JORGE AMADO E SEU PRIMEIRO EDITOR – por Waldir Ribeiro do Val

Ao ingressar na Faculdade de Direito, no Rio de Janeiro, aos 19 anos, Jorge Amado encontrou como colegas um grupo de jovens escritores que já apareciam nas letras e na política estudantil.  Entre eles estavam Otávio de Faria, Gilson Amado( seu primo), Santiago Dantas, Américo Lacombe, Almir de Andrade, Hélio Viana, Eddy Dias da Cruz (o futuro contista e romancista Marques Rebelo),  um jovem comunista, Maurício de Lacerda, e outros.  Afeiçoou-se inicialmente a Otávio de Faria, a quem deu a ler o romance que acabara de escrever, O país do carnaval. Nesse mesmo ano de 1930, um jovem de 24 anos, poeta pobre e esforçado, chamado Augusto Frederico Schmidt, iniciava sua editora.  E foi a ele que  Otávio de Faria (de quem Schmidt já havia há pouco publicado um livro) apresentou o jovem autor baiano e os originais de seu livro, O País do Carnaval. Os originais ficaram três meses na gaveta do editor, que respondia ao ansioso autor, quando este lhe indagava sobre o livro: “Estou lendo, já cheguei à página 78.”  Dias depois, novamente apertado pelo autor, afirmava: “Acabo de começar a leitura, estou na página 27.” Faltava dinheiro, era preciso receber das livrarias o que fora vendido, para lançar-se a novas edições. Enfim, o livro foi publicado nesse mesmo 1931,marco inicial da editora de Schmidt. A edição era simples, a capa não tinha qualquer ilustração, trazia somente em vermelho: JORGE AMADO / O PAIZ /DO/ CARNAVAL – e mais abaixo: SCHMIDT.

Como lembrou Raimundo Magalhães Júnior no discurso de recepção a Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras, em 1961, foi grande a surpresa dos críticos com a publicação  do romance. O primeiro artigo foi de Otávio de Faria, estampado no jornal  A Razão, de São Paulo, seguindo-se artigos elogiosos de Tristão de Athayde ( Alceu Amoroso Lima) e de Medeiros e Albuquerque.

O nome de Jorge Amado era quase totalmente desconhecido, exceto em Salvador, Bahia, onde seu nome já circulara como participante da Academia dos Rebeldes, que reunia alguns jovens escritores iniciantes.  Ele mesmo, de parceria com os conterrâneos Édison Carneiro e Dias da Costa, publicara em forma de folhetim, em um jornal da Bahia, um breve romance, logo depois transformado num volumezinho publicado no Rio de Janeiro com o título Lenita. Medeiros e Albuquerque iria dizer dele que era uma pura abominação.

Mas O País do Carnaval foi efetivamente o primeiro livro de Jorge Amado. Trazia um prefácio em forma de carta ao autor, assinada  pelo editor. Dizia Schmidt, também escritor iniciante:

“Seu livro deve ser visto de uma maneira diversa da que se olham as obras de ficção. É antes de tudo um forte documento do que somos hoje, nós mocidade brasileira, mocidade sem solução, fechada em si mesma, perdida numa terra que nos dá a todo o momento a impressão de que sobramos,  de que somos demais.

Seu livro acordou em mim velhas revoltas já sufocadas e recalcadas  contra a vida e a terra em que vivemos. Paulo Rigger, seu personagem, não é um cerebral, não é um filho do Ocidente saturado e exasperado de cultura, é apenas um pobre moço brasileiro como eu, como você, como todos nós.”

                É longo o prefácio, quatro páginas em tipo miúdo. Em certo trecho avalia  os defeitos e as qualidades do livro.  “Em geral todos os romances brasileiros são cenários por vezes belos e verdadeiros mas são sempre cenários. E será exatamente deficiência de cenário o que verificamos n’O País do Carnaval. Qualidade e defeito do seu livro. Qualidade que eu amo.”

                Mas quem era esse jovem editor, de sobrenome estrangeiro,  que se arvorava em crítico?

                Descendente de judeus pelo ramo paterno, e de baianos pelo materno, nasceu no Rio de Janeiro em 1906. Criança ainda,foi com a família para a Suíça, onde sua mãe se internou num sanatório. Augusto e suas irmãs frequentaram um colégio em Montreux, onde aprenderam o francês, língua que seria útil ao futuro poeta. Morto seu pai quando da estada na Europa, a família regressa em meio a dificuldades, no início da Primeira Grande Guerra.  E sem o chefe da família, passam a viver com simplicidade e mesmo na pobreza. O menino Augusto F. Schmidt passa de colégio em colégio sem aprender muita coisa, pois detestava os currículos. Interessava-se somente pelas aulas de Português, e lia livros e mais livros. Ainda adolescente, passou a trabalhar em casas comerciais. Mais tarde, empregou-se como vendedor pracista, em São Paulo e no Paraná. Em São Paulo, conheceu Mário de Andrade e o romancista Plínio Salgado, muito antes de o autor de O Estrangeiro lançar-se na política criando o movimento denominado Integralismo. Schmidt foi depois uma espécie de gerente de uma serraria que fabricava caixas de madeira para exportar laranjas, em Nova Iguaçu, próximo do Rio de Janeiro.  Foi então que se comunicou com o grande crítico de então, Alceu Amoroso Lima, que o foi visitar na serraria. Publicou então seu primeiro livro, Canto do brasileiro Augusto Frederico Schmidt. Por intermédio de Alceu, foi trabalhar como gerente da Livraria Católica, do escritor Jackson de Figueiredo, no Rio de Janeiro. Quando este faleceu, tragado pelas ondas numa pescaria, Schmidt, com dinheiro emprestado por novos amigos e por Alceu, comprou a livraria, e pouco depois criou sua editora e livraria com seu nome.

Sua editora, inicialmente indicada como Schmidt, logo depois chamou-se  Schmidt-editor, e conheceu desde o início êxito surpreendente.  Em 1931, ano em que principiou suas atividades, foram publicados vários livros de sucesso.

De seu amigo desde a adolescência, Eddy Dias da Cruz, com o pseudônimo que sempre adotou, Marques Rebelo, saiu com êxito o livro de contos Oscarina, logo saudado por Agripino Grieco, crítico irônico e mordaz, implacável com as mediocridades, que elogiou o livro e finalizou dizendo:  “Mas indiscutível é que, com este despretensioso volume de 193 páginas, ele, o estreante de vinte e poucos anos, tomou lugar entre os bons “contadores” de sua geração e não haverá injúria para ninguém se, dora em diante, lhe lembrarmos o nome sempre que trouxermos à baila os nomes de Ribeiro Couto, Afonso Schmidt e Alcântara Machado.”

Em seguida foi publicado Maquiavel e o Brasil , de Octávio de Faria, que procurou defender Maquiavel  da acusação de ser “maquiavélico”.

O romance de Jorge Amado teria sido o terceiro dos livros de Schmidt-editor. Nesse mesmo 1931, mais para o final do ano, saiu, como o maior sucesso de vendas da editora até então, o romance A mulher que fugiu de Sodoma, de José Geraldo Vieira.

 O país do Carnaval, de Jorge Amado, foi resenhado por Marques Rebelo no Boletim de Ariel,  nº 4, em janeiro de 1932, em página inteira de três colunas. Terminava assim: “Inquieto, sofrendo pelo mal dos seus personagens, Jorge Amado, no melhor romance do ano, é um grito de alarma aos que, fugindo da vida, por medo ou por duvida, se inutilizam sem remédio.” Mas o primeiro artigo sobre o romance de Jorge Amado foi o de seu padrinho literário, Otávio de Faria, publicado em A Razão, de Plínio Salgado. Ao lado de algumas restrições, afirmava ser “O País do Carnaval um romance de carne e de sangue, grande romance de verdade e de sentimento, que anda escandalizando os gramáticos e apavorando os defensores do pudor público.” E dizia a seguir: “De fato, não pode haver dúvida, O País do Carnaval é um grande romance.”

Esse ano de 1931 foi talvez o melhor período para Schmidt –editor, pelo número de livros publicados:  de Carlos Dante de Morais, Viagens interiores (ensaio);  de Cândido Mota Filho, Alberto Torres e o tema da nossa geração (prefácio de Plínio Salgado); Vivos e mortos, de Agripino Grieco; O inconfidente Cláudio Manuel da Costa, de Caio de Melo Franco; Outubro 1930, de Virgílio de Melo Franco (prefácio de Oswaldo Aranha), sobre a revolução de 1930, com grande tiragem; Ensaios pedagógicos, de Alceu Amoroso Lima; Poemas de Ouro Preto, de Godofredo Filho; Preparação à sociologia, de Tristão de Athayde, 2ª edição; Problema da burguesia, de Tristão de Athayde; Questões médico-legais, de Leonídio Ribeiro;  e do próprio Augusto Frederico Schmidt, o único de seus livros na sua editora: Desaparição da amada.

Durante muitos anos, até morrer em 1965, Augusto Frederico Schmidt progrediu na vida, foi sócio e presidente de varias companhias, publicou muitos livros de poesia e alguns de prosa, foi embaixador honorário e figura controversa no cenário político brasileiro.

Memorialista, em seus artigos no Correio da Manhã e mais tarde em O Globo, relembrava os tempos de menino, de jovem pobre trabalhando no comércio, suas tristezas e alegrias nos colégios. Nunca se referiu, porém, a sua vida de editor. Ou melhor, ao mencionar certa vez a Travessa do Ouvidor, no Rio de Janeiro, escreveu apenas: “Ali ficava a Schmidt-editor, de amarga memória para mim.”

 Era então, como sempre foi, um desorganizado, um tanto descuidado e distraído com seus compromissos de editor. As dificuldades nessa atividade fizeram-no quase esquecer sua fase de editor, só exaltada depois de sua morte.

Jorge Amado nunca esqueceria de mencionar com ternura o nome de seu primeiro editor. Em página que recordou a publicação de seu primeiro livro, concluiu com a seguinte declaração: “Sou devedor ao  editor Schmidt pela editoração, e ao poeta Augusto Frederico Schmidt pelo  prefácio. O editor e o poeta abriram-me as portas, possibilitaram minha travessia”.

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