TIJOLOS – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

Motivos profissionais levaram-me a Bissau em 1975. Ali, por gentileza quiseram mostrar-me a cidade. Um carro, um motorista e um cicerone ao meu dispor. Aprecio o buliçoso Mercado de Bandim. Vejo o cais de Pidjiguiti onde em 1957 a tropa colonial chacinou 50 marinheiros e estivadores que reclamavam aumento de salários. Paramos frente a uma fábrica de tijolos, dizem-me que acabada de instalar para atender às necessidades de reconstrução da cidade. Desço para ver melhor. Ouço uma grande gritaria lá por dentro e começam a chover tijolos sobre mim.  Finto, felizmente escapo. Às pressas, o motorista e o cicerone saem do carro, colocam-se a meu lado, acenam e gritam muito. Pára a chuva de tijolos e lá de dentro sai um matulão que se aproxima. Fita-me demoradamente. Baixa a cabeça e pede desculpa: confundiram-me com um militar que se divertia a molestar e torturar civis. Para não criar conflitos, finjo acreditar na desculpa.

Em 1977 tive que ir de Lisboa a Elvas. Para merendar, paro na vila de Borba. Entro num tasco e, ao balcão, peço um papo-seco com pernil e um copo de tinto. Um bêbedo corre para mim de braços abertos e a gritar:

– Major, ó meu Major!

– Mas qual Major, nem meio Major?

– O meu Major já se esqueceu das diabruras que fizemos em Bissau?

Pronto! Afinal há mesmo por aí um fascista com a minha tromba. O que eu hoje temo é levar a tijolada destinada ao outro…

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