A ViIDA DOS SONS”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VII) – 3 – por Álvaro José Ferreira

1974 (Continuação)

3. Falecimento do arquitecto Raul Lino; nascido a 21 de Novembro de 1879, estudou em Windsor, Inglaterra (1890) e no Instituto de Hanôver, na Alemanha (a partir de 1893); trabalhou no atelier do arquitecto alemão Karl Albrecht Haupt, um especialista em arquitectura medieval e renascentista de Itália e da Península Ibérica; foi um prolífico autor, responsável por mais de 700 projectos, tendo também deixado obra escrita em que teoriza sobre a arquitectura portuguesa, por vezes alvo de controvérsia; dessas obras destacam-se “A Casa Portuguesa” (1929) e “Casas Portuguesas” (1933), nas quais procura sistematizar as características específicas da arquitectura portuguesa, propondo modelos de moradias a serem adoptados por outros arquitectos; as obras terão grande influência nas décadas de 30 e 40, sendo mesmo inspiradoras da tentativa de criação de uma arquitectura oficial do Estado Novo e, nessa medida, suscitando forte antagonismo da geração modernista mais virada para modelos euro-americanos; viajou muito por Portugal e pelas colónias tomando apontamentos sobre elementos e aspectos da arquitectura tradicional que viria a integrar nos seus projectos; desempenhou também os cargos de Director-Geral dos Monumentos Nacionais (1949) e de presidente da Academia Nacional de Belas-Artes (a partir de 1967); o seu espólio foi entregue à Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian; entre as suas obras arquitectónicas contam-se a Casa Rey Colaço, no Monte Estoril (1901), a Casa O’Neill, em Cascais (1902), a Casa da Quinta da Comenda, em Setúbal (1903), a Casa José Relvas ou Casa dos Patudos, em Alpiarça (1904), a Casa do Cipreste, em Sintra (1912), e o Cinema Tivoli, em Lisboa (1924);

4. Falecimento do pintor Lino António; nascido em Leria, em 1898, estudou Pintura nas Escolas de Belas-Artes de Lisboa e do Porto, onde foi discípulo de João Marques de Oliveira; tendo feito a primeira exposição individual na cidade natal, no ano de 1918, e exposto na Sociedade Nacional de Belas-Artes (1924), em Lisboa, o seu nome impôs-se definitivamente com a decoração da Sala do Comércio, no Palácio de Portugal, na Exposição Colonial de Paris (1932); foi professor metodológico de Desenho e Pintura do ensino técnico e director da Escola de Artes Decorativas António Arroio (Lisboa), onde se manteve até à aposentação; desde muito novo empenhou-se na renovação da arte em Portugal, tradicionalmente enfeudada ao academismo; entre as muitas obras que realizou para edifícios públicos, constam: o friso da sala do Presidente da Assembleia da República (1938), os frescos do arco triunfal e da varanda do coro da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa (1938), os vitrais da Casa do Douro, em Peso da Régua (1945), os frescos e vitrais do Salão Nobre da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira (1949), o painel cerâmico do átrio principal do LNEC (1952), os painéis cerâmicos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (1957), os frescos e vitrais do Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã (1957), a tapeçaria Olisipo, do Hotel Ritz, em Lisboa (1959), os vitrais do grande pórtico da Aula Magna, em Lisboa (1961) e os frescos do átrio principal da Biblioteca Nacional (1966) (http://linoantonio.no.sapo.pt/);

5. Falecimento do professor e compositor Jorge Croner de Vasconcelos; fez os estudos de música no Conservatório Nacional, onde foi aluno de Alexandre Rey Colaço, de António Eduardo da Costa Ferreira e de Luís de Freitas Branco; em 1934 rumou a Paris, para frequentar a École Normale de Musique onde recebeu lições de Paul Dukas, Nadia Boulanger, Igor Stravinsky e Alfred Cortot; regressado a Portugal, em 1938, ingressou como professor de História da Música na Academia de Amadores de Música, em Lisboa, e a partir de 1939 passou a exercer as funções de professor de Composição, de Canto e de História da Música no Conservatório Nacional, deixando a sua marca em gerações sucessivas de músicos e compositores portugueses; a sua intensa actividade pedagógica impediu que fosse abundante a sua produção como compositor; nas suas obras – de música dramática, coral, sinfónica, coral-sinfónica, de câmara, de piano e canções – a mistura do modalismo e do cromatismo não oculta as raízes nacionalistas, na linha da música setecentista de Carlos Seixas e de João de Sousa Carvalho [“Três Redondilhas de Camões”, por Ana Madalena Moreira (soprano) e Lucjan Luc, (piano) >> YouTube];

6. Falecimento do compositor francês Darius Milhaud; nascido em Marselha, no seio de uma família judaica, frequentou o Conservatório de Paris, onde teve como professores Charles Vidor (composição) e Paul Dukas (orquestração), recebendo também lições particulares de Vincent d’Indy; ainda jovem, trava amizade com o poeta Paul Claudel e será este que, depois de nomeado embaixador no Rio de Janeiro, o virá a convidar para seu secretário, lugar que ocupa de 1917 a 1919; esta sua permanência no Brasil foi muito marcante, vindo a reflectir-se em diversas das suas obras, como os bailados “O Boi no Telhado” (Le Bœuf sur le Toit”, 1919) [I Musici de Montréal, dir. Yuli Turovsky, parte 1 >> YouTube, parte 2 >>YouTube] e “O Homem e o seu Desejo” (“L’Homme et son Désir”, 1921) [Orchestre de Radio Luxembourg, dir. Darius Milhaud, parte 1 >> YouTube, parte 2 >>YouTube] e as suites “Saudades do Brasil” (1921) [por Mark Bartlett (piano) >> YouTube] e “Scaramouche” (1939) [III. Brazileira, por Moritz Reinisch (saxofone alto) e Shusan Huhanyan (piano) >> YouTube]; de regresso a Paris, em 1919, integra o chamado Grupo dos Seis, com Georges Auric, Louis Durey, Arthur Honegger, Francis Poulenc e Germaine Tailleferre; dessa associação, resulta uma obra colectiva, o bailado “Mariés de la Tour Eiffel” (1921) [Philharmonia Orchestra, dir. Geoffrey Simon >> YouTube], com argumento de Jean Cocteau; em 1922, em viagem aos Estados Unidos da América, Milhaud toma contacto, no bairro nova-iorquino de Harlem, com o jazz “autêntico”, que vem a influenciá-lo na composição do bailado “A Criação do Mundo” (“La Création du Monde”, 1923) [Orquestra Nacional de França, dir. Leonard Bernstein >> YouTube]; em 1940, com a invasão da França pelas hordas nazis, e recaindo sobre si o duplo estigma de ser judeu e um autor de “arte degenerada”, refugia-se nos Estados Unidos da América, leccionando no Mills College de Oakland (Califórnia), tendo tido entre os seus alunos o pianista de jazz Dave Brubeck, o compositor de variedades Burt Bacharach e os fundadores do minimalismo norte-americano Steve Reich e Philip Glass; regressa a França em 1947, sendo-lhe oferecida uma das cadeiras de composição no Conservatório de Paris que passa a ocupar, não deixando contudo de continuar a ensinar no Mills College de Oakland, até 1971, assim como noutras instituições de ensino americanas;

7. Falecimento do violinista russo David Oistrakh; filho de uma cantora de ópera, de ascendência judaica, nasceu na cidade de Odessa, em 1908; David Oistrakh manifestou desde muito tenra idade vocação para a música, fascinado pelo violino que considerava o seu brinquedo; estudou com o reputado professor Piotr Solomonovich Stoliarsky, vindo a apresentar-se pela primeira vez em público aos quinze anos de idade (1923), com o Concerto em lá menor, BWV 1041, de Bach [em 1961, com a English Chamber Orchestra, dir. Colin Davis >> YouTube]; esta obra, a sonata “O Trilo do Diabo”, de Giuseppe Tartini [com Vladimir Yampolsky, 1950 >> YouTube], e as “Árias Ciganas”, de Pablo Sarasate, constituem o seu repertório de afirmação, nessa fase inicial da carreira; no ano de 1926, em Kiev, tocou o concerto de Glazunov, sob a direcção do compositor; em 1937 vence o Concurso Internacional de Bruxelas, que lhe abre as portas de uma gloriosa carreia internacional; durante a Segunda Guerra Mundial, permanece na União Soviética e, a par da actividade lectiva no conservatório de Moscovo, toca na frente de combate para as tropas do Exército Vermelho, serviço que lhe valerá ser condecorado, em 1947, com a Ordem Lenine; David Oistrakh travou amizade com grandes compositores que escreveram obras expressamente para ele estrear: Nikolai Miaskovski (concerto para violino [parte 1 >> YouTube, parte 2 >> YouTube, parte 3 >> YouTube, parte 4 >> YouTube]), Sergei Prokofiev (sonata para violino e piano n.º 1, op. 80 [com Sviatoslav Richter, em Moscovo, 1972 – I. Andante assai >> YouTube, II. Allegro brusco >> YouTube, III. Andante >> YouTube, IV. Allegrissimo >> YouTube]), Aram Khatchatourian (concerto para violino [>> YouTube]) e Dmitri Chostakovitch (concerto para violino n.º 1, op. 77 / op. 99 [com a New York Philharmonic Orchestra, dir. Dimitri Mitropoulos – I. Nocturne >> YouTube, II Scherzo>> YouTube, III Passacaglia >> YouTube, IV Burlesca >> YouTube], concerto para violino n.º 2, op. 129 [com a Moscow Philharmonic Orchestra, dir. Kirill Kondrashin, 1967 – I. Moderato >> YouTube, II. Adagio>> YouTube, III. Adagio – Allegro >> YouTube] e sonata para violino e piano, op. 134 [com Sviatoslav Richter (piano) – I. Andante >> YouTube, II. Allegretto>> YouTube, III. Largo – parte 1 >> YouTube, III. Largo – parte 2 >> YouTube]); a partir de 1959, dedicou-se também à direcção de orquestra, vindo a falecer em Amesterdão de ataque cardíaco, no decurso de um ciclo de Brahms com a Orquestra do Concertgebouw; a imensa discografia que deixou contém muitas gravações de referência do repertório violinístico, sendo de destacar, além das anteriormente citadas, o concerto para violino e orquestra, de Tchaikovski [com a Staatskapelle Berlin, dir. Gennady Roshdestvensky >> YouTube]; o seu filho, Igor Oistrakh foi também um exímio violinista;

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