FERREIRA GULLAR, por Sílvio Castro

 Este texto saiu no Estrolabio em 10 de Julho de 2011

Numa significativa realidade literária nacional, como é aquela brasileira contemporânea, os nomes dignos de um grande Prêmio pela obra completa são muitos. Se esse Prêmio possui as dimensões internacionais, como acontece com o “Prêmio Camões”, destinado a um escritor de uma das nações componentes da grande Comunidade dos Países Lusófonos, o premiado vem reconhecido como um representante altamente representativo da criatividade artística contemporânea de seu país. Ferreira Gullar possui todas as dimensões que o “Prêmio Camões-2010” lhe reconhece e proclama. Poeta dedicado igualmente à crítica e ao ensaio, bem como autor de obras teatrais, ele demarca com clareza algumas características da modernidade brasileira. Autor que sabe criar a própria expressão a partir do valor essencial da linguagem, ainda que capaz de profunda participação com o mito poético, não o limita aos valores da pura subjetividade lírica. Nele se apresenta igualmente acentuada e assumida participação com a realidade, mais em particular com a realidade civil. Esta, nascida de uma forte integração com os problemas sociais e políticos de seu país, faz derivar naturalmente no poeta uma integração com os problemas próprios de outras realidades nacionais. Ferreira Gullar é naturalmente um poeta empenhado, um poeta político. Assim sendo, ele corresponde a uma já consagrada norma derivada da ação e teoria da história da Modernidade brasileira referente ao conceito de “poeta maior”, conceito nascido de um esclarecimento de um outro grande poeta brasileiro moderno, Manuel Bandeira, que se definia um “poeta menor”, pois, sempre segundo ele próprio, a sua poesia se confinava na dimensão lírica, nunca ousando atingir aquela do empenho social. Para esta, e portanto para a melhor definição do “poeta maior”, Bandeira os encontrava em criadores como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Certamente, foi a partir da magnífica conceituação de Manuel Bandeira que Sérgio Buarque de Hollanda, na sua Introdução ao volume de Gullar, Toda Poesia (1980), escrevia sobre o autor: “(… ….) Parece-me a mim, além disso, que, exceção feita de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em Rosa do Povo) é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje.“ Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, nasceu em São Luís do Maranhão aos 10 de setembro de 1930. Portanto, o Prêmio que agora lhe vem concedido pode ser integrado nas muitas comemorações e homenagens que o poeta brasileiro já recebe e receberá pelo seu próximo oitantésimo aniversário. Gullar publicou sua primeira coletânea de poemas, Um pouco acima do chão, em 1949, transferindo logo após para o Rio de Janeiro. De 1954 é A luta corporal, livro de poemas que desperta imediatamente grande interesse na crítica literária brasileira e que será um dos pontos de referências para a teoria do Movimento da poesia concreta, de 1956, principalmente derivada da ação de Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. Depois de um período de participação com o movimento concretista, a poesia de Gullar assume novos rumos, indo na direção de um maior empenhol social. Este período, começado em 1962, se acentua a partir de 1964, em oposição ativa contra o regime militar então instaurado no Brasil. Integrado no CPC da União Nacional dos Estudantes, de que era presidente quando do golpe militar, o poeta se integra na divulgação de uma poesia de contestação civil, em especial a partir dos Cadernos do Povo Brasileiro que acolhe os volumes do movimento dos Poemas para a liberdade, da série Violão de Rua. Perseguido político, se exília inicialmente no Chile de Allende e posteriormente na Argentina. No exílio argentino escreve, em 1975, o seu livro de maior repercussão, Poema sujo, publicado em 1976. Ferrera Gullar faz parte da “Geração de ‘56”, segundo os critérios que adoto para a história da literatura brasileira moderna e contemporãnea (em particular nas páginas da minha História da Literatura Brasileira, 3 vv., Lisboa, 1999-2000). A “Geração de -56”, dentro do quadro da moderna poesia brasileira, sucede àquela fundadora do Movimento modernista brasileiro, a de 1922 e à sua complementar, aquela dos poetas de 1930, bem como ao possível movimento revisionista da “Geração de -45“. Desta maneira, a Geração de ‘56 absorve os ideais de liberdade criadora própria dos movimento modernistas fundadores, assim como endossa muitas das revisões formais quanto à linguagem poética, propostas pelos poetas de 1945. Os poetas de ’56 procuram aliar os processos formais mais condizentes ao novo poema da liricidade moderna a uma mais forte politização da poesia. Gullar, nos seus poemas, interpreta bem todo esse complexo percurso. Nele existe uma natural e profunda preocupação para com a liguagem poética. O seu poema se realiza a partir naturalmente de um forte ânimo lírico, sempre porém em consonância com o espaço do real, como convincentemente vem traduzido no poema “Arte poética”: Não quero morrer não quero apodrecer no poema que o cadáver de minhas tardes não venha feder em tua manhã feliz e o lume que tua boca acenda acaso das palavras – ainda que nascido da morte – some-se aos outros fogos do dia aos barulhos da casa e da avenida no presente veloz Nada que se pareça a pássaro empalhado múmia de flor dentro do livro e o que da noite volte volte em chamas ou em chaga vertiginosamente como o jasmim que num lampejo só ilumina a cidade inteira Será justamente de uma tal posição de precisa consciência lírico-formal que Ferreira Gullar saberá dar voz a poemas de acentuado empenho sócio-político, como acontece em “Meu povo, meu poema”:

Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar 

No povo meu poema está  maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta

Leave a Reply