JORGE AMADO E A ETERNA POLÉMICA DA FORMA E DO CONTEÚDO – por Carlos Loures

Da esquerda para a direita: Rogério de Freitas, Álvaro Salema, indivíduo não identificado, Ferreira de Castro, Jorge Amado, Fernando Namora e Francisco Lyon de Castro.

                      

Há escritores sem os quais a literatura da língua em que escreveram não seria a mesma – na literatura contemporânea de língua portuguesa, os casos de Eça de Queirós e de Fernando Pessoa, são exemplares nesse sentido. Mas há mais casos – um deles é o de Jorge Amado, cuja obra é um elo fundamental na cadeia evolucionária da literatura – sem a obra de Jorge Amado, atrevo-me a afirmá-lo, o panorama da literatura ficcional no nosso idioma, no Brasil, em Portugal, em Angola, em Moçambique ou Cabo Verde, não seria como é.

Quando em 1943 o editor António Augusto de Souza Pinto de Livros do Brasil lançou Jubiabá, que julgo ser e primeira edição portuguesa de Jorge Amado, o grande escritor baiano já não era um desconhecido em Portugal. As edições brasileiras circulavam, conquistando numerosos adeptos entre os intelectuais portugueses.  Alexandre Pinheiro Torres confessou-se devoto dos livros de Jorge Amado desde os anos 40 e terminava o seu ensaio «Jorge Amado visto do meridiano português» de forma entusiástica: «Com grandiosidade e coragem nos deu Jorge Amado esse «tempo brasileiro», em parte nosso, em parte de toda a humanidade. E sabê-lo fazer nosso, sabê-lo fazer de toda a humanidade, foi o sinal inequívoco e incontroverso do seu génio romanesco».

Joaquim Namorado considerava-o a principal referência de uma nova descoberta do Brasil, expressão que António Ramos de Almeida iria  adoptar. Manuel da Fonseca revela a influência que a leitura de Jubiabá teve na sua obra. Álvaro Salema, o autor de Jorge Amado – O Homem e a Obra, Presença em Portugal, não lhe poupa os elogios.  Álvaro Cunhal saudou em Jorge a efabulação construída a partir de pressupostos sociológicos – uma polémica entre os neo-realistas e os presencistas foi ateada. Cunhal enfrentou José Régio, em cuja opinião duas realidades diferentes – a portuguesa e a brasileira – não podiam ter uma abordagem literária similar. No plano literário Régio teria alguma razão, mas Cunhal firmava a sua argumentação numa perspectiva sociológica e política; nesse terreno, eram os pruridos esteticistas de Régio que não se justificavam. Um diálogo de surdos…

No pós-guerra, a discussão da prevalência do conteúdo sobre a forma (ou vice-versa) está na moda. Sobre Ferreira de Castro colocara-se já a mesma questão. Com cruel mordacidade, Almada Negreiros, ao ser publicada a magnífica tradução francesa de A Selva, feita por Blaise Cendrars, sugerira que um bom tradutor de francês vertesse a tradução de Cendrars para português… Aliás, houve uma grande identificação entre os dois escritores. Após década e meia de correspondência trocada, Castro e  Amado encontraram-se em Paris: «Eu o conheci pessoalmente em 1948, em Paris: Forêt Vierge, a admirável tradução francesa de A Selva, realizada por Blaise Cendrars, era best-seller nas livrarias de Paris, recebia os maiores elogios da crítica. Sucesso que se repetiu alguns anos depois, com a tradução de A Lã e a Neve (Les Brebis du Seigneur). Antes de conhecê-lo pessoalmente, porém, eu já era seu devedor de provas de amizade e de confiança. Quando publiquei Cacau, em 1932, Ferreira de Castro, já consagrado, veio a público, na imprensa portuguesa, dar-me o seu estímulo, num artigo que foi de fundamental importância para o jovem aprendiz de escritor: senti-me consagrado aos vinte anos de idade. Jamais seu incentivo me faltou no curso de meu trabalho de romancista».

Em Navegação de Cabotagem, quando evoca a sua ida a Angola a convite de Agostinho Neto, em 1979, diz que ao percorrer as ruas de Luanda ou de Lisboa não se sente no estrangeiro – «Luanda, uma das faces da Bahia, a outra é Lisboa». Jorge Amado tinha com Portugal uma relação especial. Amigos, muitos – Ferreira de Castro, Álvaro Salema, o Chico, (Francisco Lyon de Castro, o editor que mais obras suas publicou, dono de Publicações Europa-América) Beatriz Costa, Fernando Namora, Mário Soares, Ramalho Eanes, Mimi, a dona do modesto restaurante do Parque Mayer, que Jorge preferia a estabelecimentos de luxo.

Em Portugal, quem ama a literatura, sente-o como nosso – os seus livros da juventude, apesar de alguma rudeza formal, fazem parte do passado de luta de muitos de nós e os seus romances da maturidade ajudaram-nos a encarar a vida com a bonomia do senhor Nacib. Sem Jorge Amado, as literaturas de língua portuguesa teriam perdido um mestre precioso. Não seriam como são.

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