EM COMBATE – 180 – por José Brandão

3.4.70. Hoje voltou a haver feridos na mesma zona da mina, mas segundo consta devido a uma viatura que se virou. Os soldados feridos são da companhia que está estacionada em Malapísia, a 2623 e pertencem ao nosso batalhão. Entretanto, registaram-se na zona de Vila Cabral diversos ataques e emboscadas. Um desses ataques deu-se há poucos dias numa povoação apenas a 15 quilómetros de Vila Cabral, em Nova Madeira, onde os guerrilheiros da Frelimo mataram um casal de brancos, marido e mulher, proprietários de herdades.

19.4.70. Tornou a haver problema no nosso batalhão. Desta vez foi com a CArt 2387. Aconteceu hoje quando regressava de Vila Cabral para o quartel do Lione uma das viaturas da coluna rebentou uma mina e ficou destruída, com diversos feridos entre eles um dos três médicos do nosso batalhão.

30.4.70. Segundo números oficiais, em Moçambique, desde 1 de Janeiro já morreram em combate mais de 40 militares portugueses.

Em Moçambique, e desde 1964, foram detectadas pelas forças portuguesas 5 290 minas e engenhos explosivos, dos quais 1 894 accionados por militares ou viaturas.

11.5.70. Mais uma mina, mais feridos, desta vez bastante graves e novamente na nossa companhia do Lione, que já acabou o tempo de comissão e está a aguardar que o “Vera Cruz” os venha buscar a Nacala.

Há 5 feridos graves, com 2 em perigo de vida, que permanecem no local a soro a aguardar que o helicóptero os vá buscar pois não podem ser transportados em viaturas tal é o seu estado.

Já seguiram para o local duas viaturas daqui do Catur: um camião Berliet com tropa daqui e a ambulância com mais um médico.

4.6.70. Mais uma vez a nossa companhia do Lione, a CArt 2387, teve problemas e bastante graves. Esta companhia, que já acabou o tempo de comissão em 24 de Abril, ou seja, está com dois meses a mais, teve uma emboscada a pouca distância do quartel deles no Lione.

A emboscada foi rápida e fatal. A determinada altura da picada que liga o Lione ao Catur, a coluna foi atacada à bazucada e a tiros de rajada. O resultado foi rápido e trágico: 2 soldados mortos e 3 feridos entre a nossa tropa. Os guerrilheiros não sofreram nenhumas baixas.

Os mortos, um era o condutor da viatura o outro um atirador. Os 3 feridos que estão graves, um é furriel e os outros são soldados.

Aqui, no Catur, limitámo-nos a ir lá ao Lione levar duas urnas para as vítimas mortais.

Entretanto, acaba agora mesmo de chegar o nosso pelotão que foi ao Lione e com eles a triste notícia de que o número de mortos aumentou para três dado que o furriel veio a morrer a caminho do hospital de Vila Cabral.

Estão mais 2 feridos em perigo de vida, um deles levou uma rajada nos intestinos. Há ainda mais 7 soldados com diversos ferimentos.

CHALA-LIONE. 16.6.70. Neste momento não me encontro no Catur. Estou no Chala que é um destacamento com um pelotão do Lione e que fica mesmo na fronteira com o Malawi. Tive de vir aqui para o Chala para substituir o telegrafista que se vai embora amanhã e vou ficar aqui duas semanas até vir o novo.

Estou aqui com um pelotão de 30 homens pertencentes à nossa companhia de Massangulo. Saí do Catur em direcção ao Lione integrado numa coluna de perto de 80 homens em três camiões Berliet. Passámos pelo local das minas e da emboscada e chegámos ao Lione depois de sete horas para percorrer à volta de 50 quilómetros.

Na foto: Entrada em Chala.

Desde o Lione ao Chala demorámos perto de nove horas, desta vez para fazer menos de 80 quilómetros. A picada do Lione para o Chala é das piores que há. Tivemos que ir quase todo o trajecto a pé com ferrinhos a picar o chão a ver se havia minas. As quatro viaturas da coluna vinham atrás, muito devagar, a fazer tiro para o mato junto à picada.

Finalmente, depois de andarmos muito devagar e com muitos tiros, chegámos ao Chala. Como já disse, o Chala é um pequeno destacamento na fronteira separado por arame farpado e por uma pequena pista de aterragem, metade em Moçambique e outra metade já no Malawi.

As casernas são debaixo do chão e o posto de rádio está numa velha roulotte, abandonada desde o começo da guerra.

Dada a proximidade com importantes bases da Frelimo, o Chala já foi alvo de ataques, sendo o último no dia 23 de Novembro de 1969. O dia em que a minha companhia chegou ao Catur.

Chala, 23.6.70. Estamos sem comer há dois dias e pedi pelo rádio para mandarem o avião com rações de combate pois nem isso temos.

A tropa nova que vem para aqui ainda está no Lione e só depois de amanhã, 25, é que o pelotão que vem traz comer.

26.6.70. Acabei o tempo de permanência no Chala, onde estive dez dias felizmente sem problemas. Já estou no Lione e amanhã regresso ao Catur passando por Vila Cabral.

2 Comments

  1. Olá José Brandão. Sou um camarada que esteve em Lione e Chala a partir de Julho de 1968. Estive também num destacamento chamado Matipa. Em Lione tivemos os primeiros mortos no chamado Caracol a caminho de Massangulo quando ía-mos ao Catur buscar mantimentos. Depois, já em 1969, fomos para o norte onde tivemos mais baixas. Não sei se conheces o nosso blog: C.Cav2415. Basta ires ao Google. Com um abraço, SANTA.

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