DIÁRIO DE BORDO, 26 de Agosto de 2012

 

Na segunda-feira passada, 20 de Agosto, José Goulão recordava-nos que:  “a crise é ela mesma a estratégia para impor o regresso a relações esclavagistas de trabalho”. Na realidade a crise não é um estado de coisas incontrolado, é sim um método para alcançar um objectivo, a alteração da relação de forças entre classes e grupos sociais. O processo de emancipação do trabalho, que, com avanços e recuos, se tentou levar avante durante todo o século XX, neste momento enfrenta a ameaça de uma derrota, se não definitiva, pelo menos altamente destruidora. No Eurointelligence de quinta-feira, dia 23 de Agosto, lemos informações sobre a realização de análises sobre cenários que incluem a limitação das taxas de juro, spreads bancários, e outras modalidades de regulação financeira, análises essas que não saem do segredo dos deuses do BCE ou de outros Olimpos. A razão desse secretismo também é clara: os mentores da crise (os tais que querem o fim das “zonas de conforto” do comum dos cidadãos) não querem entraves às suas manobras, que incluem a especulação financeira ilimitada, para poderem auferir lucros ilimitados, com a consequente sensação de poder e de domínio, e a convicção de que detêm o segredo do progresso e da salvação do mundo.

Em Portugal a questão está a tomar uma feição cada vez mais gravosa. Os episódios recentes (vendas em saldo de bens e serviços públicos, cortes continuados de salários e subsídios, desemprego em crescimento contínuo, preços de produtos essenciais em alta constante, descalabro financeiro incontrolável) indicam uma situação insustentável. O facto do governo do país estar entregue a pessoas perfeitamente identificadas com os mentores da crise institucionalizada não deixa grandes esperanças de alterações de rumo a curto prazo.

É prioritário que as forças políticas que não se identificam com a crise preparem um plano para lhe pôr fim. Claro que isso é extremamente difícil. Ainda mais por que Portugal é um país pequeno, muito dependente do exterior, que fez uma adesão à União Europeia (então CEE) muito mal negociada (nem se vai discutir se devia ter aderido ou não, para economizar tempo)e pior ainda à zona euro. É totalmente impossível levar avante esse plano dentro do sistema capitalista. Para começar terá que se controlar a banca e todo o sistema financeiro para impedir a constante sangria dos poucos recursos do país. Medidas urgentes de apoio á produção e aos sectores da população mais carenciados são igualmente prioritários.

Não será bem o papel de um Diário de Bordo fazer um plano de salvação nacional. A situação contudo não deixa margem para outra coisa. Sente-se estar o país numa espiral de afundamento cada vez mais acentuada. Mas entretanto continuam alegremente a dilapidarem-se recursos e esforços em projectos de duvidosa vantagem, ou mesmo reconhecidamente prejudiciais, como a barragem do Tua, ou em Vila Franca de Xira, num porto fluvial, ao pé de uma plataforma logística sem movimento, e com acesso complicado, ou numa urbanização numa zona protegida, em Alverca, quando há no concelho grande número de casas vagas, por vender, ou por alugar. O Estado continua envolvido em parcerias altamente custosas para o contribuinte, e deixa parar obras como o túnel do Marão, fundamental para o Norte do país. O Algarve é sufocado por portagens completamente idiotas.  A lista não tem fim. É preciso outro caminho, muito rapidamente.

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