PEQUENA CRÓNICA DE FARO – por Júlio Marques Mota

Com o meu amigo João e com a minha neta traquinas fomos como habitualmente ao café habitualonde se pediu igualmente o habitual.

A minha neta traquinas não largava os olhos dos posters bem elucidativos dos gelados de alta qualidade.

– Posso pedir um gelado?

– ai lá dentro e escolhe, mas de uma bola só!

Assim foi. Veio de dentro com o gelado e sentou-se. Entretanto, o empregado à nossa mesa chegou. Empregado novo, empregado desconhecido para os três. Pedimos o habitual, uma garrafa de água para mim, um café para o meu amigo João. Servidos rapidamente disse-lhe quando trouxe as duas coisas para a mesa: pago apenas o que eu pedi e sorri.

– Quanto é?

Olho e espantado vejo o espanto e o medo nos olhos do empregado de mesa. O meu amigo João, cansado da vida, cansado de trabalhar duramente durante o dia na construção civil e cansado de procurar emprego á noite para o dia seguinte diz-me:

– Ttudo básico, vai ver!

Chega a patroa à nossa mesa. Trata-se de um café pequeno. Ela e o empregado novo são o pessoal de serviço. Olha-me, ela que me conhece bem, dia a dia durante o tempo que por aqui passo e que melhor ainda conhece a traquinas da minha neta pergunta-me:

– O empregado diz-me que não quer pagar o gelado da sua neta. É verdade?

Olho-a com um sorriso e pergunto-lhe muito calmamente:

– O que é que acha?

– Acho que não é verdade – responde-me.

– Acho que a pergunta era desnecessária – acrescento eu.

Tudo básico, com bem vê, diz-me o meu amigo João a pensar que amanhã não terá trabalho. E vive assim o dia-a-dia, mês a mês, desde há quase dois anos em Faro onde a construção civil praticamente parou, na certeza que dia a dia tudo lhe é incerto. Pode-se viver bem assim? Claro que não, mas centenas de milhares vivem assim, muito mal.

No dia seguinte voltámos ao café. O mesmo empregado, agora sem medo nos olhos. Questionei-o sobre o medo de ontem, o medo de que eu não pagasse o gelado da minha neta, o medo relatado à sua patroa. A sua resposta foi imparável:

– Sabe é o meu primeiro emprego e era o meu primeiro dia de trabalho. Ando há meses e meses à procura de trabalho. Estava cheio de medo que algo me corresse mal. E tenho dívidas para pagar!

– Dividas para pagar?

– Sim – respondeu – Moro longe de Faro, comprei uma mota em pagamento por mensalidades. O dinheiro em minha casa começou a faltar. O meu padrasto caiu no desemprego, e eu estava já no limite para que o banco não me viesse buscar a moto. Vinha diariamente estudar para a escola em Faro. Tinha o nono ano de hotelaria e fez o agora o décimo mas não no que queria, queria hotelaria mas não tinha dinheiro para fazer o terceiro ciclo em Hotelaria e fiz nadador-salvador. Agora com um part-time em Faro e com a minha mota a permitir que continuasse a viver em Estoi talvez conseguisse os 120 euros de mensalidade como propinas, talvez pudesse frequentar a Escola de Hotelaria.

 Mas o part-time esgota-se com as férias e assim se transformam em nada os seus sonhos.

Olhei o estudante de hotelaria de ensino técnico profissional, imaginei-o a vir de longe, de moto a cortar o vento, o vento da vida para estudar em Faro e, de repente, com mais de metade da mota pago, corria o risco de ficar sem ela, sem o seu corta-vento que afinal o tinha levado a lado nenhum, salvo o ter percorrido de Estói para Faro muitas vezes para assim continuar a estudar.

– Não podia portanto perder o emprego. Vivia cheio de medo – disso mesmo.

Mas o emprego termina a 15 de Setembro. Muda de agulha o nosso promissor chefe de mesa que em mesa nenhuma há-de servir. Concorre para os comandos. É admitido. Será um possível GNR, um possível polícia de choque, um possível caceteiro! Lembro-me de Visconti, de  “Os Malditoss”, do oficial das SS a dizer à sua prima que os ficheiros de que se servem as SS para amarrar o povo alemão são o produto das denúncias dos próprios alemães são o seu contributo para a manutenção do III Reich. Sou ateu e dou comigo a pensar: Deus meu, salva-nos deste futuro pesadelo, salva esta gente, salva-nos!

“É tudo básico” dizia o meu amigo João cansado ele também de ter medo, medo de não encontrar noite a noite emprego para o dia seguinte nas obras, na construção civil, cansado igualmente de não ter muito estuque pintado, cansado de não ter muitos tijolos em parede transformados.

E aqui lembro a outra vertente da mesma situação. O meu amigo João tem uma filha, dezoito anos, bonita, altas notas no curso técnico-profissional em Contabilidade, mas não tem sítio sequer onde exercer o muito que aprendeu bem, segundo as pessoas que a dirigiram num estágio numa empresa. Não tem sítio, é precária no Jumbo numa campanha publicitária que acaba em Setembro. Também ela se esgota no final da época, Setembro. Precariedade absoluta, nada menos.

Medo é agora transversal a toda a sociedade e é com esse medo que Passos Coelho, a Tróica, nos querem manietar e falam em competitividade, mas que tem o medo afinal a ver com competitividade? Nada, absolutamente nada. Apenas um dos vários utilizados meios para se transformar um país num sítio, para se fazer de um povo. E das nossas gentes temos pais sem presente, como o meu amigo João, temos filhos sem futuro, como o meu amigo promissor chefe de mesa que nunca há-de ser, como a filha do meu amigo João, homem cansado de não se poder cansar a trabalhar, menina à espera da verdade de outros números  quequer encontrar para poder estar a trabalhar.

 E é tudo.

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