EM COMBATE – 175 – por José Brandão

O Nosso NATAL no LIONE…

… Foi há 41 anos! Nesse longínquo Dezembro de 1968 ainda éramos “felizes”! A vida era passada entre Lione, Chala e Matipa (que seria, entretanto, abandonada…) em patrulhamentos despreocupados intercalando com “excursões” a Vila Cabral para um bom bife no Coelho (os afortunados que tinham alguns cobres no bolso…) e ao Catur (onde me consta que os bons almoços eram no Caminho de Ferro…). O agoirento mil nove 69 estava prestes a nascer, com o todo o seu cortejo de tragédias, mas nós, checas de 4 meses, nem suspeitávamos que os votos de Bom Ano Novo que então trocávamos haveriam de ser completamente defraudados pelo destino!

AEROGRAMA com 41 anos…

Chala, 9/11/68

(…)

Estou a escrever um pouco à pressa no café “Planalto” em Vila Cabral, onde vim buscar correio e víveres. Como podes ver pela data, desde o dia 4 do corrente que estou em Chala com o meu pelotão, mesmo na fronteira do Malawi (a cerca de 30 metros…), e a perto de 80 km de Lione e quase outro tanto de Vila Cabral. Por aqui já houve uns ameaços de chuva, o que é uma grande coisa, aparte a chatice que traz por causa das picadas que se tornam quase intransitáveis. Quanto a turras, a situação continua na mesma. Por agora termino (escrevi este aero em menos de 5 minutos) porque ainda tenho muitos assuntos a tratar aqui em Vila Cabral e tenho de regressar ainda ao Chala, com um “Unimog” velho e ferrugento que qualquer dia me deixa ficar a meio do caminho…

(…)

“RETALHOS DE GUERRA”

A nossa memória já  não é aquilo que era, especialmente a minha que já  tem muitas falhas mas mesmo assim cá me vou lembrando de algumas proezas e acontecimentos.   Lembro-me agora, daquela célebre patrulha feita pelo meu pelotão desde Lione a Chala: Partimos de manhã cedo depois de nos equiparmos com as devidas rações de combate (que era a especialidade da casa) e do armamento de primeira qualidade como por exemplo, levar a “Bazuca” que estava avariada  não disparava sequer, mas levava-se para fazer de conta e meter medo aos “Turras”. Lá partimos todos em fila indiana mato fora á procura de umas palhotas que existiriam no percurso e que segundo informações era habitada por terroristas. Á frente ia um batedor africano que mais ò menos nos indicava o caminho. A certa e determinada altura, ele manda parar baixa-se, põe um dos ouvidos no chão e diz: É já ali! Pois é, foi quase um dia para chegar ao local e encontrar ainda mandioca quente e nada mais. Chegámos tarde. Já sem água nos cantis lá continuámos o nosso caminho para Chala. A sede apertava. Eis que aparece um pequeno rio mas para desespero nosso não levava água, foi então que alguém do grupo descobre umas pegadas de elefante no leito do rio em que nelas se depositava alguma água, com as mãos conseguimos beber e soube tão bem como de cerveja se tratasse. Cai a noite e a dificuldade aumenta, a noite está escura (o que não era muito usual) e o trilho era difícil de encontrar, quando demos por ela estavamos perdidos e segundo cálculos feitos em cima do joelho, já tinha-mos ultrapassado a fronteira para o Malawi. E agora? O milagre aconteceu, o gerador do Chala que não trabalhava todos os dias naquela noite trabalhou e ao longe lá se ouvia o “ta-ta-ta-ta-ta”da nossa salvação sendo a partir daqui a nossa orientação. Estava-mos quase a chegar e eis que o amigo Santa cai dentro de um buraco mas não me aleijei pois o dito buraco estava devidamente forrado por “Feijão Macaco”, suado da caminhada e cansado foi um final de etapa apoteótico. Resultado, tive que apanhar um banho de terra antes do banho de água receita do então administrador do posto de Chala. Ex. Furriel Santa

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