SOBRE A BOMBA DE NEUTRÕES FABRICADA EM BRUXELAS E ALGURES E JÁ PRONTA PARA DISPARAR SOBRE TODA A ZONA EURO – III

Por Júlio Marques Mota

(continuação)

Uma coisa se considera quase como certa, ou seja, talvez se o Banco Central Europeu assumisse o verdadeiro papel de um Banco Central, com tudo o que implica, como por exemplo, garantir todos os depósitos dos bancos sob a sua alçada, se houvesse verdadeira regulação nos mercados financeiros em vez deste vergonhoso conluio como se ilustra agora com o caso Libro conhecido desde 2008 (!) , se houve eliminação da especulação a descoberto, se fossem proibidos os CDS a descoberto ou nus emitidos  sobre títulos soberanos ou privados,   talvez só isso bastasse para acabar com a pressão dos mercados em vez de se estar a seguir a política de punição expressa por Jens Eidmann e aplicada pelas Troikas ou exigida pela Comissão Europeia, mas que conforme se mostrou com ela, poderemos todos vir a ser punidos, inclusive a Alemanha, encerrados todos os Estados membros numa espiral de políticas de austeridade  e de deflação da dívida pública até  à ruptura final .

Dito de uma forma metafórica, os países membros, os seus povos, estão prisioneiros de um sistema implacável, da mesma forma que se está prisioneiro no Hotel Califórnia, prisioneiros desta casa Europa de onde nestas condições ninguém pode sair. Os Eagles tinham razão quando cantavam:

“Last thing I remember, I was

Running for the door

I had to find the passage back

To the place I was before

‘Relax,’ said the night man,

We are programmed to receive.

You can checkout any time you like,

but you can never leave! ”

Julgamos que os mercados de capitais estão a começar a mudar de agulha, a quererem que a Alemanha, e na minha simples opinião pelas razões apontadas, venham a deixar a zona euro. Depois da peça Texto para uma  bênção a esta  Europa já às portas da morte, publicada em A Viagem dos Argonautas e depois de termos acesso aos trabalhos de Yiagos Alexopoulos e da sua equipa do Credit Suisse , a quem agradecemos a respectiva disponibilização, vejamos mais a frio  e de modo mais técnico a problemática que naquela peça se levantou e que aqui de modo mais técnico se desenvolve.  Se houver uma ruptura total, a break-up da zona euro, curiosamente as políticas de austeridade e de submissão aos mercados, com as maciças fugas de capitais havidas para a Suíça e sobretudo para a Alemanha,  para estes dois  países que lhes servem de porto de abrigo a esta enorme massa de capitais,  garantidas essa saídas depois, pelos sistemas financeiros dos países que lhes servem de porto de abrigo, tudo isto em conjunto  poderá na verdade levar à triste situação, para já apenas virtual,  de que todos os Estados membros ficarão mal, e talvez nenhum país  em melhor situação que os outros Estados-membros, atolados todos eles, todos os Estados membros até mesmo a Alemanha,   numa montanha de dívidas, a exigir depois a bonfire como o lembrou outrora Keynes. Dizemos todos eles, pois a Alemanha se acumula créditos sobre créditos sobre o Banco Central Europeu, e se este, na contrapartida destes créditos acumula débitos sobre débitos face ao Bundesbank e simetricamente acumula créditos sobre créditos sobre os bancos centrais  nacionais dos países periféricos, não é menos verdade que o sistema financeiro alemão, nesta espiral de débitos e de  créditos, começa por ele a assumir responsabilidades sobre responsabilidades para com todos os que nesse país procuram porto de abrigo, depositando aí as suas poupanças, para todos os que para aí movimentam os seus capitais à procura de porto de abrigo ou de base de especulação. Se o Estado alemão acumula créditos sobre créditos, o sistema financeiro privado acumula responsabilidades sobre responsabilidades para com os não residentes. É por esta razão que todos os países poderão ficar atolados numa montanha brutal de responsabilidades se o euro-sistema entrar em ruptura total. Como se isso não chegasse e como se mostra na peça todo este clima cria uma União Europeia caracterizada pela sua desunião, pelas suas múltiplas diferenciações, diferenciações estas que vão até à existência de bem diferentes taxas de refinanciamento das empresas não financeiras, taxas mais altas ou mais baixas consoante pertencem aos países ditos periféricos ou aos países do núcleo considerado central. Por outras palavras criaram-se todos os mecanismos que estão a atrofiar os países que mais precisam de se expandir nem que fosse para pagarem e estão assim a matar aqueles a quem exigem que rapidamente paguem. O último exemplo desta corrida para a hecatombe final, para o fim desta cavalgada wagneriana, é-nos dado agora por Portugal,  um país que está  a morrer por falta de meios para se reconstruir para o futuro e com um presente fortemente abalado por um governo que  quer  correr mais rápido que a Troika nessa ida para o abismo económico e social para onde nos estão a levar, ou mais recente ainda,  dado igualmente   por Espanha, o último país atacado pelos mercados, nesta cavalgada wagneriana feita à escala europeia imposta pelos Organismos Regionais e Internacionais, onde as derrotas se seguem umas a seguir às outras. Em Espanha, os planos de austeridade, a expressar a sucessão das derrotas a que se alude com Thomas Mann, têm-se sucedido, uns a seguir aos outros numa sequência que no quadro deste modelo parece não ter fim a não ser quando já não houver zona euro: aos 15 mil milhões de economias do tempo de Zapatero, aos 27 mil milhões anunciados por Rajoy há alguns meses, sucede-se a economia de 18 mil milhões das regiões espanholas, e agora a posição governamental de que tem de se poupar 65 mil milhões em dois anos. Um verdadeiro assalto ao país é o que dizem os espanhóis. Com tanta austeridade é já o ataque às despesas públicas consideradas essenciais para tornar mais moderno e mais eficaz o aparelho produtivo espanhol, de onde hão-de sair os meios de pagamento tão necessários para o equilíbrio financeiro do país, é já o crescimento potencial que  está a ser atacado, aquele com que se haveria de gerar a riqueza para pagar as dívidas até agora contraídas. Neste contexto são as despesas em I&D que caiem 34%, as despesas em educação que caiem 26% e os investimentos públicos que caiem 48%. Alguém face a estes números ironizava: “se não se tem estradas adequadas para fazer transitar as mercadorias, não se tem então necessidade de as produzir no país”. Com estas medidas semelhantes de resto às seguidas por Passos Coelho é o futuro dos países que sob a égide das elites estará a ser sacrificado, que esta a ser assassinado e talvez se deva aqui, de novo, relembrar os Eagles e a sua canção  Hotel Califórnia quando cantam:

“We are all just prisoners here,

of our own device’

And in the master’s chambers,

They gathered for the feast

The stab it with their steely knives,

But they just can’t kill the beast”

Seja-se sério. É esta Europa que está a ser esfaqueada pela costas com um conjunto de  políticas que nenhum dos seus promotores é capaz de cientificamente justificar mas estamos certos que  mais cedo ou mais tarde os muitos milhões de atingidos por tudo o que se está a fazer, os milhões de desempregados,  os muitos milhões em situação de precariedade parcial ou total, os que não estando em   nenhum destes dois grupos, não venderam a consciência  ao Diabo, todos eles em conjunto  hão-de ser pela força que a razão lhes confere  capazes de acabar com a mistificação e com o crime hediondo que contra a Europa estão a querer praticar, serão pois capazes de acabar com as políticas  que contra eles e como verdadeiras armas de destruição maciça estão a ser disparadas.  Aqui talvez a lembrar Hegel, com a certeza de que a Europa irá ganhar uma consciência política que o sofrimento brutal a que está sujeita lhe vai conferir. A lembrar também Marx, a lembrar que as actuais elites estão a criar a corda com a qual serão a seguir estranguladas e a “besta” pelas elites assim considerada, o povo europeu, essa, esse, vencedor seguramente sairá

É este estrangulamento, país a país, a nossa cavalgada wagneriana, que fará no limite, com que a Alemanha não fique melhor, porque os mecanismos de transposição de activos e de responsabilidades aumentarão na Alemanha quando ao mesmo tempo este país poderá entrar em derrapagem recessiva pela via das exportações com a profunda recessão a instalar-se e por muitos anos em toda a Europa e esta é o seu principal cliente em termos de exportações. A hipótese alternativa para a Alemanha de ficar dependente das exportações chinesas é bem mais perigosa no contexto da actual globalização e não será mais do que estar a fortalecer a corda com que depois será enforcada.  É pois necessário encontrar urgentemente uma saída colectiva e o caminho seguido já se provou que é o caminho errado.

Com o presente trabalho pretendemos retomar fundamentalmente e numa maior base estatística a viabilidade política da hipótese que acabamos de explicitar assim como toda a lógica inerente à peça anterior que à presente serviu de suporte e que tinha como título Texto para uma bênção a esta Europa já às portas da morte que na base dos diversos textos da equipa do Credit Suisse efectuámospois esta a peça que agora apresentamos.

Leave a Reply