BAHIA – por Daniel de Oliveira*

*(Jorge Amado – sob pseudônimo – escreve para a edição de 1961 do Anuário da Literatura Brasileira uma análise das atividades literárias de 1960, na Bahia)

 1960foi, sobretudo, na vida cultural baiana o ano da confraternização dos escritores aqui nascidos, com a realização do I Festival de Literatura. Mas, se levarmos em conta os livros publicados por escritores baianos, o aparecimento de jovens estreantes, o movimento teatral, as atividades do Museu de Arte Moderna, as das Universidade, os lançamentos realizados em livrarias e na Feira do Livro, devemos constatar ter sido 1960 um ano altamente proveitoso para a literatura deste Estado.

 I Festival de Literatura e Arte da Bahia

Realizado a 17 de dezembro, no fim do ano, merece, no entanto, o I

Festival, em cujo êxito tanto se empenharam o governo do Estado, a Universidade, o Museu de Arte Moderna, e alguns escritores, ser citado em primeiro lugar, devido ao seu significado. Nos jardins do Teatro Castro Alves reuniram-se os escritores residentes na Bahia e os escritores baianos famosos no sul do país, para juntos autografarem seus livros em benefício da campanha do menor abandonado. Vieram os escritores baianos do Rio e de São Paulo e entre eles havia quem não voltasse à Baia há trinta anos. Foi um encontro cordial e comovente. Todos os grandes nomes da nossa literatura ali se encontravam, ao lado dos escritores jovens, e o público que compareceu em massa comprou livros de uns e de outros, num total de mais de mil volumes e de mais de quatrocentos mil cruzeiros. Foram recordistas de vendas: Vasconcelos Maia, cujo livro de crônicas foi lançado no Festival, Jorge Amado, com apenas três dos seus livros, estando os demais esgotados, e o governador Juraci Magalhães, com seu volume Minha Vida Política na Bahia.

Ficção

 A ficção baiana voltou a brilhar em 1960. O romance de Rui Santos, Teixeira Moleque (José Olympio), foi lançado em todo o país, grande sucesso de crítica e de vendas. O autor de Água Barrenta reafirmou em seu novo livro suas qualidades de romancista. Emo Duarte estreou em Porto de Esperança (Andes), romance da área do cacau, ampliando ainda a importância que está adquirindo aquela região na literatura nacional. Foi reeditado o Chamado do Mar (Martins), de James Amado, além das sucessivas reedições dos romances de Jorge Amado.

 No conto a safra foi maior. Depois de muitos anos de silêncio, voltou às livrarias o contista Dias da Costa com Mirante dos Aflitos (Difusão Européia do Livro, Coleção Novela Brasileira, ilustrações de Glauco Rodrigues), saudado com entusiasmo por Sérgio Milliet, Mário da Silva Brito, Eneida, Leonardo Arroyo e muitos outros. Jorge Medauar publicou A Procissão e os Porcos (Francisco Alves), obtendo o Prêmio Anacleto Alves e muito sucesso. Ariovaldo Matos com A Dura Lei dos Homens (Livraria São José) chamou a atenção da crítica que se pronunciou elogiosamente sobre seu livro. O historiador Luís Henrique revelou-se como contista: A Noite do Homem (Tule), livro de fortes qualidades, cinco histórias apenas porém densas e belas. Um estreante de real interesse: A. Mendes Neto com As Noites Falam Depois (Progresso). 

Poesia

A poesia inaugurou o ano de 1960 com os livros de Jair Gramacho, Sonetos de Edênia e de Bizâncio (Tule), estréia de grande qualidadel, e de Wilson Rocha, Livro de Canções (Tule), onde o fino poeta, tão estimado, reuniu suas belas canções. E encerramos a temporada com a estréia de uma poetisa de indiscutível vocação: Mara Guimarães, cujo livro Flor a Mim Num Barco ao Vento (Imprensa Oficial) foi lançado no Festival. E, ao mesmo tempo, a Editora Progresso lançou um livro de poemas de Moniz Bandeira, jovem poeta já largamento conhecido. Ainda em relação à poesia baiana é necessário lembrar a edição completa de Castro Alves, magnífica realização da Editora Aguilar. 

Ensaio e Crônica

 Vale de imediato uma referência ao lúcido ensaio de Eugênio Gomes sobre Castro Alves, introdução à edição Aguilar. Estudo definitivo. Pinto de Aguiar publicou A Abertura dos Portos do Brasil e Bancos no Brasil Colonial (Progresso), dois estudos importantes. Foi reeditado o Médio São Francisco (Progresso), livro hoje clássico de Wilson Lins sobre a região são-franciscana. Foi reeditado (São José) o livro de Afrânio Coutinho sobre Machado de Assis. A Civilização Brasileira publicou um volume sobre a obra de Anísio Teixeira. A Martins reeditou o Rui, de João Mangabeira e a Editora Nacional o Rui de Luís Viana Filho. Édison Carneiro nos deu o seu excelente A Revolução Praeira (Conquista. Na crônica tivemos Vasconcelos Maia com O Primeiro Milagre (Tule).

O Prêmio Anacleto Alves e outros Prêmios

 O Prêmio Anacleto Alves, comemorativo do cinquentenário da cidade de Itabuna, criado por Moisés Alves, figura singular da vida baiana por seu devotamento à cultura, foi atribuido a Jorge Medauar, com A Procissão e os Porcos, tendo obtido menções honrosa Caxixe, de Otacílio Lopes e Uma Cidade Chamada Itabuna, de Armando Pacheco. A entrega do Prêmio deu-se numa sessão solene no Instituto Histórico, presidida pelo Governador Juraci Magalhães, tendo falado Adonias Filho, Jorge Medauar e Jorge Amado. A Comissão Julgadora foi composta por Jorge Amado, Adonias Filho, James Amado, Sosígenes Costa e Eduardo Portela. Uma caravana de escritores do sul esteve presente.

Dois escritores baianos obtiveram prêmios do Instituto Nacional do Livro,

 com volumes publicados em 1959: Luís Viana Filho, com seu admirável Rio Branco (José Olímpio) o prêmio de ensaio; e o romancista Santos Moraes com Menino João (São José) dividiu com Lúcio Cardoso o prêmio de romance.

 Sosígenes Costa, o grande poeta da Bahia, obteve com sua Obra Poética (Leitura) os prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e Paula Brito, do Governo do Estado da Gunabara.

Lançamentos

 Alguns dos lançamentos de maior sucesso, realizados na Livraria Civilização: Rui Santos com Teixeira Moleque, obtendo um recorde de venda;  Dias da Costa com Mirante dos Aflitos; e Jorge Medauar com A Procissão e os Porcos, numa festa brilhantíssima; Vasconcelos Maia, com o Primeiro Milagre e Luís Henrique com A Noite do Homem. No Rio, na São José, Wilson Lins e Pinto de Aguiar arrastaram grande público ao lançamento de seus livros. Durante a Feira do Livro, no Largo da Sé, houve, com sucesso, uma noite coletiva de autógrafos reunindo mais de vinte escritores residentes na Bahia.

Brecht e a Escola de Teatro

 A Escola de Teatro, sob a direção de Martim Gonçalves, encenou, num espetáculo magnífico, a “Ópera de Três Vintens“, de Brecht. Toda a crítica nacional ocupou-se dessa realização digna de qualquer capital do mundo. Ao lado do trabalho realizado pela Escola de Teatro, deve-se destacar, no setor das artes, as realizações do Museu de Arte Moderna, sob a direção de Lina Bardi. E o início de um cinema baiano, com a filmagem, por Glauber Rocha de “Barravento”, filme que em breve será exibido.

Eis aí em largos e rápidos traços o que foi o ano de 1960 em relação à literatura na Bahia. Vale ainda acrescentar que dois escritores baianos, Vivaldo Costa Lima e Pedro Moacir Maia, foram enviados pela Universidade da Bahia à África, como professores de língua e literatura brasileiras.

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