EM COMBATE -147 – por José Brandão

1973 – O ano da viragem

O ano de 1973 começou com o assassínio de Amílcar Cabral, em 20 de Janeiro, facto que não provocou diminuição da actividade operacional do PAIGC contra as forças portuguesas.

Em Março, o aparecimento dos mísseis antiaéreos apanhou de surpresa os militares portugueses obrigando-os a estudar a nova ameaça e a forma de a minimizar. Durante algum tempo, as forças terrestres e de superfície não puderam contar com o apoio da Força Aérea, falha que teve consequências graves, nomeadamente nos aspectos psicológicos.

A perda da supremacia aérea na Guiné provocou alteração profunda. É neste contexto que deve ser entendido o agravamento da situação nas regiões de Guidage, no Norte, e de Guilege/Gadamael, no Sul.

Pela primeira vez, os militares portugueses sentiram o desconforto de saber que poderiam não ser evacuados do campo de batalha ou que não teriam a presença tranquilizadora de um Fiat ou de um helicanhão sobre as suas cabeças.

O PAIGC exercia pressão, agora no Leste, sobre a guarnição de Canquelifá, que resistia apoiada no batalhão de comandos africanos e dos pára-quedistas, já em Fevereiro de 1974.

 

O inferno

Desde o início do ano de 1973, que a situação militar portuguesa na Guiné vinha a sofrer acelerada degradação.

Esta possibilidade estava, aliás, prevista pelo Estado-Maior do Comando-Chefe daquele teatro, que, na análise de situação feita em Dezembro de 1972, enunciava a elevada probabilidade do seu agravamento para o ano seguinte, face ao clima cada vez mais favorável à internacionalização da luta conduzida pelo PAIGC. Esta análise da situação levava mesmo os militares portugueses no território a admitir intervenção de forças das organizações internacionais ou de outros países, em reforço ou apoio daquele movimento.

Em termos políticos, previa-se para 1973 a exploração da existência de vastas áreas libertadas, nas quais o PAIGC exercia, de facto, a administração e onde as forças portuguesas só actuavam com unidades de intervenção, por curtos espaços de tempo. Havia a ideia de que o PAIGC pretendia realizar, nesse ano, um golpe decisivo de âmbito internacional, o que já se tinha iniciado com a visita da delegação da ONU e que viria a ter continuidade com a declaração unilateral de independência. No campo militar, previa-se a intensificação das acções violentas a partir do Senegal e da Guiné-Conacri, de modo a conseguir ligar o Norte com o Sul através do eixo Guidaje, Bissorã, Bula e, de Sul para Norte, através do eixo Guileje, Buba, Fulacunda. Esta ameaça concretizou-se com uma fortíssima pressão a Norte e a Sul, em Guidaje e em Guileje, fortemente apoiada pela artilharia de longo alcance, da qual os seus artilheiros tiravam cada vez maior rendimento, aproveitando as grandes limitações das forças portuguesas no apoio aéreo que a introdução dos mísseis Strella causara.

A apreciação feita pelo comando militar português no final de 1972 era de grande pessimismo em todos os campos. Quanto a material, considerava-se que era verdadeiramente alarmante a situação das unidades do Exército quer no aspecto qualitativo, quer no quantitativo. Para obviar a esta fraqueza, as forças portuguesas recorriam ao material capturado, com a consequente incerteza de reabastecimento. Relativamente às forças navais, era referida a carência de meios para o cumprimento de algumas missões, o reduzido número de unidades equipadas com radar, a sua baixa velocidade e a falta de uniformização de equipamentos de comunicações, propondo-se a substituição das LFP por outras mais modernas. Pelo seu lado, a Força Aérea dispunha apenas de metade dos pilotos necessários, e algumas aeronaves operavam nos limites das suas possibilidades, sendo algumas delas desajustadas às missões, nomeadamente as DO-27 e os T-6.

Se a situação do material não era boa, a do pessoal não era melhor. Quanto à instrução, as unidades apresentavam-se com graves lacunas e insuficiências na preparação básica e de especialidade ministrada na Metrópole, não estavam completas nos seus efectivos e muitos quadros mostravam-se deficientemente habilitados para exercer qualquer função de comando.

Leave a Reply