nagasáqui, respectivamente, as primeiras bombas nucleares a atingir alvos civis. Um dos maiores crimes que a História regista. Crime que só não é denunciado com a veemência que se justificava, porque quem o cometeu é quem decide o que é crime e o que não o é. E ficou decidido que lançar bombas nucleares, desde que seja os Estados Unidos ou qualquer dos seus aliados a fazê-lo, não é crime.

Em 1965, com um outro argonauta, o poeta, professor universitário e crítico literário, Manuel Simões, organizei uma antologia com «depoimentos de poetas portugueses sobre o flagelo atómico, no 20º aniversário da destruição de Hiroxima e Nagasáqui». Mais de trinta escritores contribuíram com os seus poemas para esta edição que foi publicada em 1967 – nomes como os de António Cabral, António Rebordão Navarro, Casimiro de Brito, Eduardo Guerra Carneiro, Egito Gonçalves, Fernando J.B. Martinho, João Rui de Sousa, Manuel Alegre, Maria Rosa Colaço, Papiniano Carlos… Transcrevo alguns excertos do prefácio (estávamos a 7 anos de Abril e o livro foi proibido, não só pelo seu prefácio, mas também pela agressividade da maioria dos poemas) CL:

«Agosto de 1945 é para o mundo, um fundamental marco miliário: é a partir dessa altura que é lícito falar-se dos Estados Unidos como da mais poderosa potência do Ocidente. A ambiciosa e florescente nação dos anos vinte, ressurge, já recomposta das cicatrizes que a crise económica de 1929 abrira. Poder edificado sobre os 130 000 cadáveres de Hiroxima e de Nagasáqui, consolidado com o sangue e com as lágrimas de tantas vítimas.

«Em nome da Liberdade, os E.U.A. deram o seu contributo para a destruição do nazi-fascismo, mas hoje, após a guerra da Coreia, após a invasão da Guatemala, após o desembarque na Baía dos Porcos, após a intervenção no Congo, em plena guerra do Vietname e em flagrante e escandalosa ingerência na política interna da República Dominicana, é oportuno perguntar até que ponto a «democracia» ianque se identifica com os fantasmas que ajudou a derrubar.» (…) «Os 130 000 mortos de Hiroxima e de Nagasáqui, são diariamente agitados ante os nossos olhos como um negro estandarte. A América serve-se dessa terrível recordação que inseriu a fogo na memória deste século, para amedrontar o mundo.»(…)«No Verão de 45, o Japão estava virtualmente derrotado – esgotara as suas fontes de energia humana e económica. Mas, nos Estados Unidos, temiam-se as consequências de uma batalha final em que o império nipónico empregasse desesperadamente as suas últimas forças.» (…) «É preferível que morram 100 000 japoneses a que morra um só Americano, eis uma explicação oficial citada num livro de J. Robert Oppenheimer.» (…)«Hiroxima, se é um terrível símbolo de morte, se é o aval do cheque com que os americanos exercem a sua chantagem atómica, é, para os homens verdadeiramente livres, e referimo-nos àqueles que o são em pensamento, ainda que os seus pulsos levem algemas, um símbolo de Paz.» (…)«Símbolo de Paz, porque nos ensinou, entre outras coisas, que Hiroxima pode, amanhã ou ainda hoje, acontecer em Londres, em Lisboa, em Moscovo ou (quem sabe?) em Nova Iorque.»

Mais de 40 anos depois, estas palavras continuam actuais Com pequenas alterações de circunstância e pormenor, voltaria a subscrevê-las. O que aconteceu de 1967 a esta parte não as desmentiu, antes as confirmou. Inclusive na medida em que o reflexo da prepotência norte-americana, apoiada pelos seus aliados da NATO, sob a forma do fundamentalismo islamista, atingiu Londres, Nova Iorque e Madrid. Porém, perdura, nos dias de hoje, 64 anos depois, a memória de Hiroxima?

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