O MANUAL DO PERFEITO “BANKSTER” – Por Júlio Marques Mota.

Lição 2: aceitar o dinheiro sujo, seguido de A finança, é o roubo

Segunda parte de nossa série sobre as vigarices da delinquência financeira : a lavagem de dinheiro no HSBC – Um  trabalho do Le Nouvel Observateur – II 

(conclusão)

A finança, é o roubo

Laurent Joffrin
Director do Le  Nouvel Observateur

 

Depois do  Barclays, o HSBC claramente convenceu  de ter tido comportamento ilícito. E se a criminalidade financeira fosse, não  uma anomalia da finança  globalizada, mas uma das suas  componentes naturais?

Entendem os sociólogos que a pobreza, para sermos mais directos, incentiva a ilegalidade, na medida em que os pobres para saírem da sua situação de miséria estão mais propensos a entrarem em situações de delinquência. Os investigadores devem rever este seu tipo de análises. No caso dos mercados financeiros, não é a pobreza que gera a criminalidade, é a riqueza.

 A sede social de  HSBC, em  Londres. (BEN STANSALL / AFP)

Inquietamo-nos muitas vezes com o aumento da criminalidade nas cidades. Uma de entre elas, em que a taxa  de criminalidade está a crescer  de forma alarmante, merece uma atenção muito especial: a cidade de Londres. A Justiça acaba de colocar em evidência várias dessas acções ilegais que escandalizaram as pessoas honestas e mantêm um clima de insegurança propício a todos os distúrbios sociais. Trata-se dos efeitos dos crimes do gang Barclays, em que o temido chefe, Bob Diamond, reconheceu ter  incentivado durante anos a manipulação da Libor, a taxa de crédito interbancário de referência, para fins de extorsão através de um gang   organizado para o efeito , no quadro de uma  aliança com vários cartéis a agirem  a nível global (Royal Bank of Scotland, Citigroup, UBS,…)

Espírito de lucro

Em segundo lugar  os padrinhos  do clã HSBC, um dos principais bancos do mundo, estão fortemente sob suspeita de terem  lavado conscientemente   dinheiro proveniente de tráfico de drogas. Interrogados pelas autoridades norte-americanas, estes gangs enfrentam agora a ira dos tribunais. Os dois casos mais recentes seguem-se numa sequência de escândalos que lançam uma luz sobre os hábitos prevalecentes no mundo muito fechado das finanças internacionais e deixa muito pouco a invejar  às práticas que se observam  no crime organizado dos  bairros miseráveis das grandes cidades.

Os defensores do sistema dizem que se trata de ovelhas negras, cujas acções foram detectadas pela justiça e que tudo vai voltar a ficar na ordem quando as sanções ao abrigo da lei foram aplicadas. Mas há uma outra maneira de interpretar esses fenómenos, que não deixam de se repetir desde que o dinheiro se movimenta  livremente em torno do planeta: e se a criminalidade financeira  fosse, não  uma anomalia da finança  globalizada, mas sim uma das suas  componentes intrínsecas? E se  esta criminalidade financeira não fosse uma condição do sistema, mas sim o próprio sistema? O espírito de lucro colocada acima de toda e qualquer outra consideração é de facto a única moral que preside ao funcionamento dos mercados de dinheiro.

A riqueza gera o crime

A ganância foi erguida pelos teóricos do mercado livre, como pelos seus praticantes,  numa  máxima  universal, para utilizar  o vocabulário de Emmanuel Kant. O respeito, a reputação, a fama, são reservados somente aos  vencedores da especulação, independentemente dos métodos que eles utilizam, independentemente dos caminhos tortuosos pelos quais alcançaram a riqueza. O único valor reconhecido por este ambiente muito particular, é o valor em bolsa. Os outros valores – coragem, justiça, honestidade, rectidão – são apenas sobrevivências arcaicas do tempo em que havia, ao lado do dinheiro, outros critérios de sucesso individual. Tudo isto, herdado de  um tempo irracional e de um voluntarismo tipo boy-Scout,  foi afogado, como escreveu Marx, “nas águas frias do cálculo egoísta”.

E se o dinheiro é a medida de todas as coisas, a tentação torna-se forte para o acumular fora de toda e qualquer regra, de toda e qualquer moral, fora de toda e qualquer lei. Ao suprimir  qualquer outra referência que não seja o sucesso financeiro, prejudica-se a resistência  ao    roubo,  à fraude, à vigarice . O que não é visto não é considerado: aquele que enche a sua  conta bancária está sempre certo.  Os sociólogos muitas vezes relacionam  a taxa de  incumprimento  observada  neste ou naquele  sector específico da sociedade com o nível de vida das pessoas em causa. Entendem os sociólogos  que a pobreza, para sermos mais directos,  incentiva a ilegalidade, na medida em que os pobres para saírem da sua situação de miséria estão mais propensos a  entrarem em situações de delinquência . Os investigadores devem rever este seu tipo de análises. No caso dos mercados financeiros, não é a pobreza que gera a criminalidade, é a riqueza.

Laurent Joffrin,  La finance, c’est le volLe Nouvel Observateur, Julho de 2012.

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