EM COMBATE – 173 – por José Brandão

7.º O correio

O correio constituiu caso especial na permanência dos militares em África. A correspondência com a família, as namoradas e os amigos consumia grande parte do tempo disponível dos mobilizados e aliviava tensões que seriam dificilmente suportadas sem esse escape. O Serviço Postal Militar (SPM) organizado pelas Forças Armadas atingiu elevados padrões de eficácia, existindo a noção em todos os escalões de comando de que receber a correspondência regularmente era essencial para manter o moral das tropas. O momento da chegada do correio e a sua distribuição provocava excitação compreensível. Por isso, todos os meios foram utilizados para fazer chegar o saco de lona do SPM às guarnições mais isoladas.

Os momentos mais hilariantes eram vividos com a chegada do correio. Quando o avião “DORNIER” que o transportava chegava à Base, rapidamente a noticia se espalhava e, todos ansiavam que nos chegasse às mãos. O serviço postal era bastante eficiente e, passado algum tempo lá vinha a cartinha ou o aerograma. Pegava-se nela com certa religiosidade, com enlevo e muitos beijos. Cada um procurava o “seu” sítio de leitura, a sós, lendo e relendo, meditando nos seus, chorando muitas das vezes. Quem não chorou? Depois de passarem as emoções trocávamos muitas das notícias, falando da mulher, dos filhos e dos pais ou falando das namoradas e dos sonhos que deixamos para trás por realizar…eram momentos puros e lindos, ajudava a suavizar a dor da saudade. Este acto de partilha baseava-se numa mútua confiança de sinceridade sem limite…

8.º A saída p/mato

Havia sempre a noite antes de qualquer operação militar. As conversas giravam à volta de questões como: Para onde é? Por onde? O local? Quem comanda? Quem vai e quantos dias? Eram as perguntas rotineiras, de resposta comedida por questões de segurança. Sabíamos que partiam mas ficava-nos a dúvida, regressarão? A persistência desta incerteza percorria constantemente os nossos pensamentos. Os “operacionais” da flat 2, levantam-se bem cedo pela madrugada – inicia então o ritual guerreiro que provoca algum ruído que nos faz acordar: começam por vestir farda de combate, verificam se tudo esta no seu lugar, as granadas, munições, a arma…comenta o Monteiro para o Mateus, as rações são uma merda… pá, responde este – a culpa é do Ribeiro, pá, o gajo é sempre o mesmo, pá. O astuto do Ferreira sempre pronto p’ra luta, fala ao Pereira…ó pá vê se não te esqueces de nada e despacha-te, pá. No meio desta troca de mimos, o Eurico, não perde mais uma oportunidade e mesmo sonolento, atira… olhem o quinino, pá. O Adolfo, pelo meio dos dentes… ó Alves, não esqueças de levar o rádio… tende cautela, pá, este reage, okei, pá. Acordado pelo ruído, mas à espreita, leva o dorminhoco do Andrade a gritar para que o ouvissem bem…não se limpem ao meu toalhete, senão parto-vos os corn….pá. Nós os que não partimos, assistimos da cama a toda esta encenação real de olho meio aberto, até ao momento da separação, são horas de ir, dizem, o momento é de alguma tensão… deseja-mos que tudo corra bem, voltem como partiram, cá esperamos por vós. O tempo passa rapidamente, abre-se a porta, cabisbaixos vão para junto dos seus homens que os esperam lá fora. Algum tempo depois ouve-se o ruído dos motores a partir, partir… o sono regressa e toma conta dos nossos sonhos. São momentos muito fortes e dolorosos, ver os nossos AMIGOS prontos e dispostos a partir em direcção ao desconhecido, conhecendo como eles conhecem bem a realidade, dos terríveis malefícios da GUERRA. Só de Heróis…

Foi nesse pequeno espaço que muitas coisas aconteceram. Forjaram-se amizades que coabitaram com a bebida e o jogo ao longo das noites e do tempo. Aqui se chorou, riu e vomitou. Daqui partiu a ideia peregrina de me alistar, não medindo o alcance da decisão tomada, numa operação de assalto a uma base “inimiga”, ainda por cima com tropas comandos responsáveis pela operação. Militares da 1710 eram parte integrante do dispositivo atacante, no qual me incluía. No retorno só Deus sabe como cheguei às “águas” ponto de recolha e regresso a Mueda. A ajuda generosa do amigo Monteiro, no transporte da G3 foi valiosa. Depois deste acontecimento, passei a sentir um maior respeito e admiração pelo trabalho desenvolvido pelos meus camaradas militares, pelo empenho, pelo heroísmo e estoicidade que demonstravam no combate contra a guerrilha.

Francisco Dias Ribeiro

Ex Furriel Miliciano

http://www.batalhaocacadores1916.co.cc/

A seguir – Companhia de Cavalaria 2415

Leave a Reply