REESTRUTURAÇÂO DA DÍVIDA E PLANO MARSHALL SÃO AS ÚNICAS OPÇÕES POSSÍVEIS. Por Catherine Gerst.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

Afinal, há gente na banca que sabe bem mais sobre a saída da crise de que a maioria dos vigaristas dos nossos políticos de hoje  que só sabem andar a roubar nos  nossos bolsos, os que temos hoje e os que poderemos ter amanhã.  A capacidade  de roubo dos Passos Coelho, dos Rajoys e de muitos outros é enorme. Um texto a ler com muita atenção. Não darão por inútil o tempo gasto na sua leitura.

Júlio Marques Mota
Par Catherine Gerst, associée chez Citigate Dewe Rogerson, maître de conférences associée à Evry (M2 Finance)

Reestruturação da dívida e plano Marshall são as únicas opções possíveis

Interrogando-os para determinar o seu destino num período agora reduzido agora a três semanas, o caso grego  questiona  e com estrondo  os dirigentes  da zona  euro: no melhor dos casos, eles têm até à  noite de 17 de Junho,  data das eleições legislativas na Grécia. Saber-se-á  então  se os gregos confirmam  a  sua adesão ao plano de austeridade  pela  escolha dos partidos políticos neste projecto. Nada garante que daqui até lá  que o  pânico bancário dos aforradores gregos não precipite  a saída da  Grécia de acordo com  um cenário que já tem um nome nos mercados: “Grexit”. Com o qual se precisa uma ameaça que até então permaneceu em segundo plano: a de que uma saída da Grécia provoque um colapso da zona euro.

A situação económica, política e social na Grécia, mas também a sua situação financeira é actualmente muito mais grave do que o era antes da aplicação do resgate  que  mobilizou  desde meados de 2011 os dirigentes  da zona euro, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). O endividamento total da Grécia tornou-se bem superior ao  que era antes da entrega da primeira parcela do plano de resgate no início de 2012: emprestar a quem já está sobre-endividado, a taxas superiores às da dívida original, quando o crescimento económico é zero ou negativo e o nível da taxa de  inflação baixo, só pode agravar o seu endividamento. Este plano, vital para evitar um incumprimento descontrolado da Grécia, sossegou momentaneamente   todos os interlocutores da zona euro. Mas isto só permitiu ganhar tempo, nada mais que isso.

É lamentável que os governantes não tenham  utilizado  este período de graça,  do final de  2011 a Março de 2012, para colocarem  no centro do debate a questão real, o risco de desmembramento da área do euro, em vez de se deixarem  impor um  calendário pela  deriva da situação grega. Esse cenário começaria pela saída da Grécia . Já o sistema bancário grego tinha visto desaparecer um terço dos  seus depósitos em dois anos (passou de 240 mil milhões   no início de 2010 para 170 no primeiro trimestre de 2012), e esta situação acelerou-se  recentemente. Se este iniciar das preocupações dos aforradores gregos  não se tem estendido até agora a outros aforradores europeus, observou-se que os grandes grupos europeus começaram a retirar os seus depósitos em bancos dos países “periféricos”. É pois por uma crise do sistema bancário, que a zona euro poderá estourar.

Nas próximas três semanas, é primeiramente necessário resolver o problema financeiro grego: a dívida grega, de 375 mil milhões de euros, é essencialmente devido aos credores da zona  euro, representa  montantes insignificantes relativamente aos agregados  macroeconómicos e às perdas sofridas diariamente pelo conjunto de todas as Bolsas desde há várias semanas  . Para evitar a saída da  Grécia antes ou depois de 17 de Junho, não há nenhuma outra maneira  que não seja um novo plano de reestruturação de sua dívida total, que inclui não só o Estado grego, mas também todas as dívidas das famílias e empresas gregas. Será necessário que se abandonem créditos, ou seja, que haja destruição da dívida, ou seja,  da moeda e, portanto, do capital. A isto deve  acrescentar-se   uma programação  para a liquidação do  saldo restante ao longo de várias décadas. As perdas serão suportadas pelos contribuintes europeus, os  bancos europeus e  outros investidores, bancos internacionais. Só por si, uma tal  reestruturação não será suficiente se não se lhe acrescentar  o equivalente de   um Plano Marshall  a favor  da Grécia. E depois mas imediatamente a seguir tomar em mãos  o caso da Espanha primeiro e, depois,  o de Portugal e da Irlanda, mais ameaçadores   para a sobrevivência da zona euro. Evitando os mesmos tormentos e hesitações que se deram no caso da  Grécia: quanto mais se espera, mais as perdas serão maiores.

Com a Grécia,  tratava-se de  evitar  que a perda inicialmente previsível  não se agrave, admitindo desde o início  que nunca poderia pagar, carregada de défices abissais  que foram descobertos muito tarde pelos  seus parceiros e sofrendo um crescimento negativo proporcional ao plano de austeridade que lhe foi aplicado. Por não  ter  percebido e aceite suficientemente cedo  esta evidência, a zona euro  agravou a sua perda potencial  sobre este mesmo país.  A Europa deve agora  enfrentar,  e com urgência, a questão mais preocupante: o contágio,  pelo vector de uma crise bancária, espanhola,  portuguesas e irlandesa. Para o evitar, deve ser considerada rapidamente um plano ousado para a reestruturação da dívida desses países. Trata-se de uma decisão puramente política. Na ausência de uma tal abordagem, o desmembramento da área do euro torna-se  um cenário inevitável, cujas  consequências financeiras ultrapassam, e de longe,  o montante da dívida grega.

Catherine Gerst, antes de ingressar na empresa de comunicações financeiras Citigate Dewe Rogerson em 2008, foi diretor executivo da França da Moody’s.

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