E O FILME CONTINUA…
(Por F. Santa)
Quem não se lembra do filme: O comboio do Catanga? Pois eu vi esse filme antes de ir para a tropa e nunca pensei reviver quase na prática o mesmo, como todos nós vivemos.
O célebre comboio que nos transportou até Catur, levando no seu interior aquela massa humana apinhados uns em cima dos outros debaixo daquele calor tórrido ficou até hoje na minha memória e com certeza na vossa também. Ainda me lembro do rebenta minas que ia à frente das duas máquinas a vapor que puxavam todo aquele comboio, que mais parecia uma serpente gigante serpenteando pela selva fora. Lembro-me ainda quando aparecia uma subida, lá parava o comboio e lá ia o preto (com o devido respeito) poste acima como um macaco, levando consigo o telefone para informar a estação mais próxima que o comboio tinha que ser fraccionado. E o que acontecia? Lá ia metade do comboio e a outra metade ficava á espera. Chegados a Catur, já era noite e lá fomos para Lione cobertos de pó da picada qual moleiros de farinha amarela! Deixamos o cavalo de ferro a descansar da sua caminhada. Foram vinte e tal dias de barco; cerca de quarenta e oito horas de comboio, e finalmente tinha-mos chegado ao cenário de guerra. Lembro-me ainda de alguns avisos: A partir de agora não há postos; os oficiais podem dormir com soldados, e se possível todos põem bala na câmara! As divisas passarão a ser as camufladas. Santa
A VACINA
Por Ex-Furriel Paulo
“Quem não tem a vacina não pode embarcar”, diz o nosso doutor, em exclusividade, camarada furriel Vale. Esta é a história da vacina, não sei se da varíola ou outra análoga, que nós todos tínhamos que sofrer na pele e que deveria constar do nosso boletim de sanidade para podermos regressar à Metrópole. O frasco ou frasquinhos da mesma, devidamente “acautelados” pelo nosso camarada Vale, já rebolavam há bastante tempo pelo frigorífico, que primava pelo seu mau funcionamento, existente no nosso aquartelamento em António Enes. Dentro do prazo ou fora dele, eis que chega o dia da célebre vacina. Para nos injectar, foi convidado pelo camarada Vale, o nosso vizinho Doutor-Médico, que morava ali ao lado do nosso aquartelamento. Aquele que tinha uma mulher mais gorda que magra, mais antipática que sociável e que deu um tiro de pistola de 9 mm à nossa macaca-cão, ex-libris da nossa Companhia, por ter saltado para o quintal da dita cuja. A infeliz, toda ligada, gemia como os humanos. Os macacos também choram. Voltando à vacina. Como não havia os tais aparos especiais ou objectos apropriados para dar a mesma, o Sr. Doutor-Médico pediu um recipiente para despejar a vacina e um bisturi para introduzir na pele a mistela medicinal. Nestas coisas, o nosso camarada Vale nunca se atrapalhava. Era uma espécie de McGiver. Passou por água um pequeno pires que ali estava na sua secretária e que servia de cinzeiro e foi buscar um bisturi ao seu armário de primeiros socorros. Depois foi um ver se te avias. Começou a molhar o bisturi no pratinho e a cortar os nossos braços com três ou quatro incisivos golpes, em cadeia e sem parar, e introduzir “suavemente” a famigerada vacina, formando-se então uma mistura de sangues no pratinho da vacina onde o Sr. Doutor-Médico “molhava” o seu improvisado utensílio. E assim continuou até terminar o seu trabalhinho. Graças a Deus todos embarcamos dentro das NEP’s. A moral da história?!… Somos todos irmãos de sangue. Será que foi aqui que a maior parte de nós foi infectada com a bactéria dos “apanhados”? Ex-furriel Paulo
O FILME DO MEU ACIDENTE
Em todos os convívios se fazem relatos de coisas que aconteceram entre nós no Ultramar mas, todos me perguntam o que é que me aconteceu. Ora se bem me lembro foi assim: Estava-mos em Chala e já fazia muito tempo que não recebíamos correio. Como se sabe a malta nestas circunstâncias entrava em paranóia! O correio estava retido em Vila Cabral ou Lione, já não me lembro bem e era preciso ir buscá-lo. Arranjei voluntários e lá fui a caminho todos montados num Unimog! A certa altura, lembro-me que passámos por cima de um grande buraco que estava camuflado com folhas tendo saltado a grande altura para fora da picada rolando pelo chão. Momentaneamente perdi os sentidos que recuperei pouco depois mas, só me lembro de acordar na cama já no Lione. Fui depois evacuado para o Hospital de V. Cabral, onde fui observado e dias depois regressei a Lione onde estive alguns meses com aparelho de gesso na perna. Tendo regressado novamente ao hospital aparecera problemas na coluna e cabeça resultantes do dito trambolhão. Daqui resultou mais tarde a minha evacuação para o Hospital de Nampula onde estive internado cerca de três meses e meio, tendo sido detectada uma fractura na cabeça por solidificar e problemas na coluna a nível de vértebras. Depois daqui fui evacuado para o H. de Lourenço Marques onde estive quase sete meses em recuperação para ganhar músculo na perna e movimento no pé. Depois disto fui novamente evacuado para Lisboa indo direitinho a Campolide para os anexos do H. Militar (mais conhecidos pelos “galinheiros”) onde estive cerca de um ano fim do qual fui dado incapaz para o serviço militar. Fui para casa. Entretanto casei, durante nove meses não me deixaram trabalhar dando-me uma pensão de novecentos escudos. A partir do dia em que vos deixei sei que a vossa tarefa foi mais perigosa e complicada mas também não foi fácil para mim apanhar um ano e dez meses de hospital. Foi mais um filme de guerra, este passou-se comigo, mas outros filmes houve de camaradas nossos vitimados pelas minas, pelas emboscadas, ataques a aquartelamentos e outros maltratados em hospitais escondidos da sociedade, abandonados como farrapos por quem deles se serviu. A nós combatentes e deficientes do ultramar jamais nos calarão. Temos todos no corpo as marcas da guerra e queremos que a nossa Pátria não se esqueça de nós dando-nos para o resto das nossas vidas aquilo a que temos direito. Um abraço do camarada Santa
A seguir – Batalhão de Caçadores 2895
