SÓ UMA TESTEMUNHA – Magalhães dos Santos

Cada vez me convenço me convenço mais de que sou um dinossauro!

Melhor dizendo: de que me estou a transformar num dinossauro.

E o pior – ainda agora disse “o melhor”… como esta cabeça anda!… – é que sou um dinossauro solitário!… Sei lá onde há outros pra conviverem comigo, lembrarmos o planeta em que nascemos, já lá vão uns milhões de anos… Que não rebentou de uma vez, que se foi extinguindo sem darmos conta… Só agoira, comparando, é que dou conta de que este não é o planeta inicial.

Olho em volta e… com quem recordar “aqueles tempos”? O meu Pai, que saiu de cena com noventa e um anos e com uma memória de elefante, que se lembrava de tudo aquilo de que me lembro e de muito mais! O meu Irmão, que se foi embora com setenta e quatro, e que tinha um passado igual ao meu, os mesmos conhecidos que eu tinha, protagonista de quantos factos de que também participei ou que presenciei. Amigos, conterrâneos, contemporâneos, com quem cresci, que vi crescerem e me viram crescer (pouco, mas o suficiente para ser visto à distância de dois, três metros…).

Só um exemplo de como estou isolado, desanimadoramente solitário: Naquele tempo, há setenta, sessenta anos, todos aprendíamos Francês, cinco horas semanais.

O Francês é hoje uma língua opcional e poucos alunos optam por ela. O Espanhol, com muito mais saída comercial, é preferido! O Francês, que, na Rússia do século XIX, era língua materna dos meninos das classes média e superior, que aprendiam o Russo com os moços da cavalariça! Mesmo quem, entre nós, ia para Ciências, levava bom o razoável apetrechamento em Francês, que bem útil lhe era no Ensino Superior, porque nessa língua eram escritos muitos dos livros de estudo.

Mas… o que me levou a escrever toda esta desbragada choraminguice? E porquê aquele título, SÓ UMA TESTEMUNHA?

Por muito retorcida que pareça a causa, esta foi – mais uma vez! – a insatisfatória resposta que a INTERNET  dá a perguntas que lhe faço. Se uma pessoa não se precata… é cada barrete!

Se com o Francês as coisas estão como lacrimosamente comecei por dizer, imagine-se como elas estão no que respeita ao Latim!

Cada vez há menos gente que tenha tido e ainda tenha umas luzinhas dessa Língua, morta para muitos, cadavérica e pútrida para muitíssimos.

Por causa de trabalho em que quero falar de alma< anima,  fui perguntar a essa formidável fonte de conhecimentos a declinação dessa palavra latina.

E sai-me a muito duvidosa WIKIPÉDIA a dizer que o dativo e ablativo dessa palavra (e, com certeza, de todas as palavras da primeira declinação, em – a) “é” animis ou animabus.

Esta segunda alternativa assarapantou-me! Em cinco anos de Latim, nunca tal me tinha sido ensinado nem eu tal tinha aprendido!

Estando, no momento em que escrevo, fora de casa e não tendo à minha disposição os meios de consulta apropriados, que remédio tive eu senão recorrer novamente à INTERNET… com mais cautelas.

Porque me lembrei da máxima jurídica latina UNUS TESTIS, TESTIS NULLUS, só uma testemunha não testemunha. Princípio que não vigora em todos os países (é o caso do Brasil).

E, descrente da informação que me era fornecida e escaldado por outras com que já me deparara – e que eu, felizmente, tinha sabido detetar… equantas não terei sabido?… – fiz novas consultas.

E confirmei o que já há sessenta anos aprendera: que o dativo e o ablativo das palavras da primeira declinação latina (o exemplo mais “famoso” era o do rosa, rosae) era em –is: rosis, animis, agricolis.

E, Companheiros de Tripulação e Senhores Passageiros,   fi-los eu perder tempo para tentar enternecê-los com a minha dinossaurice?

Interpretem antes como uma tentativa de os prevenir contra a consulta de uma única fonte.

Confrontem! Confrontem!

Não acreditem que só há uma solução!

A famigerada austeridade não é –de modo nenhum! – a única solução!

                                                                                                                                             Magalhães dos Santos

                                                                                                                                              11 De agosto de 2012

1 Comment

  1. Quem comenta a Magalhães dos Santos, é quem yeve que aprender latim e grego para entender o que eu pesquisava para ser doutor, numa universidade britânica. Lá morei trinta anos com familia e todo, por força das ciscuntâncias da vida, foi precisso saber francês para falar com a minha mulher, ingluês para a nossa descedência que sabiam taim e grego das privadas escolas que, para ser todos iguais numa democracia monârquica, som denominadas Public School. seu texto não é um choramingar, é uma elegante forma de referir a crise económica que vivemos: inteligente, direto ao punto, disfarçado para não revelar a sua vida a quem não lhe corresponde. Apenas uma dica: a língua espanhola não existe, foi criada pelo ditador antes do rei que goberna o Estado….espanhol. É castelhano, apenas falado em Múrcia, La Mancha, Valladolid e Toledo. Sou filho de basco e Alicantina, há oito línguas entre nuestros hermanos. Os meus parabéns por tão brilhante texto, que me faz orgulhoso de sermos do mesmo blogue!

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