POESIA AO AMANHECER (9) – por Manuel Simões

Egito Gonçalves – Portugal

(1922 – 2001)

“GUARDO PARA MIM A ALEGRIA”

Guardo para mim a alegria

do sol, guardo-a

atrás das pupilas, tranquilo,

banhado de esplendor. A alegria

é de aço, de estrelas do mar,

de silêncio que cega.

Tens razão. É da nuvem que falo,

do vento sul que a lança, do escombro

banhado pela chuva – o poema

organiza-se sob a tempestade,

o drama

requer os seus efeitos, as palavras

rebentam os diques, pedem

uma escrita, uma voz – quem poderá

articular razões nesse crepúsculo?

(1971)

Co-dirigiu a revista “Árvore” (1951-1953), dirigiu a revista “Serpente” e, entre 1957 e 1962, os cadernos de poesia “Notícias do Bloqueio”, título igualmente de um seu famoso poema. Grande animador da vida cultural portuguesa, co-dirigiu ainda, nos anos 90,  a revista “Limiar”. Da sua obra poética, eis alguns títulos: “Poema para os companheiros da ilha” (1950), “Os Arquivos do Silêncio” (1963), “O fósforo na palha” (1970), “Poemas Políticos” (1980), “Falo da vertigem” (1983), “E no entanto move-se” (1995).

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