(Adão Cruz)
Em artigo anterior fiz a defesa do Serviço Nacional de Saúde, frente à Exploração Capitalista da Saúde. Esta reflexão, contudo, não é tanto em relação ao SNS que existe, mas ao que o SNS poderia vir a ser, se houvesse vontade política. Ao que o SNS poderia vir a ser se houvesse uma vontade séria de eliminar os seus defeitos, as suas imperfeições e as suas carências, no sentido de o programar para um profundo desenvolvimento, indispensável à saúde de um povo.
Hoje, o conhecimento e a experiência médica são muito grandes. A investigação científica atingiu uma dimensão incalculável e a sua aplicação prática trouxe avanços inimagináveis na assistência aos doentes. Existem muitíssimos profissionais idóneos, com excelente formação técnica e humana e com grande vontade de colaborar nesse promissor futuro que seria um SNS de alto nível. Assim como existem instituições vocacionadas para a defesa dos profissionais, dos doentes e do correcto exercício da medicina, com uma consciência mais viva da nobreza da sua missão. Tudo indica, infelizmente, que este valioso património profissional, científico, social e humano será desprezado e destruído pelos poderes governativos vigentes.
Mas não podemos escamotear os defeitos, grandes imperfeições e carências no SNS e em toda a assistência médica em Portugal. As pessoas pensam que há coisas que só dizem respeito aos profissionais de saúde, especialmente aos médicos, mas não é assim. Toda a sociedade tem direito a saber as linhas com que se cose. Um dos graves defeitos da assistência médica, – claro que há muitas e dignas excepções – é a sua concepção errada a muitos níveis, e que leva a uma quase total ausência de um exercício clínico profundo, sábio e correcto, fora de um âmbito hospitalar credível. Daqui, a medíocre observação clínica de um doente, a avaliação clínica tantas vezes atamancada e a abordagem vulgarmente negligente e irresponsável da situação do paciente, impedindo qualquer diagnóstico ou linha de orientação eficaz, redundando em prescrições disparatadas e exames dispendiosos, muitas vezes nefastos e até mortais.
Vem tudo isto a respeito do doente idoso, isto é, aquele doente com mais de 65 anos, a dita terceira idade. Este doente é muito diferente do indivíduo jovem. É mais atingido por doenças, especialmente doenças crónicas, tem várias comorbilidades, (cerca de 53,8% têm cinco ou mais doenças crónicas). Além disso, as alterações fisiológicas próprias da idade são muitas, desde as alterações no funcionamento do tubo digestivo, do fígado, do rim, dos órgãos endócrinos, do sangue, da actividade psíquica, levando a alterações da absorção, do metabolismo e da excreção de substâncias.
Chegado ao ponto fulcral e intencional deste pequeno texto, eu queria dizer que quando há necessidade de prescrever um medicamento a uma pessoa idosa, os principais problemas prendem-se, como sugere um artigo da Dra. Lèlita Santos, com as patologias não tratadas, com a patologias mal tratadas, com a não indicação dos tratamentos e fármacos adequados ou com prescrições erradas, com a polimedicação, coma a não adesão, com o baixo nível de instrução, as fracas condições sociais e económicas, e, sobretudo com as reacções adversas aos medicamentos e as interacções medicamentosas, quer interacções fármaco-doença, quer interacções fármaco-fármaco. O idoso tem duas a três vezes mais probabilidades de sofrer uma reacção adversa do que um jovem. Há vários estudos que provam que um idoso a tomar vários medicamentos tem grandes probabilidades de interacções medicamentosas, reacções mais graves e com mortalidade duas vezes mais elevada do que em pessoas mais novas.
Neste drama da terceira idade, porque de um drama se trata, essencialmente por passar à margem da responsabilidade e do bom senso, centra-se um dos maiores defeitos e um dos mais graves problemas do SNS a nível periférico, extra-hospitalar, e, logicamente, da assistência privada, não a que é praticada por profissionais competentes, obviamente, mas a que se faz em muitas dessas clínicas, quase de vão de escada, que por aí proliferam. A ignorância, a incompetência e a falta de juízo crítico e clínico, estão na base da grande morbilidade e mortalidade produzidas pelas disparatadas intervenções e medicamentações, prescritas sem qualquer critério válido.
Sabendo que a terapêutica medicamentosa no doente idoso requer cuidados especiais, foram criados diversos instrumentos para avaliação do uso de medicamentos inapropriados e contra-indicados, permitindo a criação de um método que auxilie o médico na escolha de remédios e na ponderação das doses a ministrar, perante cuidada avaliação das funções vitais e de parâmetros analíticos. Para além dos Critérios STOPP/START que surgiram como uma resposta europeia aos problemas dos índices disponíveis para medir a inadequação potencial da prescrição aos doentes idosos, existem os Critérios de Beers, constituídos por dois quadros, um incluindo uma grande lista de substâncias a evitar nos doentes idosos e outro contendo diversas situações clínicas e os remédios a evitar nessas circunstâncias. Em suma, o que pretendem estes critérios é aconselhar a não utilização de medicamentos não recomendados em idosos, evitar medicamentos de venda livre, evitar remédios cujo benefício não seja claro, evitar medicação potencialmente perigosa ou desnecessária, independentemente do diagnóstico ou da condição clínica, tudo isto para evitar o alto risco de efeitos colaterais, por vezes muito nefastos.
A triste conclusão surge no seio daquilo que nós vemos todos os dias, a polimedicação irracional. Por outro lado, a utilização dos medicamentos que todos estes critérios reprovam e desaconselham é… mato. Daí que uma grande fatia das doenças dos idosos e até da sua mortalidade seja devida aos remédios.



Um grande artigo, Adão sobre um grande drama que todos passamos no dia a dia.
Bem hajas, um beijo grde
É mesmo, Adão, em Medicina, como em muitas outras Artes, o bom senso deve sobrepor-se à inteligência…e então a “esperteza”, essa não tem mesmo lugar!
Um abraço