SOBRE A BOMBA DE NEUTRÕES FABRICADA EM BRUXELAS E ALGURES, E JÁ PRONTA PARA DISPARAR SOBRE TODA A ZONA EURO – IX.

Por Júlio Marques Mota

(continuação)

Entrada de capital

É quase o caso oposto para os países centrais na zona euro, que estão a ter consideráveis entradas de capital. Os dois gráficos abaixo mostram os dados correspondentes para a Alemanha. O que aqui é interessante é o facto de que os residentes alemães são exportadores líquidos de capital, mas que têm sido compensados, particularmente nos últimos tempos, por consideráveis entradas líquidas de capital de investidores não-alemães. Isto terá levado a que o total dos influxos de capital líquidos para a Alemanha atinja já o  valor de 25% do PIB.

O dinheiro do banco central não é igual ao capital do sector privado, por estranho que pareça, pois é a mesma coisa que  dizer que um não é igual a 1, mas no contexto actual é assim, tendo em conta a dinâmica dos dois circuitos quanto ao euro, privado ou público. É claro que, como membros da zona euro, a Itália e a Espanha não podem estar a ser sujeitos a uma verdadeira crise balança de pagamentos. As saídas do sector privado são efectivamente compensadas por aumentos correspondentes em responsabilidades  TARGET2 por parte dos seus bancos centrais. A contrapartida para os passivos crescentes do TARGET2 é o aumento dos levantamentos de fundos junto do  Eurosistema pelos  bancos italianos e espanhóis. Assim, o financiamento – sob a forma de responsabilidades TARGET2 e de empréstimos do banco central aos bancos comerciais – volta para essas economias e, pelo  menos no sentido contabilístico,  compensa  as saídas.

Aqui, vale a pena retomarmos extensamente um artigo de Satyajit Das em que se afirma:

“Presos na armadilha…

A maior vulnerabilidade da Alemanha é a sua exposição financeira resultante da crise actual. A exposição da Alemanha à Europa, especialmente às economias problemáticas periféricas, é já muito grande.

Os bancos alemães apresentam exposições em cerca de EUA 500 mil milhões às emissões de dívida das nações periféricas. Embora os níveis tenham sido reduzidos, esta continua a ser substancial, especialmente quanto à exposição directa aos bancos nesses países e às exposições indirectas quando é considerado o sistema financeiro global.

A redução do risco realizada pelos  bancos privados foi compensada pelo aumento da exposição do estado alemão que assumiu parte dessa exposição. Isso foi feito directa ou indirectamente, através do apoio indirecto de diversas instituições oficiais, tais como a União Europeia (“UE”), o Banco Central Europeu (“BCE”), o Fundo Monetário Internacional (“FMI”) e os fundos especiais  de resgate.

Por exemplo, a exposição do BCE à Grécia, a Portugal, à Irlanda, à Espanha e à Itália é  já de 918 mil milhões em Abril de 2012. Esta exposição também está ela a crescer rapidamente, especialmente impulsionada pela fuga de capitais para fora desses países. O Financial Times informou em 21 de Maio de 2012, que o BCE tinha fornecido ao Banco Central grego 100 mil milhões para ajudar os bancos gregos na base do programa de assistência de emergência de liquidez (ELA).

As garantias da Alemanha no seu apoio ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (“FEEF”) são de 211 mil milhões de euros. Como a Espanha não poderá muito possivelmente actuar como um garante do FEEF, uma vez que está a pedir um apoio financeiro, que diz o ministro espanhol da economia não é um resgate total, a responsabilidade da Alemanha irá aumentar ainda mais, ou seja  de 29% para 33%. A parte da França também aumenta de 22% para 25%. Talvez o mais interessante, é a responsabilidade da Itália, que está em má forma para assumir em muito má forma para assegurar qualquer encargo financeiro externo adicional, e esta sobe de 19% para 22%.

O Mecanismo Europeu de Estabilidade, a substituição do FEEF, que está prevista para começar em Julho de 2012, exigirá um aporte de capital da Alemanha, que vai forçar o seu défice orçamental a passar de 26 mil milhões para 35 mil milhões de euros. Se o MEE utiliza o valor total das suas disponibilidades que é de 500 mil milhões e os que os recebem em resgate entram em incumprimento, as responsabilidades da Alemanha poderia passar a serem de 280 mil milhões.

Desde 2010, a zona euro  já colocou  386  mil milhões  nos  pacotes de resgate para a Grécia, Irlanda e Portugal. Em Junho e Julho de 2012, a Espanha deverá pedir pelo menos 100  mil milhões de euros para a recapitalização do sistema bancário,  colocando os valores utilizados já muito perto dos  500 mil milhões.

Mas a maior exposição directa da Alemanha e sozinha está no Bundesbank e em cerca de 700 mil milhões de exposição actual sob o TARGET2 (“Trans-European Automated Real-time Gross Settlement Express Transfer System “) para com outros bancos centrais da zona-euro.

Projectado como um sistema de pagamentos e de compensações entre países , os países superavitários, como a Alemanha, têm sido forçados a usar TARGET2 para financiar os países deficitários. Antes de 2008, os défices  eram financiados pelos  bancos e pelos investidores. Desde que a crise começou, o TARGET2 tem sido usado para satisfazer as necessidades de financiamento dos países periféricos, sem acesso aos mercados de dinheiro para financiar os défices comerciais assim como a fuga de capitais para fora dos seus países.

A Alemanha é de longe o maior credor no TARGET2. Na situação presente a Holanda, Finlândia e  o Luxemburgo são os outros credores face a todos os  outros países da zona euro, que são  devedores líquidos dentro do sistema.

A Alemanha está agora presa numa armadilha. Independentemente da resolução da crise da dívida, a Alemanha vai sofrer perdas significativas dada a sua exposição – poderá ser  o maior perdedor “.

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