EM COMBATE – 161 – por José Brandão

Cheguei pelas quatro da tarde. Mal sai da viatura, com as máquinas de filmar e fotografar a tiracolo, avistei dois trogloditas sentados junto à esquina da casa e logo outro se aproximou de espingarda com a bandoleira no ombro direito e cano descaído ao longo das costas; não deram importância à minha presença, enquanto dois conversavam o outro lia uma revista. Fiquei no passeio em frente a observar o ambiente da rua e o movimento na esplanada. Fui-me aproximando, na incerteza de serem os meus entrevistados, e entabulamos conversa. Eu tinha um gravador de fita magnética, que quis pôr a funcionar, mas não autorizaram gravações; que sim, iam falar, mas só poderia tomar notas. Quanto a fotografias, nada de nada! Começo a ver goradas as minhas pretensões, depois da viagem atribulada. Trocámos uns pequenos mas significativos presentes: ofereceram-me emblemas das unidades de elite a que pertenciam, e, em troca, ofereci-lhes dois brevets dos pára-quedistas. Fomos conversando, fui anotando, bebendo e apreciando os entrevistados. Comportaram-se com uma impetuosidade agressiva que chegava a ultrapassar o irracional das intrigas internacionais. Fico com a ideia de que eles têm medo das guerras, e até têm medo de andar na rua, no meio de pessoas pacíficas!

Durante a entrevista que me concederam, a pedido de um dos pilotos dos caças que vieram para a Beira, percebi a sua má formação cívica, com desprezo pelos princípios da ética militar; (quanto não vale um estatuto de mercenário, mesmo com medo da guerra). Estando as coisas neste ponto, o meu comprometimento com o imprevisto, mesmo nas situações mais insólitas, começa a perder o interesse. As minhas dúvidas foram dissipadas antes de terminar a entrevista, porque um dos mercenários quis vincar a sua “valentia” duma maneira trágica: colocou a espingarda em cima da mesa da esplanada onde conversávamos e disparou de rajada contra um grupo de transeuntes negros que subiam a rua na nossa direcção. Sem qualquer motivo que não fosse o ódio aos pretos e a má formação da personalidade, disparou por entre os dois comparsas e atingiu cinco pessoas, tendo duas sucumbido às balas e ficaram caídas no asfalto, enquanto outras fugiram aos gritos pela rua abaixo. Até os brancos que estavam na esplanada condenaram o acto, mas com alguma moderação, talvez com medo das represálias dos “mercenários”. Outros bateram palmas! Fiquei surpreso com o gesto, mas os comparsas riam de alma aberta. A minha estupefacção aumentou quando percebi que ninguém se levantou para socorrer os feridos que gemiam e sangravam a escassos metros de distância da esplanada onde fui ameaçado com a mesma arma por ter tentado fotografar a ocorrência.

A chegada das viaturas da polícia não perturbou os três mercenários que recusaram qualquer comentário ao episódio. A entrevista acabou ali, sem que eu percebesse as razões do gesto tresloucado daquele meliante marcado pela guerra do Vietname.

Não houve despedidas, porque nada me prende a esta filosofia de guerra, onde a ganância e a brutalidade não têm limites. Ainda deu para perceber que as autoridades rodesianas têm mais uma razão para duvidar da “valentia” dos mercenários e, em consequência, mais um problema de segurança para resolver.

Naturalmente que não estou só, mas a guerra que nos horroriza e desgosta também nos dá algumas pistas para entender as razões porque o ocidente português está a perder a credibilidade como estado nação que deu novos mundos ao mundo.

Os povos que os antepassados subjugaram e evangelizaram jamais perderão as raízes da sua cultura nativa e da sua alma africana. Então porque não entendemos a suas pretensões de emancipação? Se não soubermos aproveitar agora, quando temos em Salisbury um governo rebelde mas amigo, estaremos a perder a grande oportunidade histórica de negociar sem pressões uma outra forma de resolver a guerra. Não passarão muitos anos sem que tenhamos todos os países vizinhos de Angola e de Moçambique a servir os interesses dos guerrilheiros, e a guerra tornar-se-á mais sangrenta e odiosa, sem condições para qualquer retorno pacífico. Com tais ódios acirrados, poderemos enfrentar dias terríveis de humilhação para as tropas portuguesas.

A concepção de “províncias ultramarinas” não dá aos nativos (landins, macuas ou macondes) a alma que o governo português lhes quer trocar. Moçambique está condenado à orfandade, porque nos séculos que convivemos com estes povos nem sequer lhes soubemos ensinar a língua de Camões; são raros os locais onde se pode fazer entender a língua portuguesa. Quanto a outras formas de convivência, estamos longe de outros povos como os asiáticos e sul-africanos, para podermos exigir alguma coisa. Então que colonização é esta?

Beira, Abril de 1967

Joaquim Coelho – 2º Sargento do BCP 31.

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