Como temos noticiado, o argonauta Dorindo Carvalho expõe na Galeria Perve uma significativa selecção de obras que ilustram o percurso de uma carreira de 50 anos. Sobre essa obra e a referida exposição antológica, o crítico de arte José Bulhão Gomez Martins escreveu o texto que, com a devida vénia, transcrevemos.
Está de parabéns Dorindo Carvalho pelos 50 anos, 1962-2012, de actividade artística e bem os merece pela qualidade e originalidade da sua obra e a dedicação às artes plásticas expressa em várias formas.
Efectivamente, olhando com atenção a pintura, e os outros géneros plásticos, produzida por Dorindo ao longo dos 50 anos, vemos que estamos perante um universo artístico complexo e variado.
Pegando na sua obra, poderiam fazer se várias exposições paralelas e pensaríamos talvez que cada uma era dum pintor diferente, algo assim como semelhante aos heterónimos de Fernando Pessoa na poesia. No entanto é sempre o mesmo Dorindo e todos os seus quadros, por mais diferentes que sejam, têm elementos em comum. Desde a vigorosa pintura da sua fase neo-realista (p.ex. os quadros do ciclo do café, um dos quais está no Instituto Internacional do Café em Londres) até aos quadros de temática venezuelana ou africana; aos dos corpos masculinos/femininos por vezes entrelaçados e confundidos dos anos 80-90 de tons arroxeados entre o azul e o vermelho; aos estilizados dos últimos 10 anos onde é a linha curva e perfeita que conta e define tudo (sempre perfis de corpos, mas também outros elementos que servem de cenários sobre fundos de determinada cor); aos das figuras borradas lembrando talvez Francis Bacon; até aos recentíssimos das homenagens aos mestres que mais o impressionaram e outras surpresas que terá; etc.
Tudo isto sem esquecer o retratista (de figuras contemporâneas, mas também me vem à memória o seu esplêndido retrato de Vasco da Gama, de 2009, exposto em Sines); o magnífico caricaturista ; o escultor; o ilustrador gráfico de livros e cartazes; o autor e ilustrador de livros infantis e para a juventude, tanto didácticos como de literatura, o fotógrafo, etc.
Outro dos aspectos que admiro em Dorindo Carvalho e define a sua concepção da arte é a capacidade para se renovar. Muitos e bons artistas plásticos, chegados a um certo ponto do seu percurso, param numa formula de sucesso e começaram a repeti-la, eu diria que até ao esgotamento. Quero dizer, como que repetem n vezes o mesmo quadro ou tema. É legitimo. Dorindo, porém, quando sente que já esgotou ou completou uma fase, estuda uma nova, experimenta-a e inicia-a. Algo no entanto passa sempre das fases anteriores para a nova fase, esse é o DNA do pintor, mas o que sai é algo renovado e fresco que surpreende. Essa é a força dum pintor que mantém a juventude e a dinâmica criativa e é sem duvida o Caso de Dorindo.
Uma obra portanto riquíssima e variada, mas una e coerente, a ver e apreciar nesta exposição dos 50 anos de actividade artística plástica de Dorindo de Carvalho na Galeria Perve, que merece também ser felicitada pela oportuna iniciativa desta exposição.
