Lição 2: aceitar o dinheiro sujo, seguido de A finança, é o roubo
Segunda parte de nossa série sobre as vigarices da delinquência financeira : a lavagem de dinheiro no HSBC – Um trabalho do Le Nouvel Observateur – II
(conclusão)
A finança, é o roubo
Laurent Joffrin
Director do Le Nouvel Observateur
Depois do Barclays, o HSBC claramente convenceu de ter tido comportamento ilícito. E se a criminalidade financeira fosse, não uma anomalia da finança globalizada, mas uma das suas componentes naturais?
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Entendem os sociólogos que a pobreza, para sermos mais directos, incentiva a ilegalidade, na medida em que os pobres para saírem da sua situação de miséria estão mais propensos a entrarem em situações de delinquência. Os investigadores devem rever este seu tipo de análises. No caso dos mercados financeiros, não é a pobreza que gera a criminalidade, é a riqueza. |
A sede social de HSBC, em Londres. (BEN STANSALL / AFP)
Inquietamo-nos muitas vezes com o aumento da criminalidade nas cidades. Uma de entre elas, em que a taxa de criminalidade está a crescer de forma alarmante, merece uma atenção muito especial: a cidade de Londres. A Justiça acaba de colocar em evidência várias dessas acções ilegais que escandalizaram as pessoas honestas e mantêm um clima de insegurança propício a todos os distúrbios sociais. Trata-se dos efeitos dos crimes do gang Barclays, em que o temido chefe, Bob Diamond, reconheceu ter incentivado durante anos a manipulação da Libor, a taxa de crédito interbancário de referência, para fins de extorsão através de um gang organizado para o efeito , no quadro de uma aliança com vários cartéis a agirem a nível global (Royal Bank of Scotland, Citigroup, UBS,…)
Espírito de lucro
Em segundo lugar os padrinhos do clã HSBC, um dos principais bancos do mundo, estão fortemente sob suspeita de terem lavado conscientemente dinheiro proveniente de tráfico de drogas. Interrogados pelas autoridades norte-americanas, estes gangs enfrentam agora a ira dos tribunais. Os dois casos mais recentes seguem-se numa sequência de escândalos que lançam uma luz sobre os hábitos prevalecentes no mundo muito fechado das finanças internacionais e deixa muito pouco a invejar às práticas que se observam no crime organizado dos bairros miseráveis das grandes cidades.
Os defensores do sistema dizem que se trata de ovelhas negras, cujas acções foram detectadas pela justiça e que tudo vai voltar a ficar na ordem quando as sanções ao abrigo da lei foram aplicadas. Mas há uma outra maneira de interpretar esses fenómenos, que não deixam de se repetir desde que o dinheiro se movimenta livremente em torno do planeta: e se a criminalidade financeira fosse, não uma anomalia da finança globalizada, mas sim uma das suas componentes intrínsecas? E se esta criminalidade financeira não fosse uma condição do sistema, mas sim o próprio sistema? O espírito de lucro colocada acima de toda e qualquer outra consideração é de facto a única moral que preside ao funcionamento dos mercados de dinheiro.
A riqueza gera o crime
A ganância foi erguida pelos teóricos do mercado livre, como pelos seus praticantes, numa máxima universal, para utilizar o vocabulário de Emmanuel Kant. O respeito, a reputação, a fama, são reservados somente aos vencedores da especulação, independentemente dos métodos que eles utilizam, independentemente dos caminhos tortuosos pelos quais alcançaram a riqueza. O único valor reconhecido por este ambiente muito particular, é o valor em bolsa. Os outros valores – coragem, justiça, honestidade, rectidão – são apenas sobrevivências arcaicas do tempo em que havia, ao lado do dinheiro, outros critérios de sucesso individual. Tudo isto, herdado de um tempo irracional e de um voluntarismo tipo boy-Scout, foi afogado, como escreveu Marx, “nas águas frias do cálculo egoísta”.
E se o dinheiro é a medida de todas as coisas, a tentação torna-se forte para o acumular fora de toda e qualquer regra, de toda e qualquer moral, fora de toda e qualquer lei. Ao suprimir qualquer outra referência que não seja o sucesso financeiro, prejudica-se a resistência ao roubo, à fraude, à vigarice . O que não é visto não é considerado: aquele que enche a sua conta bancária está sempre certo. Os sociólogos muitas vezes relacionam a taxa de incumprimento observada neste ou naquele sector específico da sociedade com o nível de vida das pessoas em causa. Entendem os sociólogos que a pobreza, para sermos mais directos, incentiva a ilegalidade, na medida em que os pobres para saírem da sua situação de miséria estão mais propensos a entrarem em situações de delinquência . Os investigadores devem rever este seu tipo de análises. No caso dos mercados financeiros, não é a pobreza que gera a criminalidade, é a riqueza.

