POESIA AO AMANHECER (10) – por Manuel Simões

Eugénio de Andrade – Portugal

(1923 – 2005)

                                               AS PALAVRAS

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

(de “Coração do dia”)

Pseudónimo de José Fontinhas. A partir de 1950 viveu sempre no Porto. Na sua poesia, mais do que a respiração do nosso modernismo, reconhece-se uma certa continuidade da geração espanhola de 27 (Lorca e Vicente Aleixandre, por exemplo). Poesia de grande luminosidade, com um fio erótico a percorrer o corpo textual. Alguns exemplos da sua imensa obra: “As mãos e os frutos” (1948), “As palavras interditas” (1951), “Ostinato rigore” (1964), “Matéria solar” (1980) ou “O sal da língua” (1995)..

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