UM ENORME FUROR EM TORNO DA MANIPULAÇÃO SOBRE A LIBOR: ONDE É QUE HÁ AQUI ULTRAJE? por Yves Smith – II

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

(continuação)

Foi o primeiro director executivo de um banco a ser posto na rua, algo que também não se tinha visto nos Estados Unidos, excepto quando devido a uma situação de falência ou por uma OPA. O presidente do Barclay’s, Marcus Agius, demitiu-se. O conteúdo dos documentos oficiais tem levado a novas revelações. As observações da FSA continham uma referência codificada sobre as conversações entre o Banco da Inglaterra e o Barclay’s quanto às suas propostas para a Libor e as percepções de mercado. Robert Peston, na BBC desmontou a história de que foi Bob Diamond, então chefe do banco de investimento do Barclay’s, agora o seu CEO, o dirigente do Barclays quem falou com Paul Tucker, vice-governador do Banco da Inglaterra, no Outono de 2008. Por Peston:

O cerne da questão é que, em 2008, no auge da crise do crédito, a percepção da capacidade e da força financeira dos bancos estava ligada às taxas que eles tinham que pagar pelos empréstimos que tinham necessidade de levantar no mercado interbancário. Os gestores do Barclays estavam muito preocupados com a imagem do banco, por estar a pagar mais caro que os outros bancos para poder pedir empréstimos, e que o conhecimento dessa situação lhes fosse prejudicial e minasse ainda mais a confiança na sua posição financeira.

Assim os quadros do Barclay’s que enviam as suas propostas aos Comités da BBA para a determinação da Libor, também chamado o fixing, os chamados “submitters”, disseram sempre a estas comissões que o Barclays estava a pagar uma taxa de juros para levantar empréstimos no mercado interbancário mais baixa do que na verdade acontecia.

O que é surpreendente é que mesmo as informações quanto a taxas artificialmente suprimidas e referentes aos custos de empréstimos obtidos do Barclay’s e que tinham sido fornecidas à Comissão BBA eram superiores às taxas que os outros bancos informaram.

Depois da conversação, a direcção do Barclays deu uma instrução explícita para se baixar as propostas enviadas para o fixing da Libor. O centro da disputa é de que nem Tucker nem Diamond têm registo da conversa havida. Diamond convenientemente relembra que ele teve a bênção do Banco da Inglaterra para manter baixos os valores a propor; Aparentemente, Tucker diz que não é assim. (Note que mesmo se o banco central deu o seu consentimento para a manipulação em Outubro de 2008, Barclay’s tinha andado a manipular a determinação da Libor bem activamente e já em 2005 e 2007).

O escândalo de Libor tem também passado para a esfera política, com os trabalhistas a exigirem um profundo e extenso inquérito sobre as remunerações nos bancos e sobre a sua cultura (!), como também uma investigação criminal sobre o Barclays. Em sentido oposto está o primeiro-ministro conservador Cameron que pretende uma supervisão mais apertada, independente, da estrutura ou mecanismo de determinação da Libor.

A manipulação sobre a Libor feita pelo Barclays está à beira de se transformar num escândalo com a dimensão e a profundidade do escândalo de News Corp, o tipo de erupção que leva a mudanças duradouras no cenário político. Nesta quarta-feira, Diamond testemunha perante o Parlamento; e isto é quase certo que vai aumentar a controvérsia. Os media financeiros britânicos continuam a desenvolver a história, com mais críticas no fim-de-semana.

A começar pelo Financial Times, que começou a reportar-se a estes cinco últimos anos de modo persistente apesar dos anos de desmentidos pelos bancos:

Banqueiros, traders e investidores queixam-se aos Bancos Centrais e aos reguladores dos EUA e do Reino Unido  que informações falsas têm sido fornecidas para estabelecer uma crítica taxa de empréstimo na praça de Londres desde 2007.

Mas só a Commodity Futures Trading Commission, o regulador dos EUA, arrancou a trabalhar e investigar a questão e começou a exigir informações sobre a determinação da Libor, a taxa interbancária oferecida na praça de Londres, que é a taxa de referência para $360 milhões de milhões em hipotecas, cartões de crédito e outros contratos realizados por todo o mundo.

A CFTC começou a investigar em Maio de 2008. Ela foi contactada através de uma denúncia e pela Primavera de 2010 esta tinha já informado a Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, a FSA das fortes evidências quanto a tentativas de manipulação.

O Independent relata que altos membros do partido conservador podem ter estado envolvidos no encobrimento de cinco anos da manipulação Libor:

The Independent on Sunday afirma ter conhecimento de que o vice-presidente conservador, Michael Fallon, é membro do Conselho de uma corretora líder no mercado e que domina o mercado de taxas e que em foi solicitado para cooperar com a investigação do Financial Services Authority sobre más práticas na City.

O senhor Fallon é um aliado muito próximo de David Cameron e alto membro do Comité do Tesouro que vai questionar o Presidente executivo do Barclays, Bob Diamond, nesta semana, prontamente declarando-se a partir do Partido trabalhista que ele deve declarar que é parte interessada. O primeiro-ministro continua a resistir aos apelos de Ed Miliband que pede um inquérito sobre o fixing da Libor do tipo e ao estilo do relatório conduzido por Lord  Leveson .

O mesmo jornal diz que o Banco da Inglaterra estava consciente das preocupações sobre a Libor desde há cinco anos e discutiu-o pelo menos em duas reuniões com representantes de algumas das maiores instituições financeiras da City .

E o Telegraph diz que um alto funcionário do banco que não estava no Barclays descreveu como é que a manipulação dos valores da Libor foi feita durante a crise:

Foi durante um reunião semanal económica no banco, no início de 2008 que ouvi pela primeira vez a frase. Um trader em  swaps sobre a Libra sterling disse ao conjunto dos economistas e gestores presentes que a “Libor foi mudada por ele próprio”, “dislocation of Libor from itself” . Parecia tão absurdo que, num primeiro momento, apenas nos confundiu a todos e provocou uma pequena risada.

Em pouco tempo, porém, eu estava a escrever e a ordenar as apresentações para explicar a “dislocation of Libor from itself” para os quadros do banco encarregados das relações com as grandes empresas. Eu estava a tentar decifrar o assunto por e-mails, interna e externamente. E eu estava a usar a frase abertamente com os clientes do banco.

(continua)

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